Notícia

Repórter que filmou abordagem da PM é indiciado por desobediência

Vinícius Arruda, que trabalha para o jornal Metro, filmou policiais militares abordando dois suspeitos em Jardim da Penha, Vitória

Vinícius Arruda foi detido após filmar abordagem de PMs
Vinícius Arruda foi detido após filmar abordagem de PMs
Foto: A Gazeta

O jornalista Vinícius Arruda seguia para o trabalho, por volta das 10h30 desta segunda-feira (11), quando viu uma abordagem policial que, naquele momento, pareceu-lhe “fora do padrão”. Seguindo o instinto da profissão, parou e começou a filmar. Oito horas depois, ele deixava a delegacia de Vitória, na condição de indiciado por desobediência.

“Como repórter, achei prudente parar, até mesmo para acompanhar essa abordagem que, a meu ver estava fora do padrão. Estacionei como eu pude, desci do carro e com o celular da empresa comecei a fazer imagens”, relatou o repórter do jornal Metro.

Ele contou que parou a cerca de cinco metros do local da abordagem, na altura de uma praça, em Jardim da Penha. “Os policiais interromperam a abordagem para conversar comigo de o porquê eu estar ali e por que estava filmando”, disse.

A reportagem assistiu ao vídeo feito por Vinícius. Um grupo de militares abordava dois flanelinhas acusados de assediar uma mulher em um ônibus. Quando percebem a filmagem, dois deles, em momentos diferentes, param e vão em direção ao jornalista. Questionam quem ele é e pedem identificação.

O repórter apresenta o documento pessoal e o crachá. Um dos policiais diz que o repórter tem que ser conduzido para a delegacia. Vinícius diz que não pode ser conduzido e ainda afirma: “Não estou dizendo que o senhor está errado”. Ao insistir com o jornalista de que ele será conduzido, um dos soldados afirma então, mais de uma vez, que ele vai ser levado para a delegacia na condição de testemunha.

“Em nenhum momento deram voz de prisão. E só aqui dentro da delegacia eu fui saber que estava preso por desobediência”, relata.

O advogado de Vinícius, Rodrigo Horta, diz que a versão da PM é de que o repórter “se aproximou muito”. “E que houve vários alertas para ele se afastar. E em razão disso, ele teria atrapalhado a abordagem policial. E não é isso que o vídeo mostra. O vídeo mostra o jornalista parado filmando e a todo tempo aquele policial querendo o celular”, diz o advogado.

O caso agora vai para o Ministério Público do Estado, que avaliará se denunciará Vinícius ou não à Justiça.

Intimidação

A reportagem tentou falar com os militares que prenderam Vinícius, mas eles não quiseram dar entrevista. Um deles se aproximou do repórter fotográfico de A GAZETA e pediu para falar sozinho com o profissional, que se negou. E então, na frente de outros profissionais da imprensa, disse que não autorizava ser fotografado.

“Não cabe a um militar querer impedir que uma ação policial seja filmada. Pelo contrário, se a ação dele é boa, deve ser filmado, divulgado. Vai fazer bem para a instituição”, afirma Horta.

Emocionado, Vinícius falou sobre a situação. “Estar na rua todos os dias trabalhando como repórter para levar a notícia não é uma profissão fácil. E todos nós, enquanto jornalistas, devemos ser respeitados, assim como a gente procura respeitar todos os dias o trabalho de vocês (policiais).”

Opinião da Gazeta

A prisão de um jornalista, no exercício de sua função, é ato da maior gravidade que exige esclarecimentos do governo do Estado. O gesto violento dos policiais, que possivelmente temiam a revelação de abusos na abordagem de suspeitos, merece ser apurada com o máximo rigor. São insuficientes as declarações dadas até o momento pelo governo, que, em manifestação burocrática, disse repudiar a “ação intimidatória”. Mais do que intimidatória, a prisão do jornalista é um atentado à democracia. O jornalista, no exercício da função, representa os olhos da sociedade. Esse ato autoritário é inaceitável.

"Essa não é uma atitude aprovada"

O Governo do Estado informou nesta segunda, por nota, que repudia qualquer ação intimidatória contra jornalistas no exercício da função, que preza pela liberdade de expressão e reconhece o trabalho dos jornalistas como essencial na construção da democracia.

A secretária de Estado de Comunicação, Andréia Lopes, também falou sobre o caso: “Já mantive contato com o sindicato (dos Jornalistas) e tenho certeza que essa não é uma atitude aprovada pela Secretaria de Segurança Pública”.

