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Quando é a hora certa de sair da casa dos pais?

Desafios e prazeres de quem quer conquistar a independência

Ana Luiza trabalha como doceira e jornalista para atingir seus objetivos de vida
Ana Luiza trabalha como doceira e jornalista para atingir seus objetivos de vida
Foto: Marcelo Prest

Ana Luiza Calmon, 25 anos, quer montar um lar que tenha a sua cara, enquanto Leia Rodrigues, 34, sentiu que já era hora de ter um lar para chamar de seu.

Cada uma com histórias e em fases da vida diferentes, as duas são exemplos de que a hora de deixar o lar dos pais pode até existir, mas vai depender dos objetivos, sentimentos e das, talvez a única certeza, condições financeiras de cada um.

“Não tem uma hora muito certa. As pessoas precisam ter o incentivo desde cedo à autonomia”, dá a dica a psicóloga Tammy Andrade, membro do Conselho Regional de Psicologia (CRP-16).

A jornalista e doceira Ana Luiza mora com a mãe e objetiva chegar aos 27 anos com o seu próprio lar. “Quero ter meu canto, liberdade, decorar do jeito que eu gosto. A gente vai crescendo e os nossos gostos vão para além do quarto”, diz. “Hoje a questão financeira, o quadro político, atingiu minha família”, justifica a permanência em casa.

Preparo

Como a roupa não vai aparecer passada e lavada na gaveta do armário e nem as contas vão surgir magicamente pagas, o incentivo dos pais é fundamental. “Comece a influenciar seu filho para o ritmo de vida. É importante que ele trabalhe. Antes de morar sozinho, ele já tem que fazer coisas dentro da casa dos pais”, diz a neuropsicóloga Cláudia Calil.

E essa saída de casa está cada vez mais tardia. “Há falta de incentivo para isso”, diz a psicóloga Tammy Andrade. A atriz e professora de artes cênicas Leia Rodrigues, 34 anos, é reflexo disso. “Era a última filha de sete irmãos. Tinha aquela história de que a caçula tem que ficar com a mãe até construir sua própria família.”

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O “incômodo”, como Leia diz, bateu quando ela chegou aos 30 anos. “Estava vivendo a vida dos meus irmãos, mas não a minha. Sair de casa era uma coisa nova que estava pulsando dentro de mim e precisava acontecer”, cita. Há três anos ela mora com uma amiga.

Ela cita que o que mais estranhou não foi a questão financeira, mas sim as pequenas responsabilidades, como o ato simples de comprar no supermercado a comida que falta. “Antes dava o dinheiro e a comida aparecia ali”, brinca.

Mas além da vontade dos pais de manterem em casa suas crias, há outras motivações: “Hoje há foco no investimento na carreira acadêmica e uma entrada tardia no mercado de trabalho”, cita Tammy Andrade

Laços

Para além das questões práticas, como contas pagas e roupas arrumadas, os laços familiares também deixam saudades. “O cordão umbilical não foi cortado”, diz Leia.

Ana Luiza sabe do que vai sentir falta: “Da convivência com a minha mãe. Ir à feira juntas, fazer piadas...”. E quem não sentiria?

Planejamento para deixar o ninho

Planejamento. Para quem quer mudar de etapa na vida e sair da casa dos pais não tem como fugir dessa palavra.

“Hora certa não existe porque cada um tem suas prioridades. Mas tem que ter planejamento. Pode levar meses ou anos, dependendo do que a pessoa quer, se é alugar ou comprar imóvel”, diz a educadora financeira Lorena Milaneze, da DSOP Educação Financeira.

Primeiro, então, é definir o que quer. Se for comprar um imóvel, ela dá a dica de se planejar financeiramente para só comprá-lo quando tiver metade do valor para dar de entrada, para não ficar tão pesado. “Porque há também outros gastos, como energia, condomínio, fora a compra dos móveis”, cita a educadora financeira. “Tem que ver se o orçamento vai comportar”, completa.

