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'Todos os meus blocos estão com excesso de peso', confessa empresário

Os irmãos donos da Jamarle Transportes foram presos nesta quinta-feira; além de ter ciência do excesso de carga, os dois orientavam funcionários a fugir de fiscalizações

Acidente causado por carreta da Jamarle deixou 23 mortos
Acidente causado por carreta da Jamarle deixou 23 mortos
Foto: Bernardo Coutinho

Áudios de escutas telefônicas autorizadas pela Justiça mostram que os donos da empresa Jamarle Transportes, os irmãos Jacimar e Leocir Pretti, obrigavam motoristas a mentir e revelam como eles orientavam os carreteiros a fugir das fiscalizações. Em uma das conversas, Jacimar afirma: "Todos os meu blocos estão com excesso de peso". Os dois foram presos nesta quinta-feira (25).

As interceptações telefônicas, feitas logo após a tragédia, também mostram os empresários ameaçando testemunhas e atrapalhando investigações, de acordo com a Delegacia de Delitos de Trânsito, em Vitória.

OUÇA AS CONVERSAS

 

TRANSCRIÇÃO

 Conversa 1 

Leocir - Você tá indo só com o boletim praticamente, com peso de balança, com tudo direitinho, tudo certinho, né?

Empresário - É… muito pouco ainda

Leocir - Muito pouco ainda...Todos os meus blocos lá estão com excesso de peso, todos os meus blocos. Todos! (inaudível) Eu não sei o que eles vão arrumar.

Empresário - É…

Leocir - Né?

 Conversa 2 

Motorista - Olha, to aqui no posto, eu to com o pneu do “cavalo” estourado (inaudível)… na tração, no truck

Leocir - Rapaz, eu to em Vitória

Motorista - Uai

Leocir - To mexendo em carro aqui em Vitória, não tem borracheiro, tem ninguém não.

Motorista - Uai, como é que vai fazer?

Leocir - Rapaz, eu não sei… vai no estepe, uai

Motorista - Mas é o estepe mesmo que estourou ué.

Leocir - E cadê o outro?

Motorista - O outro tá no arame

Leocir - Rapaz….

Motorista - O outro tá no arame, até mandei foto para você pra ver o pneu, uai…

 Conversa 3 

Leocir - Oi, tá onde?

Motorista - Nanuque

Leocir - Oi?

Motorista - To em Nanuque

Leocir - Nanuque? Tem balança aí, rapaz! Tem balança aí!

Motorista - Eu to parado aqui desde onze horas (inaudível)

Leocir - Aham,… e você vai carregar isso para onde?

Motorista - Teixeira (de Freitas)…

Leocir - Teixeira (de Freitas) né? Aí de lá você liga para acertar o frete para mim fazer tudo direitinho, viu?

Motorista - Ta, beleza. Pode deixar.

Leocir - Então tá bom, você me liga a hora que o cara for acertar o frete…. Você fala (inaudível) pro meu patrão pra ver como é que é.

 Conversa 4 

Leocir - Ta onde?

Motorista - To passando aqui no pedra (inaudível)

Leocir - Tá, você vai passar por dentro ali, cê tá sabendo né?

Motorista - Eu sempre passo por dentro

Leocir - Santa Rosa (em Aracruz)

Motorista - É, eu não passo lá na polícia não

Leocir - Então tá (inaudível)

 Conversa 5 

Leocir - E aí, o que você acha melhor “nós” fazer?

Dono da pedreira - A gente tava vindo com 55 (inaudível)

Leocir - Sessenta “nós” tava… sessenta, sessenta e dois… (inaudível)

Dono da pedreira - O que você pode autorizar a fazer aí?

Leocir - Rapaz, deixa eu dar uma olhada aqui. Depois eu te ligo.

 Conversa 6 

Motorista - É depois de Linhares.

Jacimar - Ah, então vai la, uai. Vai lá e fala. Que nós tem nossa empresa. Do jeito que você conversou, você fala. Não fala mentira não.

Motorista - Não, eu não tenho nada para falar. Eu vou falar a verdade, ué. Fui trabalhar, fui la, mas não deu certo. Não aconteceu aquilo…

Jacimar - Não, não é que não deu certo. A coisa aconteceu… eu não te induzindo a você falar nada pra justiça errado não.

Motorista - Aham

Jacimar - Pode ser que nesse (inaudível), nosso negócio foi parar a empresa.

Motorista - Aham

Jacimar - Diminui. Não é nem parar, é diminuir a empresa. Você pode ser convocado a qualquer momento aqui com nós, entendeu? Você vai ser convocado de novo. Nós não sabemos nem como que é você, da sua conduta, você trabalhou um dia só com nós. Não foi uma viagem só que você deu?

Motorista - Foi, ué.