Há um acordo entre o Sindicato dos Jornalistas do Espírito Santo e a Secretaria de Estado de Segurança Pública para que não seja impedida a realização de imagens por jornalistas no exercício de suas funções. Sobre isso, Andréia Lopes diz que “em nenhum momento, esse acordo teve motivo para ser rompido”.

“Isso foi uma atitude isolada. Nós respeitamos o trabalho da Polícia Militar, mas também acreditamos que o direito de trabalho do jornalista tem que ser respeitado, direito de se produzir um vídeo”, disse.

O chefe da Polícia Civil do Estado, Guilherme Daré, disse que respeita o trabalho da imprensa. “O procedimento do delegado foi ouvir as partes envolvidas e agir dentro do princípio da legalidade.”

Entidades de classe repudiam ação da polícia

Para sindicatos e associações, medida é atentado contra a liberdade de imprensa A ação da Polícia Militar de prender o jornalista Vinícius Arruda foi repudiada pelas entidades de classe do jornalismo ontem. “O Sindijornalistas e a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) estão perplexos com mais uma atitude intimidatória de agentes públicos do Estado que nada mais são do que um atentado à liberdade de imprensa e ao direito do profissional exercer sua profissão”, cita trecho da nota.

Apontaram ainda a “falta de compromisso” da Secretaria de Estado de Segurança Pública, que em reunião com a direção do Sindicato dos Jornalistas afirmou, em 2013, “que sempre respeitaria jornalistas que se identificassem ao filmar qualquer ação policial em vias públicas, como foi o caso”.

“Esperamos que o governo do Estado reveja esta posição autoritária e descabida das forças de segurança do Espírito Santo, que, em vez de investir contra trabalhadores, garanta a segurança para todos os capixabas.”

A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) também repediu “veementemente a detenção do repórter Vinícius Arruda, do Jornal Metro”. A Abert condena a arbitrariedade da ação policial e a violência à liberdade de expressão.

Metro

O Metro Jornal por nota lamentou o episódio. “Jornalista é jornalista 24 horas por dia. E Vinícius foi movido por seu profissionalismo ao tentar gravar cenas de uma abordagem policial. Vinicius tinha esse direito como repórter e como cidadão, mesmo porque ele fazia sua gravação num local público e a uma distância suficiente para não se envolver diretamente na ação da polícia. O episódio é lamentável não só porque um jornalista teve sua liberdade cerceada, mas porque houve um desrespeito flagrante ao estado de direito.”

“Por isso o Metro Jornal só espera das autoridades responsáveis que elas sejam realmente responsáveis e punam quem merece ser punido, com medidas equivalentes à gravidade do caso.”

Vítima do grupo: “Me xingou e cuspiu em mim”

Ela passou por horas de terror dentro do ônibus, em Vitória, no caminho para o trabalho ontem. Teve que ouvir palavras de assédio e abuso e, ao pedir respeito, foi ameaçada por três homens, entre eles os dois cuja abordagem pela polícia foi vista pelo repórter Vinícius Arruda. A mulher não será identificada, por segurança.

“Um deles me olhava, fazia gesto obsceno com a língua, consertava as partes genitais dele.” Quando ela mudou de lugar, um deles tentou passar a mão nela. Ao pedir respeito, tudo ficou pior. “Ele disse que eu merecia ser estuprada, agredida. Me xingou e cuspiu em mim”

No ônibus havia quatro homens. Um se juntou aos agressores e também a ameaçou. “Só duas mulheres tentaram me ajudar.” Os abusos só acabaram quando eles desceram do ônibus em Jardim da Penha. Ela pediu ajuda no trabalho e foram ao DPM do bairro. Os homens foram reconhecidos pela vítima e detidos pela PM. Dois foram indiciados por ameaça e por injúria. Horas depois, foram liberados.

Respeito

“Enquanto repórter a gente tem que estar sempre fora do holofote. E meu papel naquele momento não era interromper ou atrapalhar a abordagem. Simplesmente mantive a distância considerável que é utilizada todos os dias pelos repórteres. E só no momento em que eles me questionaram sobre o porquê das imagens é que tivemos o primeiro contato. Eles queriam o meu telefone para identificar as imagens que eu tinha feito e os meus documentos. Vi uma coisa que, para mim, estava fora do padrão, mas não cabe a mim agora comentar porque não sou a autoridade.” “vi uma coisa que, para mim, estava fora do padrão”

Vinícius Arruda  - Repórter do Metro

Ver comentários