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Menino que pediu para morrer recebe alta médica após cirurgia

A criança sofreu desde 1 ano de idade com dificuldades para urinar e comoveu os capixabas ao pedir a Deus que o levasse para o céu, quando tinha crises de dor

José Arthur com a amiga Biliana Coutinho e a avó
José Arthur com a amiga Biliana Coutinho e a avó
Foto: Carlos Alberto Silva

Oito dias após ser internado para a realização de exames no Hospital Universitário Cassiano Antonio de Moraes (Hucam), o menino José Arthur, 4 anos, teve alta nesta quinta-feira (11). A boa notícia é que ele passou por uma cirurgia na quarta-feira (10) e não sente mais dor, como ele mesmo contou à equipe do Gazeta Online. Mas, apesar dos avanços, o tratamento médico está apenas começando. A criança sofreu desde 1 ano de idade com dificuldades para urinar e comoveu os capixabas ao pedir a Deus que o levasse para o céu, quando tinha crises de dor. 

A amiga da família, Biliana Coutinho, que acompanha o menino nesse processo, agradece, mais uma vez, a ajuda de todas as pessoas e conta como foram esses dias no hospital. "O Arthur está bem, graças a Deus. Vai continuar com o tratamento, mas a luta contra o que ele estava precisando, a gente conseguiu", afirma se referindo à consulta com um médico especialista e ao fim da dor. 

Segundo Biliana, ele fez uma cirurgia para abrir o canal da uretra e tirar uma obstrução. "O diagnóstico é de válvula de uretra posterior. Ele vai ficar com uma sonda até segunda-feira (15), quando voltará ao hospital para investigar uma disfunção miccional."

O urologista pediátrico Rodrigo Lessa, que fez a cirurgia do Arthur, explica que a válvula de uretra posterior é uma malformação congênita, que ele tem desde o nascimento. "É uma membrana que se forma no canal da uretra. Imagine um cano entupido. O que está acima da uretra (bexiga e rins) pode ser comprometido por essa obstrução, porque o rim produz a urina e a bexiga não consegue esvaziar. Isso pode causar infecções urinárias de repetição."

De acordo com o médico, no caso do menino, provavelmente, não era uma válvula tão obstrutiva. "Quando é muito obstrutiva, aparece no pré-natal. Talvez não era, mas, à medida que ele foi crescendo, foi elevando a dificuldade de esvaziar a bexiga e causou as infecções que ele tem. O tratamento está apenas iniciando", avalia.

Lessa afirma que não foi feito nenhum tipo de corte no procedimento. "O aparelho entra pelo próprio canal da urina e queima essa válvula. O problema dele é que, como a bexiga vem sofrendo há quatro anos, ela pode não funcionar de maneira adequada. Mas não tenho como dar essa resposta agora."

O médico confirmou que a sonda será retirada na segunda-feira. "Também vamos fazer outro exame, que se chama estudo urodinâmico. Por meio dele, vou saber se a bexiga dele vai funcionar normalmente, ou se vai precisar de medicação ou de algum outro tratamento."

Rins

Sobre os rins, aparentemente, os dois estão funcionando bem, diz o urologista. Mas a suspeita de refluxo foi confirmada. "Ele tem um refluxo no rim esquerdo, que faz a urina voltar da bexiga para o rim e causa infecções, mas é um problema secundário à obstrução da uretra."

Clinicamente, o José Arthur está bem. No entanto, o médico reforça que o tratamento continua. "Para a vida toda ele vai precisar fazer um acompanhamento com urologista e nefrologista."

Sobre a continuidade do tratamento, o urologista garante que o menino será atendido no ambulatório do Hucam.

Peso 

Ainda tem mais uma etapa. "Devido ao problema do Arthur, ele está com desnutrição. Aí ele vai precisar fazer um acompanhamento médico com pediatra e com nutricionista", comenta Biliana.

Dica

Segundo o especialista, a obstrução no canal da uretra de Arthur é um problema que acontece apenas com meninos e, geralmente, aparece ainda na gestação. "Há uma dilatação nos rins. Mas pode acontecer de não aparecer no pré-natal."

Nesses casos, a dica do médico é o observar o jato da urina das crianças, para ver se é forte e se elas resmungam ou sentem dor ao urinar. "Pode ser uma obstrução na uretra."

Família

Alegre com a evolução da saúde do neto, a avó comemora. "Estou feliz porque está evitando o sofrimento dele. Agora ele brinca, não chora mais. Quero agradecer a todo mundo, os médicos, as pessoas que ajudaram a gente", diz Euzilene Rocha de Oliveira.

Justiça

Nesta quinta-feira (11), Biliana procurou a Defensoria Pública de Vila Velha para contar que José Arthur conseguiu ser atendido. Assim, o processo na Justiça, para garantir uma consulta ao menino, foi encerrado. Veja a decisão.

O defensor público Carlos Eduardo Rios Do Amaral, que acompanhou o caso, define o desfecho da história de Arthur com uma frase: "Só o Povo salva o Povo”, que, segundo ele, é do Dom João Batista da Mota e Albuquerque, que foi Arcebispo de Vitória.

"Ele disse essa famosa frase em 1979, durante a maior enchente que se abateu em nosso Estado. O Arcebispo tem inteira razão. Não se pode judicializar o que não pode esperar", conclui Amaral.

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