Para os pais, ela dá a dica de que é importante que, desde pequenas, as crianças tenham noção de educação financeira. “Porque lá na frente ela entende que é preciso poupar antes de adquirir para não ficar refém do dinheiro.”

A universitária Paula Lozer Babilon, 19 anos, saiu de casa para estudar. Ainda conta com a ajuda financeira dos pais, mas seu plano é conseguir logo um emprego. “Sempre quis fazer federal para não ter o gasto com a mensalidade”, conta Paula, que estuda na Ufes.

Paula Lozer Babilon, entrevistada, saiu cedo da casa dos pais e foi morar sozinha
Paula Lozer Babilon, entrevistada, saiu cedo da casa dos pais e foi morar sozinha
Foto: Marcelo Prest

O fato de não ter outra pessoa no mesmo lar - os pais, amigos ou companheiro - pode ser dificultador não só no pagamento das contas, mas na tomada de decisões também. “Uma pesquisa apontou que 34% dos que perderam o controle financeiro foi porque não só não tinham alguém para dividir as contas, mas para tomar as decisões juntos”, diz o economista Ricardo Paixão.

“É sempre bom anotar tudo, sempre estar de olho. Pode ser num caderninho mesmo”, aconselha Ricardo.

Depoimento

"Sozinho seria uma experiência melhor", diz o universitário Thomas Ventura, 18 anos

“Eu me mudei no meio do ano passado, fui para a Ufes de Alegre estudar Física. Só que este ano voltei para a casa dos meus pais na Grande Vitória porque consegui uma vaga aqui. Depois de seis meses morando sozinho, não dá para acostumar mais. Por isso pretendo mudar para Vitória, perto da Ufes. Devo me mudar em torno de três meses, que é um tempo para conseguir uma graninha. Minha intenção é já sair com uma certa poupança para emergências. A poupança seria com o salário desses três meses de trabalho. Estou na Física pelo emprego dos meus sonhos, ser astronauta, mas trabalharia com qualquer coisa. Já trabalhei como garçom e monitor de brinquedo de festas. Já morei com um amigo. Tem suas vantagens e defeitos, mas sozinho seria uma experiência melhor. Vou sentir falta dos conselhos dos meus pais, da roupa lavada e dobrada, do meu irmão de 5 anos correndo pela casa... A maior vantagem de morar sozinho, que também pode ser a maior desvantagem, é fazer suas próprias escolhas e aguentar as consequências sozinho.”

Análise

“É papel dos pais fazer com que os filhos tenham responsabilidade”, diz a neuropsicóloga, especialista em psicossomática e neurociência Cláudia Calil

“A pessoa vai sentir a necessidade de sair de casa. Não é necessariamente uma questão de felicidade ou de liberdade, mas de amadurecimento. É a busca de sua vida própria. A pessoa ainda não tem suas próprias experiências. Ela vai precisar passar por algumas limitações. Quando não faz isso, acaba um adulto infantilizado. Muitos pais não querem que os filhos saiam de casa. Por isso é papel do filho ir além, experimentar. Os pais ensinam o ‘bê-a-bá’. Mas não adianta explicar o que é maçã. Tem que experimentar. Então acabamos tendo adultos imaturos. É papel dos pais fazer com que os filhos tenham responsabilidades em casa. O filho não tem que só ajudar. Ele tem que ter obrigações, tem que ter regras, pagar as contas. Ensinar a ser honesto, inclusive consigo mesmo, não só quando os outros estão olhando. Há muitos pais que não querem que os filhos saiam. O ideal então é que antes de sair de casa que ele já faça coisas dentro de casa. E sair de casa não significa cortar os laços. E tem que ter planejamento.”

