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Aedes aegypti: o inimigo difícil de ser eliminado

Mosquito transmite dengue, zika, chikungunya e até febre amarela

Menos de um centímetro de diâmetro, voo baixo, patas e abdômen listrados de preto e branco. É por trás deste corpo pequeno e aparentemente frágil que se esconde um dos maiores vilões da vida real: o Aedes aegypti. Transmissor dos vírus da dengue, da zika e da febre chikungunya, o mosquito foi o responsável pela morte de 794 pessoas no país somente no ano passado e ao longo de mais de 35 anos vem desafiando os governos brasileiros quando o assunto é combatê-lo.

Como se não bastassem as epidemias já existentes, a nova ameaça de que o vírus da febre amarela (por enquanto encontrado em sua forma silvestre) se espalhe pelo meio urbano através do Aedes fez com que o governo estadual lançasse mão, recentemente, de uma nova tecnologia de mapeamento do vetor, a fim de controlar infestações. Mas, ao que tudo indica, a tarefa não será fácil e exigirá a participação em massa da sociedade.

Com apenas uma palavra, a entomologista e pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), Denise Valle, define o Aedes como um inseto “oportunista” e é justamente isso o que o torna cada vez mais forte. “Tratamos o Aedes como inimigo, mas a verdade é que ele vive onde vivemos. Ele é essencialmente doméstico”, justifica a professora.

Após contrair dengue, em novembro do ano passado, Lizabeth redobrou a atenção para combater o mosquito em sua casa e nas ruas da vizinhança em Maria Ortiz, Vitória
Após contrair dengue, em novembro do ano passado, Lizabeth redobrou a atenção para combater o mosquito em sua casa e nas ruas da vizinhança em Maria Ortiz, Vitória
Foto: Bernardo Coutinho

Ao contrário de outros mosquitos - a exemplo do Anopheles, que transmite a malária - ele não precisa de grandes quantidades de água sombreada para sobreviver e pode utilizar-se de qualquer local ou recipiente com um pouco de água parada para se reproduzir. “Ele não quer saber se é um vaso de planta, um ralo, uma bandeja de ar-condicionado, o forro de um telhado ou o buraco de elevador. Qualquer lugar é um criadouro em potencial para ele”, alerta Denise.

A propagação dos vírus é feita pela fêmea do Aedes aegypti, que necessita do sangue para maturar seus ovos. Além da preferência por picar seres humanos, Denise destaca que o mosquito possui outra característica que potencializa sua capacidade de transmitir doenças: por ser arisco, ele tem o hábito de picar várias pessoas em um mesmo ciclo de alimentação, levando os vírus de um para o outro e contaminando grandes populações.

“Por isso recomendamos que quando as pessoas percebam que estão doentes, elas passem repelentes para evitar a contaminação do mosquito e ajudar a reduzir a transmissão”, explica Denise.

Adaptação

Em 1955, após um trabalho de intenso combate ao mosquito para extinguir a febre amarela urbana, o Aedes aegypti foi declarado extinto no país pelas autoridades brasileiras. Mas, o que parecia ser o fim, se revelaria como o início de um pesadelo décadas mais tarde. Conforme explica o infectologista Aloísio Falqueto, o vetor passou a ser reintroduzido no Brasil nos anos seguintes, vindo dos Estados Unidos e da América Central.

Como, até então, não se conhecia a existência de outras doenças por ele transmitidas, a desatenção do poder público diante do combate foi um dos fatores preponderantes para o surgimento de novas infestações, que culminaram nos primeiros surtos de dengue em 1980. Mas esta não foi a única razão.

“Com a revolução industrial e a grande produção de plásticos, descartáveis, latarias, somada à desorganização social e da saúde pública, que não cuidou do destino adequado desses produtos em meio a uma população urbana cada vez maior, o Aedes encontrou o espaço ideal para se reproduzir. Quanto mais desorganizado é o ambiente urbano, com a falta de coleta de lixo, de rede de esgoto, de acesso à água potável, mais difícil fica eliminá-lo”, esclarece Falqueto.

Vacina pode ser a solução, segundo infectologistas

Para o professor, tanto o mosquito, quanto os vírus por ele transmitidos passaram por um longo período de evolução através do contato com humanos e também com seus parentes próximos, os macacos.

“O Aedes vem da Etiópia, África, ele nasceu com a humanidade. É um processo de milhões de anos de adaptação. Ele perdeu o vínculo com seu nicho ecológico primitivo e passou a viver em cidades. Sua picada não incomoda e seu voo é silencioso. Assim, fica difícil convencer a população de que ele é um inimigo”, lamenta.

