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Morre aos 78 anos o artista Milson Henriques

O enterro está previsto para as 16h30, no Cemitério de Santo Antônio, em Vitória

O artista Milson Henriques faleceu na madrugada deste sábado (25), no Hospital das Clínicas, em Vitória. O consagrado cartunista, escritor e ator enfrentava uma batalha contra a leucemia e estava internado desde março deste ano.

A procuradora e amiga do artista, Carolina Zanchetta, informou que os procedimentos no cartório estão sendo agilizados nesta manhã. O enterro está previsto para as 16h30, no Cemitério de Santo Antônio, em Vitória.

O secretário de Cultura do Estado, João Gualberto, lamentou a morte do artista. "A cultura capixaba teve a chance de ter em Milson Henriques um ícone. Um farol nos tempos da escuridão da ditadura. Um educador que fez brotar talentos em nossas crianças. Autor de dezenas peças de teatro, livros e tiras diárias para jornais transitou com humor e brilhantismo em tudo o que fez e em inúmeras linguagens artísticas", comentou.

Milson Henriques nasceu em São João da Barra, no Rio de Janeiro, em 1938. Chegou ao Espírito Santo em 1964, de passagem, mas ficou. É conhecido por sua contribuição no teatro, literatura e, principalmente, como chargista - criando a personagem Marly, que até hoje tem tiras publicadas no Caderno 2 de A GAZETA, em 1973.

"Quero ver minha peça virar filme"

Em agosto do ano passado, Milson Henriques contou sua trajetória e comentou, inclusive, de novos projetos como ver a peça "A Tímida Luz de Velas das Últimas Esperanças” virar filme. Confira abaixo a entrevista na íntegra:

"Cheguei a Vitória de passagem, em 1964. Ia para o Uruguai, mas estava sem dinheiro, então ia descendo aos poucos. Sempre tive curiosidade de conhecer Vitória. Achava que, por ser uma capital e uma ilha e devia ter vida noturna por causa da Ufes e uma boa zona por causa do porto. Quando cheguei aqui, sem dinheiro, não tinha emprego nenhum em desenho, não tinha agência de publicidade ainda e eu pintava tapumes de construção de prédios no Centro, quando Cariê Lindenberg – um dos fundadores da primeira agência da cidade, a Eldorado – me viu desenhando os tapumes daquele prédio do Banestes no Centro em Vitória e me ofereceu emprego.

Eu trabalhava com Janc, na época o chargista de A Gazeta, e com aquele monte de gente de esquerda porra louca, os intelectuais da cidade. Eu tinha uma coluna que se chamava “Dondoca Já Se Foi”, que dava notícias de polícia em tom de colunismo social.

Ditadura

Em 1969, comecei a escrever e dirigir teatro para universitários. Era teatro arena, que ninguém conhecia. Na peça “De Setembro a Setembrino” (em referência ao ex-governador Setembrino Pelissari), a ditadura encrencou comigo.

Marly

O engraçado é que, por ser um talento que eu tenho, o desenho é o que eu menos gosto de fazer. O meu desenho é mais sério do que um desenho de humor. Eu criei a Marly para ser uma solteirona alienada, pra despistar a ditadura, e hoje ela é superpolitizada. Até porque a solteirice dela, hoje, não é tão interessante mais. Antes tinha a chatice da censura, então sempre senti falta de falar, de dar opinião.

Sou ateu. Acho esses Malafaias horríveis, mas eles estão no direito deles. Só não quero que venham falar que eu não posso pensar como penso. Respeito a religião deles e quero que eles respeitem a minha. Por isso gosto de viajar, para ver as diferenças da cultura, da moral e do preconceito nos diferentes países.

Patos

Coleciono patos e acho o design do pato magnífico. As pessoas me consideram multimídia, porque fiz teatro, desenho, cinema, festival de música... Já eu acho que eu sou meio pato. Eu sei andar, sei voar, e sei nadar, mas nenhuma dessas coisas eu sei fazer direito. Queria ser assim tipo o Maurício de Sousa, que era meio moralista, meio chatinho, mas, na obra, um gênio.

Se eu me superei em alguma coisa foi na falta de formação formal, da escola cultura.

Projetos

Em um show na Aliança Francesa, uma mulher entrou em contato comigo dizendo que tem um irmão que mora na Noruega e é amigo da Liv Ullmann, ex-mulher do (cineasta) Ingmar Bergman. Ele estava querendo me achar porque a Liv queria fazer um filme baseado no meu livro “A Tímida Luz de Velas das Últimas Esperanças”. Eu falei “Claro! Não precisa nem pagar, eu dou o livro para ela.”

Ela já me ligou algumas vezes para falar da adaptação porque na Noruega não existiu muita imigração de africanos e a peça é sobre uma dondoca e sua empregada, que a criou. Espero que minha amiga Liv, já íntima, consiga montar o filme.

Câncer

Eu sempre quis visitar a Coreia. Planejava ir à Noruega e depois para lá (Coreia), mas aí apareceu essa merda. O médico disse, que avião nem pensar. Não posso ficar em lugar fechado; posso pegar qualquer coisa pela imunidade baixa.

Eu descobri há quase um ano, quando fui fazer exame de próstata e meus glóbulos brancos estavam muito altos. O médico me disse que minha leucemia é crônica e eu nem sabia que isso existia. Ele me disse que todo mundo tem alguma de que vai morrer, e que eu provavelmente tinha leucemia há muito tempo, uns dez ou quinze anos. Ou provavelmente desde pequeno, mas nunca me deu problema. Com a idade é que a coisa se manifestou.

Depois que descobri, fui pro Chile, fiquei dois meses lá e a vida continuou normal; bebendo, cantando e dançando. Não tive nada ainda. O cabelo deve começar a cair depois da próxima sessão de quimioterapia, nos próximos dias.

Apareceram três linfomas na barriga e por isso estou fazendo o tratamento. Já fiz três baterias e não me senti muito mal. Só tive um pouco de enjoo nas primeiras vezes.

No segundo dia de quimioterapia a sessão foi até às 15 horas. Às 19 horas eu já estava me apresentando no coral. Não mudou em nada até agora. O número dos glóbulos já está diminuindo. É mais um obstáculo que vou vencer.

O tratamento vai até dezembro, então em janeiro já conheço a Noruega. Quero continuar viajando o mundo e quero saber do tal filme, já que nunca pensei que uma peça minha fosse filmado pela mulher do Bergman. É um céu... Uma peça minha interpretada por Liv Ullmann. Depois essa mulher ganha um prêmio, um Oscar, imagina? De repente vem um negócio desses pra coroar a minha vida. Quero ver isso se tornar realidade.

Quando eu operei o coração – três safenas e uma mamária – queria pensar em alguma coisa do futuro que eu queria ver. Era (o texto) “O Belo e as Feras” montado. “Não vou morrer porque quero ver essa peça montada”, pensava. Agora eu falo “quero ver esse filme.”

Pode ser que comece a aprender balé, algo que nunca fiz. E por que não? Estou aberto a tudo."

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