Faça o teste abaixo: 

Muitos adolescentes e até mesmo jovens adultos almejam uma vida sem regras estipuladas pelos pais, querem viver com mais “liberdade”. A fase de transição da adolescência para a fase adulta são vivenciadas por muitos conflitos internos ( insatisfação, culpa, vergonha, ambições, desejo de ter mais liberdade , não querer dar mais despesas para os pais, e outros...)e externos tais como: problemas familiares, dificuldade nos relacionamentos familiares, o desejo de ser respeitado pelos colegas, prestar serviços voluntários ou a oportunidade de estudar em outra Cidade, Estado ou País , alguns almejam ganhar experiência de vida . Estas são algumas " razões " para a saída da casa dos pais, mas é bom lembrar que morar sozinho ou até para dividir um apartamento com alguém, tem-se um gasto e deve ser finamente planejado, afinal, essa independência, quando não planejada, pode provocar inúmeros problemas financeiros podendo ocasionar prejuízos para a saúde física e emocional dos novos profissionais. Pois, morar sozinho significa encarar despesas, como: aluguel, condomínio, IPTU, agua, luz, telefone, alimentação, plano de saúde, locomoção, entre outros. É importante ressaltar que a casa dos pais tem uma grande representatividade psíquica, representa " base de apoio” é um lugar que se pode voltar, lógico, que se houver necessidade de se refazer, ou seja, "juntar os cacos". Por isso é importante se planejar, conversar com os pais, compartilhar suas reais intenções antes de sair de casa. Muitos pais até verbalizam o desejo da permanência dos filhos em casa, desejos estes baseados nos sentimentos de medo insegurança e em alguns casos, com uma super-proteção, esta por sua vez nada benéfica para a saúde mental do jovem, o que determinará em uma infantilização exacerbada, neste caso é comum deparar com jovens adultos inconsequentes e que responsabilizam os pais pela sua infelicidade. O Desejo de manter a família sempre unida é uma meta a ser seguida por todos, afinal a base familiar é a base da vida. Em muitos casos a saída da casa dos pais, aproximam ainda mais pais e filhos, interessante isso, né? Será que você está pronto para morar sozinho? Este questionário poderá te ajudar a decidir. 1) Você é organizado (a) com as suas coisas e horários? a) muito b) nem sempre, as vezes peço ajuda dos meus pais c) tenho dificuldade em me organizar, estou sempre em apuros. 2) Você se relaciona e consegue manter bons relacionamentos com pessoas a sua volta? (Família, vizinhos, porteiro, colegas da faculdade, escola, trabalho etc.)? a) faço amizades e mantenho ótimos relacionamentos. b) com alguns, mas não consigo manter os relacionamentos. c) tenho dificuldade em fazer novas amizades 3) Você administra bem o seu dinheiro? a) sim, procuro manter as contas em dia. b) mais ou menos, as vezes recorro aos meus pais. c) não, sei lidar com dinheiro. 4) O que mais define solidão para você? a) ter momentos de solidão é essencial b) só é bom de vez em quando c) não suporto ficar sozinho 5) você sabe lidar bem com imprevistos? a) eles fazem parte da vida b) as vezes c) é desesperador 6) você sabe administrar o seu tempo com compromissos e afazeres? a) sim b) nem sempre c) estou sempre atrasado (a), por mais que eu tente sempre acontece imprevistos. 7) As pessoas te buscam para pedir conselhos e/ou desabafar? a) sim b) nem sempre c) não 8) já disseram que você agiu com impulsividade? a) Não b) Às vezes c) Não resisto e acabo me excedendo ( compras, noitadas, baladas, bebidas) 9) Como você lida com as tarefas do dia a dia de uma casa? a) sei fazer o básico: lavar, cozinhar, limpar b) ainda preciso aprender mais coisas c) não acho que seja importante. 10) Morar sozinho é: a) ...uma oportunidade, crescimento e também de ser independente b) ...resolver apenas os meus problemas c) ...uma festa Resultado: Some o número de vezes de cada alternativa escolhida (a, b e c). Maioria A: você realmente está pronto para morar sozinho, assumir a sua vida Maioria B: que tal estudar sobre finanças e inteligência emocional? Você precisa se preparar para morar sozinho (a). Maioria C: definitivamente ainda não é hora de sair de casa .

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