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Mulher morre intoxicada em Vitória após consumir noz-da-índia

Paciente deu entrada no pronto-socorro do Hucam, no dia 14 de janeiro, com um quadro de dores fortes abdominais, vômitos, diarreia e um pouco de febre

Paciente foi internada após consumir grande quantidade de noz-da-Índia
Paciente foi internada após consumir grande quantidade de noz-da-Índia
Foto: Ricardo Medeiros

Após consumir noz-da-índia e ficar internada vários dias, uma mulher de 46 anos morreu na última quarta-feira (25), no Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes (Hucam), em Vitória. Segundo a assessoria de imprensa do Hucam, a paciente deu entrada no pronto-socorro no dia 14 de janeiro, com um quadro de dores fortes abdominais, vômitos, diarreia e um pouco de febre. A pedido da família, o nome da paciente foi retirado desta matéria. 

De acordo com a instituição hospitalar, a paciente já havia sido diagnosticada em um posto médico com gastroenterite. Mas o quadro evoluiu para uma alteração intestinal, que se agravou para uma isquemia mesentérica, que é a falta de circulação de sangue em parte do intestino e leva à morte do órgão. Ela foi avaliada pelos médicos do hospital, que a operaram.

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No dia 16, a paciente foi levada para a UTI, onde o quadro evoluiu, com insuficiência renal e alteração de pressão (chamado de choque). A paciente chegou com um quadro suspeito de intoxicação e, segundo relataram os familiares, ela fazia o uso do produto noz-da-índia, cuja comercialização é proibida no Brasil, mas facilmente encontrado no comércio. O produto é tomado por muitos para emagrecimento, mas não tem qualquer comprovação da sua eficiência.

QUANTIDADE

Ainda, segundo os familiares da paciente, a quantidade de noz-da-índia que ela consumia era muito grande. A equipe médica então solicitou à família para que trouxesse uma amostra da noz-da-índia que a paciente tomava, e vai enviar para o Toxcen (Centro de Atendimento Toxicológico do Espírito Santo), para avaliar se era noz-da-índia ou chapéu-de-napoleão, assim como foram feitos outros exames, como para dengue, chikungunya, leptospirose, vírus B, C, HIV e outros. Alguns resultados ainda não foram entregues.

Após a suspeita de que a paciente pudesse estar intoxicada pelo produto proibido no país, e diante das manifestações clínicas encontradas na literatura (houve um caso, no Hospital Santa Rita, em Vitória e outro no Estado do Maranhão), o fato suspeito também foi notificado no Ministério da Saúde. De acordo com a assessoria de comunicação do Hospital, a equipe médica tomou todas as providências, como notificação à Sesa como manda a legislação. 

O Hucam não pode ainda confirmar se a paciente faleceu pelo consumo abusivo de noz-da-índia ou o chapéu-de-napoleão ou de outra enfermidade. 

SESA

A Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo (Sesa) informa que registrou uma notificação de intoxicação por chapéu-de-napoleão em 2016 e uma em 2017.

OUTRO CASO GRAVE

Em 2015, uma pesquisa elaborada pela Universidade Vila Velha (UVV), em parceria com a Ufes e o Ifes, encontrou substâncias “extremamente tóxicas” em amostras dessas sementes vendidas em bancas de plantas medicinais da Grande Vitória. Cada 10 sementes custam em torno de R$ 25.

 O professor Rodrigo Scherer, autor da pesquisa, encontrou seis substâncias tóxicas em sementes de chapéu-de-napoleão, que agem rapidamente no coração
O professor Rodrigo Scherer, autor da pesquisa, encontrou seis substâncias tóxicas em sementes de chapéu-de-napoleão, que agem rapidamente no coração
Foto: Ricardo Medeiros

A pesquisa foi feita após um caso de intoxicação alimentar extremamente grave registrado na Grande Vitória. Pouco depois de comer, uma mulher teve uma convulsão, sofreu uma parada cardíaca e precisou ser internada em UTI.

O professor doutor Rodrigo Scherer, coordenador da pós-graduação em Ciências Farmacêuticas da UVV, foi acionado pela família da mulher para analisar o produto que ela havia ingerido e que levou à intoxicação. A conclusão é que era chapéu-de-napoleão.

A análise revelou que as amostras continham substâncias perigosas, como a Tevetina, que pode matar a partir da ingestão de apenas 15 miligramas. Uma semente de 1 cm já contém essa quantidade. É tão perigosa que nas embalagens dos produtos recomenda-se consumir apenas 1/8 da semente na primeira dose, e depois 1/4 dela.

Em casos mais “leves”, essas substâncias podem provocar náusea, vômitos, diarreia, dores de cabeça e até levar ao coma.

VENENO

Assusta na análise que esse não é um caso isolado. Outras amostras do chapéu-de-napoleão, encontradas em lojas de plantas medicinais, apresentaram o mesmo resultado. “É veneno puro. Depois desse caso, em que a vítima foi parar na UTI, estudei o assunto e descobri vários outros relatos parecidos na internet”.

E fica o alerta: a própria noz-da-índia tem venda proibida no Brasil pela Anvisa. “Não há comprovação científica dos efeitos prometidos”, diz o nutrólogo Roger Bongestab. “E há indícios também de toxicidade”, completa o professor doutor Rodrigo Scherer.

SEMELHANÇAS

Um fato preocupante é que, caso o vendedor seja desonesto e queira enganar o comprador, é fácil. Visualmente, chapéu-de-napoleão e noz-da-índia são muito parecidas. E mesmo que você consiga a noz original, fique atento pois ela também é tóxica e possui venda proibida pela Anvisa.

Procurada pela reportagem, a Vigilância Sanitária Estadual orientou que a população formalize denúncia nas Vigilâncias Sanitárias Municipais para que a equipe possa ir até o local.

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