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Novas drogas sintéticas mais agressivas chegam da China

Traficantes intensificam importação aproveitando que substâncias ainda não são proibidas

Substâncias como ecstasy e LSD já têm substitutos. As novas drogas sintéticas são mais perigosas e difíceis de controlar
Substâncias como ecstasy e LSD já têm substitutos. As novas drogas sintéticas são mais perigosas e difíceis de controlar
Foto: Reprodução

Para driblar a fiscalização, traficantes apostam na entrada de novas drogas no país, provenientes principalmente da China. Como algumas substâncias novas ainda não são proibidas, o comércio delas não é enquadrado como crime.

Só entre 2014 e 2015, a Polícia Civil de São Paulo identificou pelo menos 20 substâncias psicoativas até então desconhecidas, que não constavam na lista de proibição da Anvisa, órgão público que regulamenta a produção e distribuição de materiais químicos.

O grande berço dessas drogas é o Oriente, segundo o perito criminal José Luiz da Costa, do Núcleo de Toxicologia Forense da Polícia Civil de São Paulo. Apesar de não haver proibição, os efeitos de algumas são mais fortes que as drogas já conhecidas.

“São novas moléculas sintetizadas para causar o mesmo efeito ou até um efeito pior que as drogas tradicionais O traficante age assim: lança no ‘mercado’ e começa a vender sem restrição, já que elas demoram para entrar na lista da Anvisa. As investigações apontam que a maior parte dessa droga vem do Oriente, principalmente da China”, explica o perito.

Um exemplo é o alucinógeno 25B-NBOMe, considerado substituto do LSD. Os usuários correm mais risco de sofrer uma overdose do que com a substância tradicional.

“Os riscos de overdose com a droga comum são mínimos, diferente do NBOMe, que é muito mais agressivo do que o LSD”, diz Fernando Beserra, professor de psicologia e pesquisador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos.

Atualmente, 11 variações do alucinógeno fazem parte da lista da Anvisa. Uma das variações do LSD, o NBOMe, chegou a causar o afogamento de um estudante da USP, em São Paulo, em 2014. O corpo foi encontrado na raia olímpica da universidade.

Entre a identificação da substância e a inclusão na lista da Anvisa, o processo pode demorar meses, o que dificulta o trabalho da Polícia, segundo o perito.

“Geralmente, as drogas são apreendidas com detidos que chegam na delegacia com alteração no comportamento. Quando submetidos a exames toxicológicos, a perícia não detecta substâncias conhecidas, o que faz com que a equipe desconfie do material e envie para a Anvisa”, conta.

A quantidade de drogas sintéticas não identificadas representa cerca de 7% das apreensões da polícia no Brasil, segundo o representante do Núcleo de Toxicologia paulista. A maconha aparece em primeiro no ranking, com 80%. Em seguida, vem as drogas sintéticas reconhecidas e proibidas pela Anvisa, como o ecstasy e o LSD.

É preciso regulamentar, diz psicólogo

O professor de Psicologia Fernando Beserra aponta a falta de regulamentação de drogas antigas no Brasil como um fator que impulsiona os criminosos a fabricarem mais substâncias nocivas.

“Se não regulamentar, vai surgir cada vez mais substâncias nocivas. É preciso acabar com essa cultura de proibição que existe no Brasil”, diz.

Segundo o especialista, pesquisador em “Saúde Mental e Atenção Psicossocial”, o uso de drogas desconhecidas representa um risco muito grande para a saúde pública. Para ele, o Brasil precisa desenvolver uma política de redução de danos, investindo em estudo dessas substâncias.

"São substâncias que, se não forem estudadas antes de um grande uso, pode até gerar um desiquilíbrio na saúde pública. São drogas fortes. Se não forem testadas antes do grande público usar, será impossível conhecer os verdadeiros riscos", comenta o pesquisador.

Para ter acesso às drogas, Beserra recomenda a infiltração de profissionais de saúde em festas fechadas, principal ponto de venda dos psicoativos. "É preciso dar liberdade e colocá-los dentro dos locais de venda para que eles tenham acesso aos 'produtos'. É preciso descobrir os efeitos das drogas, antes que elas atinjam a população em cheio. Proibir não resolve", comenta ele.

Apreensão de drogas sintéticas cresceu 500%

Segundo o delegado Fábio Pedroto, as novas substâncias não chegaram no Estado
Segundo o delegado Fábio Pedroto, as novas substâncias não chegaram no Estado
Foto: Marcos Fernandez/Arquivo

Ainda não houve registro da presença dessas novas substâncias dentro do Espírito Santo no último ano, mas o número de apreensões de drogas sintéticas cresceu assustadores 500% em 2015, segundo o delegado Fábio Almeida Pedroto, da Delegacia Especializada de Tóxicos e Entorpecentes. 

“Droga sintética é aquela produzida totalmente em laboratórios, diferente das naturais, como a maconha, e das semissintéticas, como a cocaína, que são naturais mas passam por processos químicos superiores”, explica o delegado.

A maior parte das apreensões foi de lotes do famoso ecstasy. De acordo com o delegado, a modificação constante das substâncias em laboratórios clandestinos dificulta o trabalho da polícia.

“O problema é que os compostos novos demoram a ser listados como produtos controlados pela lei (Portaria 344/98 da ANVISA), facilitando o acesso de usuários e dificultando a ação da polícia”, diz.

Uma droga sintética apreendida recentemente aqui no Estado foi a chamada crystal. Apesar de constar na lista de substâncias proibidas pela Anvisa, a droga, que pode ser usada de forma oral, cheirada ou fumada, é pouco conhecida no Espírito Santo. Seus efeitos duram até 8 horas e ela causa euforia, diminuição do apetite, do sono e da fadiga, e proporciona emoções intensificadas.

As drogas sintéticas são vendidas, na sua maioria, em festas fechadas de jovens de classe média e classe média alta, locais que são considerados como uma pedra no sapato dos policiais.

“É uma categoria de drogas muito consumida por classes sociais de maior poder econômico, em raves, onde o acesso da polícia é mais complicado”, explica.

O caminho das drogas

De onde são

A maioria dessas novas drogas vêm do Oriente Médio, principalmente da China, segundo o perito criminal José Luiz da Costa, do Núcleo de Toxicologia Forense da Polícia Civil de São Paulo.

Onde são vendidas

As novas substâncias são vendidas principalmente em festas fechadas, o que dificulta o trabalho de identificação da polícia.

Público-alvo

As novas drogas atendem principalmente os jovens de classe média. Algumas delas são mais baratas do que as tradicionais, mas oferecem mais riscos para a saúde.

Exemplos de novas drogas

Nesedrona: Droga em comprimidos. Ela tem um efeito muito parecido com o da cocaína. O usuário fica bastante agitado após o uso.

25b-NBONe: Alucinógeno enrolado em papel. Conhecido por substituir o LSD, tem um efeito maior que o tradicional “doce”. Uma das variações dessa droga causou o afogamento de um estudante da USP.

MDPV: Comprimido. É parecido com a cocaína. Os efeitos, entretanto, são piores, deixando o usuário ainda mais agressivo.

AKB47: É o substituto sintético da maconha. Há poucos registros de apreensão da AKB47, mas ela é mais “poderosa” do que a droga tradicional

25c-NBONe: Alucinógeno. Tem a mesma estrutura química e efeito do 25b-NBONe. Entretanto, é produzido com o átomo de cloro.

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