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Substâncias naturais que prometem emagrecer podem ser perigosas

Principal risco é a falta de fiscalização desses produtos

Cristina Manhães mostra as roupas que já não lhe cabem: ela tentou remédios, mas o que funcionou foi outro tratamento
Cristina Manhães mostra as roupas que já não lhe cabem: ela tentou remédios, mas o que funcionou foi outro tratamento
Foto: Guilherme Ferrari

Nas páginas de internet, nos anúncios da TV ou até em lojas físicas, as substâncias ditas naturais prometem emagrecimento rápido e fácil. Mas a verdade é que essas fórmulas quase mágicas podem ser tão enganosas quanto perigosas.

Para a presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia - Regional Espírito Santo, Mariana Guerra, o principal risco desses produtos é o fato de eles não passarem por fiscalizações. “Não sabemos se eles contém ou não substâncias que podem prejudicar o organismo”, explica.

A médica cita como exemplo o caso da caralluma fimbriata. A substância, que se popularizou rapidamente, foi proibida em 2010 pela Anvisa após a constatação de que quantidades de sibutramina (remédio de uso controlado) eram misturadas ao produto.

Mas a gama de ofertas vai muito além. Mariana lembra, por exemplo, da comercialização de plantas como sene e cáscara sagrada, que têm um efeito laxante para o intestino e causam uma falsa impressão de perda de peso. “A pessoa apenas desidrata e perde nutrientes. Ela não perde gordura, o objetivo não é alcançado”, pontua.

Do mesmo modo age a noz-da-índia, que ainda desperta em muitas pessoas a ilusão do emagrecimento. O pior acontece, segundo Mariana, quando no lugar da noz é vendido o nhapéu-de-napoleão, uma semente ainda mais tóxica. “Dependendo da quantidade, ele pode levar à morte”, alerta a especialista.

Arrependimento

Dos 18 aos 38 anos, Cristina Manhães, 39, foi consumidora fiel dos produtos para emagrecer, experimentando tanto de remédios controlados, quanto substâncias naturais, como a noz-da-índia. As dicas vinham de amigas e de pessoas próximas.

Mas além de não conseguir manter o baixo peso, Cristina sofreu ainda mais com os problemas de saúde desencadeados e a frustração gerada. A solução só chegou de um ano para cá, quando ela iniciou um tratamento que resultou em uma cirurgia bariátrica feita recentemente. Em 15 dias, nove quilos já foram perdidos.

“Me arrependo muito de ter usado esses produtos. Eu tremia, tinha mudanças de humor, meu sono até hoje não é o mesmo. Meu conselho é que as pessoas se amem mais e busquem o tratamento correto”, indica.

Já o uso de fitoterápicos, como o chá verde, o capsiate, o gengibre e o hibisco podem servir como auxílio para a perda de peso, desde que associados a uma dieta adequada e a exercícios físicos. No entanto, eles não são indicados para pessoas hipertensas ou sensíveis à cafeína. “Outro dado é importante é que o consumo não pode ser feito por um longo tempo e as ervas precisam ser trocadas”, acrescenta.

Liraglutida: o novo queridinho dos médicos

Recém-chegado ao mercado brasileiro, um novo medicamento anti-obesidade tem despertado o interesse e também a aprovação de especialistas. Trata-se do Saxenda, que tem como princípio ativo a liraglutida. Utilizada inicialmente no tratamento do diabetes, essa substância se mostrou bastante eficiente no auxílio à perda de peso.

A comercialização da liraglutida foi aprovada em 2016 pela Anvisa. Como explica o nutrólogo Marcos André Dantas, é um medicamento injetável, que deve ser aplicado uma vez ao dia. Ao ser injetada, a liraglutida ocupa, no estômago, o lugar do hormônio GLP-1, prolongando assim a sensação de controle da fome.

“Ela diminui o esvaziamento gástrico e manda um estímulo para o cérebro parar de comer. A pessoa fica saciada e, por vezes, se sente mal se come errado”, completa a endocrinologista da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade, Maria Fernanda Barca.

Outro ponto ressaltado pelos médicos são os efeitos menos agressivos da medicação, que não atinge o sistema nervoso como a maioria. Segundo Marcos André, em alguns pacientes ele pode desencadear náuseas e vômito, mas mesmo o uso em excesso não levaria a problemas graves. “O risco é pequeno, seria uma hipoglicemia, fraqueza, indisposição”, elenca.

Mas ao mesmo tempo em que é bom, este medicamento não estará tão cedo ao alcance de todos. Segundo Marcos André, o custo mensal do Saxenda é de cerca de R$ 500 por pessoa. Além disso, seu uso deve ser feito por um período prolongado.

“Os trabalhos indicam que é preciso usá-lo muito tempo, por no mínimo um ano. Senão, o peso pode voltar, já que o efeito acaba, a fome volta e o paciente que ainda não criou hábitos de vida mais saudáveis não vai conseguir se controlar”, explica ele.

Assim como Marcos André, Maria Fernanda pontua que os estudos em relação ao remédio ainda estão em fase inicial e que questões como o tempo máximo de uso ainda não foram respondidas.

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