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Pastor diz que secretária é "usada por satanás" por fazer evento LGBT

No áudio que circula na internet, o pastor chama o evento de "atividade diabólica" e diz que o satanás "está usando diretamente a secretária" para organizar o evento

Secretária Bárbara Girelli e pastor Carlos Alberto Cavalcante: pastor disse que ela foi usada por satanás
Secretária Bárbara Girelli e pastor Carlos Alberto Cavalcante: pastor disse que ela foi usada por satanás
Foto: Reprodução/ Facebook

A secretária de Cultura, Turismo e Juventude de João Neiva, Bárbara Girelli, procurou a Polícia para registrar um boletim de ocorrência contra um pastor da Igreja Presbiteriana da cidade. Ela acusa o religioso Carlos Alberto Cavalcante de dizer em áudio, divulgado em um grupo de WhatsApp, que ela era "usada por satanás" porque está promovendo um evento para o público LGBT em João Neiva.

Bárbara, que é homossexual assumida, contou à reportagem que chegou a passar mal quando teve acesso ao áudio do religioso.

O evento, "1° Piquenique das Cores em João Neiva", está marcado para o próximo domingo. A programação faz parte da II Quinzena Estadual de Combate à LGBTfobia e vai discutir temas como diversidade, inclusão social e respeito ao próximo.

No áudio que circula na internet, o pastor chama o evento de "atividade diabólica" e diz que o satanás "está usando diretamente a secretária" para organizar o evento.

"Está programada uma atividade diabólica para o dia 28 de maio. Eu e os pastores da Associação de Pastores estamos tomando providências junto a Prefeitura, visto que ela está promovendo. Sabemos que tem ação direta do satanás nesse trabalho. O satanás está usando diretamente a secretária de Cultura (...) Satanás tem o propósito de destruir as famílias de João Neiva. Orem", pede o pastor no áudio.

Ouça

A secretária ouviu o áudio pela primeira vez na segunda-feira (22) e disse que teve uma crise de pressão alta, precisando ser levada ao hospital.

"Me senti ofendida. Minha pressão chegou a máxima de 17. Passei mal ao ouvir as palavras do pastor afirmando que nossa ação era uma ação de Satanás, dando a entender que éramos enviados para destruir as famílias. Uma profunda falta de respeito comigo, com a equipe da secretaria e com toda a comunidade LGBT", lamentou Bárbara.

A responsável pela pasta de Cultura contou que o líder da igreja chegou a pedir desculpas, mas que quer que ele explique a declaração na Justiça.

"Não podemos deixar o ódio falar mais alto. Muitos gays fazem parte da equipe da secretaria e o preconceito não vai nos abalar. Procurei a polícia e dei início ao registro de ocorrência. Já tenho o número do boletim unificado e só não terminei o BO porque não tinha o nome completo dele. Mas agora tenho os dados completos e vou voltar na delegacia", afirma a secretária.

Em nota pública divulgada nas redes sociais, o prefeito de João Neiva, Otávio Abreu Xavier, defendeu a secretária e disse que repudia qualquer ação de intolerância, "além de não compactuar com qualquer ato que viole os direitos universais dos seres humanos."

"Estamos na era da luz e não há espaço para exclusão. Sintam-se amados e protegidos pois a força vem da união", criticou o prefeito.

Outro lado

O pastor Carlos Alberto Cavalcante, em entrevista ao Gazeta Online, contou que o áudio foi enviado em um grupo interno de fieis da Igreja Presbiteriana de João Neiva e que, por algum motivo desconhecido, acabou vazando para outros moradores da cidade.

Cavalcante acrescentou também que não quis ofender a secretária e que a frase "usada por satanás" foi dita no sentido de que o evento LGBT agride a fé evangélica.

"Esse áudio foi interno da Igreja, exclusivamente para membros da Igreja, como um pai para seus filhos. Não tive a menor intenção de ofendê-la. Era uma mensagem interna e citando um episódio que envolve o papel dela como secretária, como gestora e não foi uma crítica pessoal", justificou.

O pastor revelou que esteve pessoalmente na Prefeitura para pedir desculpas ao prefeito e à secretária, mas que Bárbara não aceitou o pedido e se recusou a estender a mão.

 

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