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Tecnologia não é tudo na hora de aprender

Inovações não podem prejudicar conteúdo e desenvolvimento

Ana Cláudia Bucher com a filha Maria Eduarda: ela diz que método de alfabetização com a ajuda dos pais tem funcionado
Ana Cláudia Bucher com a filha Maria Eduarda: ela diz que método de alfabetização com a ajuda dos pais tem funcionado
Foto: Carlos Alberto Silva

É comum ouvir que “qualquer criança hoje manuseia um tablet” . O que era noticiado como inovação há alguns anos nas escolas, a inclusão desse tipo de equipamento, hoje, já não é mais novidade. Em muitas instituições, o uso desse e outros aparelhos – incluindo smartphones – já é consolidado. Apesar disso, a educação ainda tateia para manter o equilíbrio entre a constante busca por modernização e o cuidado para que isso não se sobreponha ao mais importante: o conteúdo e a formação do aluno enquanto cidadão com autonomia.

“A mudança social está sendo muito rápida, impulsionada pela tecnologia, pela facilidade de acesso e uso de instrumentos que conectam as pessoas, conhecimentos e agilizam processos”, diz a gerente-executiva de Educação do Instituto Ayrton Senna, Inês Kisil Miskalo.

Passado o momento de transição com a chegada dessas inovações em sala, Inês diz que é preciso dosar o uso e lembrar que, frente ao acesso à tanta informação, há um ser humano que precisa de um tempo de desenvolvimento. Tanto estímulo pode provocar uma maturação precoce para uso de tecnologia, mas o conteúdo e a formação sócio-emocional podem ficar para trás.

Clara Alcântara, 8, usa tablet nas aulas de inglês da professora Bianca
Clara Alcântara, 8, usa tablet nas aulas de inglês da professora Bianca
Foto: Edson Chagas

Os estudantes devem ser preparados para saber usar essas ferramentas, como tablets, smartphones e outras inovações a seu favor, para ampliar seu conhecimento. Inês destaca que os aparelhos são muito usados nas casas como forma de entreter as crianças e “não exatamente como algo a favor do desenvolvimento delas”. “As crianças podem incorrer no erro de eleger a ferramenta e não necessariamente o conteúdo que está nela. Não é uma coisa simples. A escola precisa dosar quais os conhecimentos básicos para que eles busquem outros, que saibam selecionar as informações que interessam.”

Apesar do apelo desses equipamentos, é importante lembrar que inovação em educação não é, necessariamente, utilizar recursos tecnológicos. É possível e é saudável estimular os alunos de outros modos saindo dos métodos tradicionais.

Na escola de Maria Eduarda, 4 anos, filha da dona de casa Ana Claudia Bucher, o alfabeto, os números e as formas geométricas estão sendo apresentados de modo a relacionar o conteúdo com o contexto das crianças. “Os pais são convidados a ajudar. Outro dia era para levar um animal com a letra ‘C’, como um cachorro, para mostrar a eles na sala e relacionar com a letrinha”, diz a mãe, que conta que essas saídas estão funcionando bem com a filha e os colegas.

Renata ajudou Gian Lucca e Gian Marco a aprender tabuada de forma tradicional
Renata ajudou Gian Lucca e Gian Marco a aprender tabuada de forma tradicional
Foto: Edson Chagas

Ranking

Há outro ponto importante: não adianta apostar em novos métodos e ferramentas se os resultados do Brasil no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, sigla em inglês) mostram que o país ainda patina no básico: está na 59ª posição do ranking entre nações em leitura e na 66ª colocação em matemática.

“Nossos alunos têm imensa dificuldade em aprender a ler e a fazer as quatro operações básicas com números naturais em Matemática, por exemplo”, salienta a mestre em educação e comentarista da Rede CBN Ilona Becskeházy.

Ela pontua que “não há limite” na inovação, mas alerta que, antes, é preciso voltar os olhos para a necessidade de solidez no aprendizado de conteúdos básicos, como a tabuada e a montagem de sílabas, no caso da educação infantil.

Na casa da consultora de vendas Renata Cassani, foi sem artifícios tecnológicos que ela conseguiu que os filhos Gian Lucca, 7 anos, e Gian Marco, 11 anos, assimilassem a tabuada. Usou um método que aprendeu com a avó. “Repetir as contas em voz alta, quando você fala, memoriza. Funcionou comigo e com eles”, diz.

 

Objetivos

Independentemente de inovações e tecnologias, as especialistas destacam que a escolha da metodologia dependerá do contexto da escola.

