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Desastre ambiental: destruição e incerteza no Rio Doce

Ainda não se sabe até quando vão durar os impactos dos milhares de litros de rejeitos de minério despejados no rio

Os milhares de litros de rejeitos de minério da Samarco despejados no Rio Doce também chegaram ao mar
Os milhares de litros de rejeitos de minério da Samarco despejados no Rio Doce também chegaram ao mar
Foto: Fernando Madeira

Em 5 de novembro de 2015, moradores do distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, Minas Gerais, foram surpreendidos por toneladas de lama e de rejeitos de minério, que em pouco tempo invadiram propriedades e tiraram vidas. Tinha início ali um dos maiores desastres ambientais do país, cujos efeitos colaterais atravessam fronteiras por meio das águas (agora turvas) do Rio Doce. Um ano e meio se passou desde então, mas entre aqueles que viveram de perto a tragédia, o medo e as dúvidas ainda permanecem.

> Análises mostram alto índice de metais no Rio Doce

Em 16 dias, a lama avançou mais de 500 quilômetros, atravessando municípios como Baixo Guandu e Colatina, até chegar à Foz do Rio Doce, em Regência, Linhares. Ao norte, na vila de Povoação, a pescadora Rosa Jesus da Silva, 42, viu sua vida mudar de mãos atadas. A pescaria, de onde ela e o marido tiravam o sustento dos quatro filhos, foi proibida.

Com a tragédia, Rosa e o marido tiveram que abandonar a profissão de pescadores."A pesca é proibida, e todos têm medo de comer", Rosa Jesus, pescadora, 42 anos
Com a tragédia, Rosa e o marido tiveram que abandonar a profissão de pescadores."A pesca é proibida, e todos têm medo de comer", Rosa Jesus, pescadora, 42 anos
Foto: Edson Chagas

Hoje, a família de Rosa é uma das 3.648 que recebem um auxílio financeiro pago pela Fundação Renova. “Para beber, a gente compra galões de água mineral a R$ 8. A gente usa a água dos poços artesianos para cozinhar, lavar roupa, mas com medo.”

Para o professor de Geologia Marinha da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Alex Bastos, o que mais preocupa é a falta de um programa de monitoramento completo e contínuo do Rio Doce, capaz de indicar até quando os impactos perdurarão. “Desde outubro de 2016 a Renova recebeu o Termo de Referência para criá-lo, mas ainda não o fez”, afirma.

> Águas subterrâneas também estão contaminadas

Estudos iniciais revelaram que a chegada da lama aumentou os níveis de metais, como ferro, alumínio e manganês, reduzindo significativamente a quantidade de plânctons - organismos que vivem em suspensão na água e que são essenciais para o equilíbrio da cadeia alimentar. Já em dezembro de 2016, um novo estudo realizado em período de cheia, mostrou que com a chuva os níveis de contaminação voltaram a ser os mesmos registrados no início do desastre.

Nascida em Regência, Luciana conta que até hoje o povoado não se recuperou. "O peixe não é consumido e não se toma mais banho", Luciana Souza, técnica em enfermagem, 45 anos
Nascida em Regência, Luciana conta que até hoje o povoado não se recuperou. "O peixe não é consumido e não se toma mais banho", Luciana Souza, técnica em enfermagem, 45 anos
Foto: Carlos Alberto Silva

Por isso, Bastos enfatiza a importância de um acompanhamento não só dos índices químicos da água - como o que é feito atualmente -, mas também do biológico, através da coleta de peixes, camarões e outros organismos nas águas e nas praias para análises de contaminação.

O secretário de Estado de Meio Ambiente, Aladim Cerqueira, afirma que a cobrança para a implantação do programa tem sido rigorosa por parte do Comitê Interfederativo, que fiscaliza as ações de reparação de danos. “Como é algo que envolve estudos que não estão no conhecimento das empresas de consultoria, sugerimos a contratação de universidades por meio de edital para que elas trabalhem de forma integrada”, afirma.

OUTRO LADO

A Fundação Renova afirma que a qualidade da água do Rio Doce é monitorada em 115 pontos. Na região costeira do Estado, que inclui a Foz do rio, há 28 pontos de análise diária, que considera as condições da água e do sedimento.

Um monitoramento da biodiversidade foi finalizado em abril e terá os resultados divulgados. O outro acontecerá no segundo semestre, após a contratação de universidades e institutos de pesquisa. “O mapeamento abordará desde microrganismos aquáticos (plânctons) a tartarugas marinhas, passando por moluscos, crustáceos e peixes”, garante em nota.

A Renova também destaca a implementação de ações como a proteção de 511 nascentes, a recuperação de 1,4 mil hectares de calhas e margens dos rios principais e melhorias nos sistemas de abastecimento de 19 localidades, além de um investimento de R$ 1,1 bilhão no reflorestamento de 47 mil hectares de terra.

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