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"Sociedade precisa do conflito, não do confronto", diz Mário Sérgio Cortella

Filósofo fala ainda sobre o atual momento da educação. Para ele, famílias devem ser parceiras da escola na formação de crianças e jovens

Pais devem buscar parceria com a escola e não terceirizar a ela toda a educação dos filhos. É o que defende o professor doutor e filósofo Mário Sérgio Cortella. Ele vem ao Estado para abrir as comemorações de 20 anos da CBN Vitória, hoje.

Em entrevista para A GAZETA, Cortella também falou sobre o momento político atual, corrupção e democracia. Segundo ele, são tempos de aprendizado. Confira:

Diante da polarização que estamos vivendo, perdemos a noção do “outro” para defender nossas opiniões e interesses?

Estamos num processo de aprendizado de convivência e de conflito. A democracia brasileira ainda não tem 30 anos, um país de 516 anos não tem nem 10% de sua história com um processo em que ideias contrárias convivem sem que haja um confronto. Uma sociedade, assim, como uma família, como uma universidade, precisa ter o conflito como sendo uma possibilidade. Mas o confronto, jamais. O conflito é a divergência de posturas, o confronto é a tentativa de anular a outra pessoa ou a outra perspectiva. E nós estamos ainda num aprendizado. Por isso, há uma série de exorbitâncias nesse campo. Nós não nos acostumamos a ter a convivência de posturas que sejam diferentes. Por isso precisamos de racionalizar e oferecer mais inteligência a esse processo. Portanto, com todos os exageros que hoje temos esse aprendizado é extremamente benéfico.

As pessoas já começam a enxergar a corrupção com um olhar mais crítico?

A grande novidade do nosso tempo é que de repente nós acendemos a luz. E ao acender a luz vimos que havia coisas acontecendo e que a gente não sabia que acontecia. Ou até era omisso porque delas participava de maneira indireta. Ou não queria acender a luz porque era mais cômodo continuar com a luz apagada. Quando a luz se acendeu, ratos e ratazanas saíram em grande quantidade e nós notamos que eles estavam corroendo a nossa sustentação como nação. Nesta hora, dois movimentos aconteceram. O primeiro foi o horror ao rato. O segundo foi pensar que às vezes nós temos algumas ratices também. E nessa hora é um momento de meditação que só é possível porque nós temos hoje plataformas digitais e imprensa livre e instituições mais sólidas. Então, é possível a denúncia, o rastreamento, a apuração. Eu não tenho dúvida de que nós não sairemos desse circuito com a mesma convicção em relação à corrupção, como se ela fosse um elemento constitutivo da identidade brasileira. Ao contrário, a corrupção não é exclusividade nossa, mas ela tem se constituído num modo de construir a nação absolutamente rejeitável.

Falando de educação, para o senhor, hoje se espera demais da escola?

Não tenho a menor dúvida. Houve uma rarefação, uma diminuição da convivência do mundo adulto com o das crianças e jovens pela extensão das cidades, pelo número de horas a ser dedicado ao trabalho externo, essa diminuição dessa convivência gerou uma geração de crianças e jovens um pouco mais soltas, quase que marcadas por uma certa vida solitária. Essa vida solitária gerou uma condição que é a não possibilidade de uma formação mais sólida desses valores. Isso fez com que a escola fosse entendida como a instituição com a maior responsabilidade porque é aquela com a maior presença de adultos nessa convivência com as crianças e jovens e se ofereceu à escola uma tarefa da qual ela não é capaz, que é o conjunto da educação das crianças e jovens. Uma escola faz a escolarização. Isto é, atua com ensino, com formação de valores, mas ela tem limites muito sérios em relação a isso. A responsabilidade pela educação é da família de maneira original e do poder público de modo secundário. A escola faz parte da educação em geral, mas não faz toda a educação. Isso significa que não dá para terceirizar responsabilidades oferecendo a uma única instituição, no caso a escola, algo que é tarefa de uma família. Esse exagero da crença na atividade escolar produz distorção. Uma delas é exatamente esse descaso que vez ou outra algumas famílias acabam produzindo e por isso argumentam que não têm condição de fazê-lo sozinho. De fato, não têm. Por isso precisam de uma parceria com a escola, mas parceria é bastante diferente de dependência.

O que o senhor acha da adoção da Base Nacional Comum curricular? Ela ajuda a retirar essa expectativa e a tornar a educação menos conteudista?

Há a necessidade urgente de termos uma base nacional curricular comum. As grandes nações do mundo – e nós temos de estar entre elas – têm uma base assim. O que nós não podemos é fazer com que essa base seja implantada de modo artificial. Por isso, foi muito importante que as autoridades na área da educação colocassem o processo em discussão e debate. Infelizmente, essa discussão fica prejudicada pelo ambiente nacional que é muito mais envolvente e importante, mas hoje organizações e instituições vêm debatendo. Há alguns projetos daquilo que foi feito originalmente que necessitam de correção. Há a necessidade de impedir que nessa base nacional conteúdos que são decisivos fiquem de fora. Por outro lado, que haja a fixação excessiva de outros tipos de conteúdo. Essa base que está em debate é muito importante para a nossa organização nacional.

20 anos CBN

Palestra com Mário Cortella

Local: Centro de Convenções de Vitória.

Quando: Hoje. Horário: 14h.

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