Resistência

Resistentes à baixa umidade, os ovos do Aedes aegypit são capazes de sobreviver até um ano em locais secos, aguardando o período chuvoso para eclodirem. Para o doutor em Saúde Pública da Universidade Mackenzie, Rogério Aparecido Machado, esta peculiaridade, aliada ao fato de a fêmea depositar seus ovos em diversos locais, faz com que os vírus continuem existindo mesmo nos períodos interepidêmicos.

Mas a força do mosquito não reside somente em sua habilidade de lidar com a ausência de água. Segundo Machado, atualmente, muitas populações já desenvolveram resistência aos inseticidas, o que torna seu extermínio ainda mais complicado. “É uma característica natural dos seres vivos criar essa resistência. Mas o fato é que hoje, os inseticidas já não são mais tão eficazes”, conclui.

Aedes aegypti: por que ele é tão perigoso?
Aedes aegypti: por que ele é tão perigoso?
Foto: Ilustração GZ

Vírus nunca foi erradicado

“O sistema de saúde tem que ser fortalecido”, afirma o infectologista da Fiocruz, André Siqueira

O infectologista da Fiocruz André Siqueira afirma que o vírus da febre amarela silvestre nunca foi erradicado no Brasil. Para o pesquisador, é preciso fortalecer o sistema público de saúde para potencializar a vigilância e o tratamento da doença.

Quando foi a última epidemia de febre amarela no Brasil?

Não temos febre amarela urbana no Brasil desde 1942 devido a uma campanha de combate ao Aedes aegypti e ao surgimento da vacina. Já a febre amarela silvestre é uma zoonose, ela circula entre animais silvestres. É uma doença que não conseguimos erradicar. Ela nunca desapareceu.

Há uma explicação para a nova epidemia?

Existem intervalos entre sete e 10 anos em que há uma circulação maior do vírus na natureza. Mas também há uma renovação da população de macacos que não são mais imunizados e, portanto, passíveis de serem infectados. Pode ser uma combinação dos dois fatores. A vacina reduz a possibilidade de infecção entre 90% e 98%. O que acontece é que em áreas de transição ou fora de risco, onde a recomendação é de que as pessoas se vacinem apenas no caso de locomoção, isso pode não ter ocorrido de forma efetiva.

É preciso vacinar a população em massa?

Em princípio, é uma estratégia bastante adequada fazer a vacinação em municípios limítrofes e em pessoas que estejam se deslocando para áreas de risco. Vacinar todos deve ser pensado com mais cuidado. No momento não perece ser necessário. Em uma a cada 400 mil pessoas, a febre pode ser causada pela própria vacina.

O que é preciso fazer de agora em diante?

O vírus está atingindo uma quantidade grande de pessoas e temos que melhorar as condições de vigilância e de fortalecimento dos sistema de saúde para manejo adequado e identificação da doença, bem como aumentar a vigilância de casos em macacos. Não existe tratamento específico para a febre, são cuidados de suporte. Por isso, o sistema público de saúde tem que estar fortalecido.

Esforços conjuntos para bloquear a febre amarela

De um lado, o vírus da febre amarela. Do outro, o Aedes aegypti. E, entre ambos, uma barreira de proteção. Evitar o temido encontro entre os organismos biológicos e seu vetor de transmissão nas cidades é, neste momento, o principal foco de atenção das autoridades em Saúde, que nas últimas semanas têm concentrado seus esforços para impedir que o vírus avance para além das florestas de Minas Gerais e do Espírito Santo por meio da vacinação.

“O pior cenário seria a febre amarela entrar no ambiente urbano, sendo transmitida pelo Aedes numa população que não é imunizada. Por isso, prevenir é o mais importante. Pessoas longe das áreas de mata não precisam se desesperar por vacina, mas devem contribuir com a eliminação do Aedes”, reforça o infectologista e pesquisador da Fiocruz, André Siqueira.

Segundo Siqueira, o último surto de febre amarela silvestre ocorreu em São Paulo, em 2009, mas não atingiu proporções tão grandes quanto em Minas Gerais, onde 40 pessoas morreram.

Porém, o infectologista da Ufes, Aloísio Falqueto, afirma que dificilmente a febre atingirá os epidêmicos da dengue caso avance para o meio urbano. “Para que o vírus da febre seja disseminado, é necessário uma quantidade cinco vezes maior de mosquitos na comparação com o necessário para a de dengue”, diz.

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