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Cotistas denunciam discriminação na Ufes

Entre os relatos há até separação de turmas para não cotistas

"Em sala de aula, há panelinhas, grupos fechados" - João Victor dos Santos, estudante, 22 anos
"Em sala de aula, há panelinhas, grupos fechados" - João Victor dos Santos, estudante, 22 anos
Foto: Fernando Madeira

Eles superaram o ensino precário das escolas públicas, as dificuldades financeiras e conseguiram ingressar em uma universidade federal. Neste ano, 1.439 cotistas foram aprovados no vestibular da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), mas engana-se quem pensa que a luta acabou. Hoje, eles lutam contra o preconceito. A situação é tão alarmante que uma turma, que não entrou na Ufes neste ano, já foi até separada entre cotistas e não cotistas.

A divisão aconteceu quando o Departamento de Arquitetura e Urbanismo dividiu as turmas de primeiro período em aulas laboratoriais de Geometria Gráfica 1, Desenho Artístico 1 e Composição Bidimensional. O relato é do aluno João Victor dos Santos, de 22 anos. Ele faz parte do grupo Coletivo Negrada, uma organização de estudantes que, na ocasião, publicou uma nota de repúdio contra a universidade.

Os cotistas reclamam que são excluídos das festas de confraternização, são citados em rodas de deboche na internet, são considerados inferiores intelectualmente e afirmam que seus sobrenomes viram piadas entre outros sobrenomes nas listas de chamada.

Um estudante do curso de Direito, que não quer se identificar, diz que o preconceito é frequente. “Muitos alunos não cotistas acham que tomamos a vaga de outros estudantes, que eles consideram mais capacitados para ocupar essas vagas. Não entendem que eles tiveram acesso a uma qualidade de ensino, a oportunidades que muitos cotistas não tiveram”, explica.

Outra estudante, que não também quer se identificar, desabafa: “Já passei por discriminação por ser cotista. Tem alunos da minha turma que falam abertamente que são contra a presença de cotistas na turma”.

A relação entre cotistas e não cotistas foi tema da tese de doutorado da professora adjunta do Departamento de Biblioteconomia da Ufes, Maria Cristina Figueiredo Guasti, que resultou no livro “Representações Sociais: sobre as ações afirmativas no ensino superior e sobre os estudantes cotistas da Ufes”. Ela ouviu alunos de nove cursos. Naqueles com maior status como Medicina, Engenharia, Arquitetura, Odontologia e Direito, a aceitação das cotas é baixa.

A professora relata que ficou chocada com o resultado. “Existe uma raiva. Os alunos que não aceitam os cotistas são de origem escolar particular e classe social mais alta. Para eles, o cotista roubou a vaga do amigo deles, por isso não merece estar ali”, explica.

Para o estudante Filipe Augusto Pereira, cotista de Engenharia Civil, falta humanidade. “Falta conhecer a história do outro, suas condições financeiras, meu pai é pedreiro. Se não fossem as cotas, estar no sétimo período de Engenharia hoje estaria muito distante”, diz.

Estudo

Cotistas

Alunos

Total de alunos

Em 2015, eram 30.102 estudantes

Cotistas

Eram 10.349 em 2015

Neste ano

Ingressaram 1.439 cotistas ao todo

Pesquisa

Qualitativa

Tese

Um levantamento foi feito pela professora adjunta do Departamento de Biblioteconomia da Ufes, Maria Cristina Figueiredo Guasti, em sua tese de doutorado

Relações

Ela estudou as relações sociais entre estudantes cotistas e não cotistas

Amostra

Foram ouvidos alunos cotistas e não cotistas de nove cursos, entre eles de Medicina, Direito, Odontologia, Arquitetura e Engenharia.

Conclusão

Em geral, o índice de aceitação de cotistas entre os não cotistas é muito baixo e os cotistas sabem que não são bem-vindos.

O resultado

Os dois grupos convivem claramente separados.

Tratamento diferenciado

“Já passei por discriminação por ser cotista” - Estudante, 22 anos

“Já passei por discriminação sim, por ser cotista. A gente percebe no tratamento diferenciado, nas festas para as quais não somos convidados, nas hora de fazer os trabalhos em grupo. Com o tempo, vamos percebendo algumas mudanças de pensamento, embora existam alguns filhos de desembargadores que se acham superiores aos cotistas.”

Oportunidades

“Muitos acham que tomamos a vaga deles” - Estudante, 19 anos

“Muitos alunos não cotistas acham que tomamos a vaga de outros estudantes, que eles consideram mais capacitados para ocupar essas vagas. Não entendem que eles tiveram acesso a uma qualidade de ensino, a oportunidades que muitos cotistas não tiveram. Eu nunca senti comigo diretamente, mas vejo ocorrer com meus colegas.”

“Vocês é que são vira-latas”, ouviu aluna

Campus de Goiabeiras, o principal  da universidade
Campus de Goiabeiras, o principal da universidade
Foto: Arquivo

Frases como “não é que nós excluímos vocês aqui. Vocês é que são vira-latas” inflamaram uma acirrada discussão entre cotistas e não cotistas em uma turma da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

O relato foi ouvido durante a pesquisa realizada pela professora adjunta do Departamento de Biblioteconomia da Ufes, Maria Cristina Figueiredo Guasti, para uma tese de doutorado. Segundo ela, os alunos relataram que uma página foi criada na internet onde os não cotistas marcavam festas e difamavam os cotistas.

Uma aluna não cotista, porém, aproximou-se de uma estudante cotista e a turma não aceitou, excluindo-a do grupo. Um debate se acirrou em sala de aula e foi preciso intervenção dos professores para manter a ordem.

De acordo com o estudo, segundo os não cotistas quem entrou na universidade pelo sistema de cotas não consegue acompanhar o ritmo intelectual da turma, faz parte de uma segunda classe. Apesar desse estopim, ocorrido no ano passado, o preconceito hoje acontece de forma mais discreta, segundo a pesquisadora.

Desempenho

Mas ao contrário do que afirmam os estudantes que são contra as cotas, a própria Ufes afirma que, na média, os estudantes que entram sem cotas são equivalentes aos que têm acesso à universidade por intermédio de cotas.

Uma pesquisa realizada de 2008 a 2011 mostrou que estudantes cotistas e não cotistas possuem desempenho similares. O levantamento considerou desempenho de todos os alunos de 72 cursos.

“Em 60% desses cursos os estudantes cotistas tiveram desempenho igual ou superior ao de não cotistas”, afirmou, em 2014, Maria Auxiliadora Corassa, pró-reitora de Graduação da Ufes. A instituição reafirmou essas informações em nota.

Outro lado

Ufes afirma que houve erro no sistema

Sobre a divisão feita pelo Departamento de Arquitetura e Urbanismo que dividiu, entre cotistas e não cotistas, as turmas de primeiro período em aulas laboratoriais de Geometria Gráfica 1, Desenho Artístico 1 e Composição Bidimensional, no ano passado, a Administração Central da Ufes informa, em nota, que mediante a denúncia, à época foi verificado que houve uma falha no sistema, cujo reparo foi realizado imediatamente. A universidade explicou que em nenhum momento houve intencionalidade, seja por parte da administração ou por parte da coordenação do curso, de promover alguma segregação entre estudantes optantes pelo sistema de reserva de vagas e estudantes não optantes. A Administração Central da Ufes lamenta que, apesar de todas as iniciativas para promover a inclusão, ainda existam casos de preconceito contra estudantes, seja motivado por sua classe social, raça, religião, gênero ou qualquer outra razão.

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