“O que precisa ser feito é conhecer bem o que se deseja que os alunos aprendam, ter clareza a respeito dos objetivos pedagógicos e calibrar as atividades em relação a eles. O método varia com o que se quer ensinar frente aos alunos que se tem. O método não é uma ‘tendência’, é uma decorrência dos objetivos almejados e do público alvo”, diz Ilona.

Importante mesmo é formar um ser humano. “Educação tem que ter o olho no olho, tem que estar próximo da criança, ter um sorriso, isso faz a educação ter vida. Se não tiver vamos desenvolver pessoas meio robóticas, que sabem muito como um banco enorme de dados. Mas o que precisamos atualmente é de dimensão humana”, explica Inês.

Escrita à mão e atividades em grupo são fundamentais

Em um mundo onde grande parte da comunicação é feita por meio de mensagens via celular, escrever à mão parece obsoleto. Mas o hábito é importante para o aprendizado e desenvolvimento e não pode ser deixado de lado na rotina escolar.

Os aparelhos acabam facilitando demais e podem prejudicar o aprendizado do português. “No telefone você escreve metade da palavra e ele completa e corrige a ortografia”, diz a coordenadora do ensino médio da escola Primeiro Mundo, de Vitória, Michele Faria. “Manuscrever é importante, ativa uma série de funções fundamentais.”

Apesar disso, as aulas de robótica e a utilização de uma plataforma on-line de ensino mostram que a escola está antenada e que aposta em métodos não-tradicionais. “É questão de mesclar, ter um equilíbrio”, destaca Michele.

Mobilidade

Na escola Monteiro, de Vitória, o uso de tablets e smartphones tornou-se rotina, e o diretor Eduardo Costa Gomes conta que isso deu maior mobilidade ao professor, que pode buscar conteúdo e convidar os alunos à pesquisa a qualquer momento. Em uma aula de inglês como a da professora Bianca Baptista, por exemplo, uma aluna como Clara Alcantara, 8, pode recorrer ao tablet para ouvir a pronúncia de algumas palavras.

Mas Eduardo ressalta que a tecnologia “estimula uma passividade” e que por isso também são incentivadas atividades em grupo e outras interações. “A tecnologia não substitui o ato de se relacionar. Também não se pode abrir mão de algumas coisas prioritárias, como o hábito da leitura. Hoje você pode ler pelo meio digital, não só impresso, que ainda não é tão difundido. De toda forma, é muito importante ler.”

Antes inovação, quadro digital ficou para trás

O avanço tecnológico foi tão acelerado na última década que equipamentos que foram novidade há pouco tempo já perderam espaço. É o caso das quadros digitais, anunciados em escolas estaduais e da rede municipal de Vitória entre 2012 e 2014.

“O smartphone foi uma mudança que redefiniu tudo. Há escolas com salas equipadas com quadro digital, mas isso e o laboratório fixo de computação foram superados pelo smartphone e a smart TV”, explica o secretário estadual de Educação, Haroldo Correa Rocha.

O uso do celular nas salas de aula públicas foi possibilitado após aprovação de lei estadual, em 2016.

Em Vitória, 50% das 102 instituições têm a lousa digital, mas também outros equipamentos. “Hoje temos tecnologias móveis, os alunos vão para aulas de campo, fazem vídeos e fotos e usam para relato da pesquisa”, diz a gerente do ensino fundamental de prefeitura da rede, Angela Caliman.

Análise

Política de formação é necessária

“As mudanças pedagógicas são acompanhadas de mudanças das formas de se conceber a educação, o conhecimento, o professor, o aluno e a sociedade que se quer. Os limites para mudanças de propostas de metodologias de ensino no interior das escolas dependem das concepções adotadas pelos responsáveis tanto pelas políticas educacionais como pelos profissionais que atuam diretamente em sala de aula. As metodologias de ensino se atualizam sempre, porém, como elas se orientam a partir das concepções dos profissionais que atuam na educação, passam a coexistir com diferentes nuances. Por isso, é fundamental que as políticas educacionais proporcionem formações que instiguem os profissionais a pensarem o seu fazer docente, a refletirem sobre as verdades instituídas que valorizam modelos de ensino e impedem que as práticas se renovem e que se pensem em alternativas para que outras metodologias se instituam e venham de encontro com as demandas individuais, singulares, de aprendizagens da comunidade escolar.”

Cleonara Schwartz é doutora em educação

 

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