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"Aproveitava toda folga que tinha para enfiar a cara nos livros", diz capixaba com PHD nos EUA

Diego, 29, saiu de João Neiva para ganhar o mundo e hoje cursa doutorado nos EUA

Nascido e criado na zona rural do município de João Neiva, Norte do Espírito Santo, o agricultor Diego Barcelos, de 29 anos, decidiu ganhar o mundo até que pudesse voltar e contribuir com a agricultura capixaba, atividade que sempre garantiu o sustento da família. A ideia deu tão certo que, hoje, Diego já cursa doutorado (PhD) em Ciências do Solo (Agronomia) na University Of Georgia (UGA), nos Estados Unidos e tem se destacado no mercado acadêmico. Isso tudo veio com muito estudo e esforço. Ele conta que, desde o ensino médio, aproveitava todas as folgas para “enfiar a cara nos livros”.

Dominando três idiomas, o capixaba já acumulou diversos prêmios na instituição. Recentemente, ganhou o Prêmio de Viagem Internacional de Pós-Graduação da UGA pela realização de pesquisas de campo no Brasil. Prêmio que já havia ganhado em 2013, durante o curso de mestrado em Ciências do Solo.

Bolsista na universidade por meio de um programa do governo federal, Diego conta que antes de sair pelo mundo, viveu no distrito de Barra do Triunfo, uma localidade simples, segundo ele, com cerca de 100 famílias. Mas embora tenha entrado para o mundo acadêmico, garante que ainda é o mesmo agricultor, que cresceu cultivando a terra e recebendo dos pais todo o apoio para estudar.

E entre uma capinada e outra, lá estava Diego, estudando muito com o incentivo dos pais. “Mas o que fez a diferença foi ter cursado o ensino médio no Ifes de Colatina. Ali, abri a mente para um mundo de possibilidades e percebi que poderia chegar mais longe”, relembra.

Morando nos Estados Unidos há quatro anos, Diego explica que pretende voltar para o Brasil para atuar em alguma instituição de ensino de ponta, para continuar com suas pesquisas, ou então atuar como consultor em agronomia para propor soluções para a agricultura local.

Enquanto essa data não chega, a mãe Eliane Casotti Barcellos, uma professora aposentada, de 50 anos, tenta conviver com a saudade. “O que me conforta é o orgulho de ter um filho tão dedicado. Ele sempre estudou em escola pública e chegou tão longe. Sinto orgulho”, reflete.

O produtor rural José Geraldo Barcelos, de 53 anos, diz que está feliz porque vê nos filhos - Diego tem duas irmãs, de 25 e 21 anos - uma conquista profissional que ele não conseguiu alcançar.

Dedicação

Cursando doutorado (PhD) em Ciências do Solo nos Estados Unidos, o capixaba Diego Barcellos, de 29 anos, garante que dedicação e bom relacionamento é a base para ir longe na área acadêmica.

Por que você quis sair de João Neiva?

Sempre fui agricultor, desde criança, e nunca parei, nem nas férias escolares. Então, quando eu percebi que poderia aproveitar meu bom desempenho acadêmico para auxiliar os agricultores e minha família, pensei em me especializar e voltar para ajudar.

E o que você fez?

A base que tive cursando o ensino médio no Ifes de Colatina fez toda a diferença. Ali conheci pessoas, abri a mente para novas possibilidades. Foi essa base que permitiu me graduar em Engenharia Agrônoma pela Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, em 2011.

Você é bolsista no exterior?

Sim, consegui a bolsa por meio de um processo seletivo em Viçosa para o mestrado e hoje curso doutorado onde busco entender como funciona a natureza, do nível molecular até o nível da paisagem.

Quais são suas dicas?

Tem que estudar e se dedicar o máximo possível. Além disso, é preciso buscar as pessoas certas para chegar longe. É um professor que indica para um amigo e as coisas vão acontecendo.

Qual a sua meta?

É voltar para o Brasil, atuar em uma universidade federal renomada ou trabalhar como consultor de empresas para o desenvolvimento de projetos agrônomos.

O que acha da seca no Espírito Santo?

O problema é global. Os agricultores são verdadeiros heróis ao conseguirem produzir nessas condições. Já até desenvolvi um projeto para o desenvolvimento da bacia hidrográfica de João Neiva, com práticas agrícolas de solo e de água preservacionistas, para manejar a bacia adequadamente. Mas ainda preciso de apoio.

Há culpados?

Não culpo os agricultores. O incentivo político do passado não era preservacionista. Há carência de conhecimento, orientação e de apoio aos agricultores.

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