Jacimar - Cê fala com eles: eu dei uma viagem só, eu não conheço…Você pode ser contratado de novo amanhã, ou depois de amanhã, ou qualquer dia. Nós vamos voltar a trabalhar, nós não pode ficar sem trabalhar. Até porque (inaudível) a gente nem sabe se tenta pagar ou se tem que dispor da firma pra pagar, entendeu? Então… o que você vai falar lá…Ninguem que perder você ou acusar você, entendeu? Eu to aqui para te apoiar no que for preciso, no futuro.

Motorista - Beleza

Jacimar - No que você precisar de mim para qualquer coisa… foi um momento instantâneo que a gente teve que diminuir a empresa, a empresa tá rodando com 10% só, pra manter lá (inaudível)… entendeu?

Motorista - Entendi

Jacimar - Eu não posso ficar pedindo para você me defender lá. Eu posso pedir você para responder lá o que você analisou da nossa empresa. Depois você me fala se você precisar de alguma coisa, se você vai querer voltar para nossa empresa. Esse tá sendo um momento tenso.

Motorista - Beleza!

Jacimar - Você me liga depois se você precisar de alguma coisa, se precisar de levar você em algum lugar… eu to disposto a te ajudar também para você não ficar na despesa, entendeu? Mas não fala mentira lá não…

Motorista - Não, não adianta falar mentira lá não….

Jacimar - Você não esquece de falar que um caminhão que nos carregamos para você despachar, o caminhão deu problema e nós mandamos outro para você seguir viagem

Motorista - Aham

Jacimar - (inaudível) não foi isso o que aconteceu?

Motorista - Foi

Jacimar - Um caminhão não deu problema, não mandamos outro para seguir viagem, não mandamos outro motorista para te acudir?

Motorista - Aham

Jacimar - Então você fala tudo certinho… (inaudível) mostra sua carteira profissional, mostra que você já trabalhou, que você não é inexperiente…

Motorista - Aham

Jacimar - Que eu te contratei por telefone, não te contratei por informação, entendeu? Pode falar tudo o que eu to falando aqui, você fala isso. Você fala o que aconteceu.

IMPRUDÊNCIA MESMO APÓS A TRAGÉDIA

Uma informação que surpreendeu os policiais civis é o fato de Jacimar e Leocir Pretti terem incentivado caminhoneiros da transportadora deles a praticarem irregularidades nas estradas, no sentido de driblarem a fiscalização policial, mesmo após a grande repercussão da tragédia que comoveu todo o Espírito Santo.

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Jacimar chegou a ser preso pouco tempo após o acidente, mas foi solto dias depois. Em seguida, começaram as interceptações telefônicas. Segundo a Polícia Civil, na última quarta-feira (23), um caminhoneiro mentiu em depoimento. Ele já havia sido flagrado nas escutas telefônicas conversando com os irmãos sobre como fugir da fiscalização. Ele recebeu voz de prisão por falso testemunho, no entanto este caminhoneiro afirmou que foi ameaçado e obrigado a mentir um dia antes do depoimento, caso contrário seria demitido.

“Lógico que ele mandou desviar (da PRF). Ele falou para eu não dizer isso. O que vou fazer? Eu tenho família. Os dois fizeram uma reunião comigo. Eu nem sabia dessa intimação. Lógico que ele sempre mandou eu fugir da PRF. Eu também ando com excesso de peso. E continuou mesmo depois do acidente”, afirmou.

Para o chefe da Delegacia de Delitos de Trânsito, delegado Alberto Roque, não ficam dúvidas de que os empresários ameaçaram testemunhas e admitiram as irregularidades na transportadora. Fatores estes que resultaram na tragédia em Guarapari, segundo o delegado. “Todos os fatos só comprovam o entendimento do dolo eventual, ou seja, que pouco se importaram. Eles tinham domínio sobre os motoristas e poderiam ter evitado (o acidente)”, afirma Alberto Roque.

IRREGULARIDADES

Irregularidades foram constatadas na carreta envolvida na tragédia da BR 101, incluindo defeitos no tacógrafo, aparelho que registra graficamente a velocidade atingida pelo veículo. O equipamento apontava a carreta com 20 km/h a menos do que ela realmente estava. Veja o depoimento de um dos motoristas: 

HOMICÍDIO, COAÇÃO E ALICIAMENTO

Segundo a polícia, eles vão responder por homicídio, no caso das 23 vítimas da tragédia de Guarapari, coação e aliciamento de testemunha, além de lesão corporal, no caso dos sobreviventes feridos. Os dois estão no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Colatina, no Norte do Estado, de forma temporária, com prazo de cinco dias, prorrogáveis por outros cinco. O delegado já adiantou que vai pedir a prisão preventiva dos empresários, para que eles permaneçam presos até a conclusão do inquérito.

ADVOGADO 

Procurado pela Rádio CBN Vitória, o advogado dos irmãos Pretti, Dionísio Balarine Neto, afirmou por telefone que ainda está estudando os autos do processo e por enquanto não vai se posicionar sobre o caso. Ele se dispôs a falar com a imprensa na próxima segunda-feira. (Com informações de Kaique Dias, da Rádio CBN Vitória)

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