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Carta deixada por médica revela medo de morrer: "Me sinto uma refém"

O documento, revelado nesta quinta-feira (21) por uma pessoa próxima de Milena, foi registrado pela própria médica em cartório, e detalha que, além de problemas no casamento, ela enfrentava o medo do que poderia acontecer com as duas filhas

Carta deixada pela médica Milena antes de ser morta em Vitória
Carta deixada pela médica Milena antes de ser morta em Vitória
Foto: Gazeta Online

Uma carta escrita no dia 5 de abril deste ano pela médica Milena Gottardi, 38 anos, revela a situação em que vivia a vítima meses antes de ser executada. O documento, revelado nesta quinta-feira (21) por uma pessoa próxima de Milena, foi registrado pela própria médica em cartório, e detalha que, além de problemas no casamento, ela enfrentava o medo do que poderia acontecer com as duas filhas que deixou, de dois e nove anos (veja a transcrição da carta, na íntegra, no final da matéria)

Me sinto uma refém dentro da minha própria casa. Está insuportável. Não quero brigar com ele, mas também não consigo ter uma conversa, um diálogo. Ele não permite isso
Trecho da carta de Milena Gottardi

Clique nas páginas para ampliar a carta

A médica começa dizendo que estava com problemas na separação e destaca: "por várias vezes ele (Hilário) demonstrou um temperamento difícil com mudanças de humor frequentes durante o dia. Reage com agressividade em algumas situações, porém sem agressão física. A agressividade é feita através de palavras", afirma. 

Confira os principais pontos da carta

Pressentiu a morte

Em trecho da carta, Milena sugere que tinha medo de ser morta pelo ex-marido Hilário Antônio Fiorotti Frasson. Ela também detalha que o processo de separação estava complicado e levantou a hipótese de o marido se suicidar. "[...] se acontecer algo de ruim comigo, por exemplo, se Hilário Antônio Fiorotti Frasson me matar e, pode ser que tente se matar também [...]".

Ameaças

Durante vários momentos do documento, que foi registrado em cartório, Milena revela que o ex-marido era agressivo com ela e com as crianças, e que ela não conseguia manter um diálogo com ele. Além disso, a médica complementa lamentando que não sabia mais o que fazer. "[...] por várias vezes ele demonstrou um temperamento difícil com mudanças de humor frequentes durante o dia. Reage com agressividade em algumas situações [...] a agressividade é feita através de palavras".

NO VÍDEO ABAIXO, JORNALISTA PATRÍCIA VALLIM LÊ CARTA DEIXADA PELA MÉDICA:

 

Manias do ex-marido

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Milena, após relatar episódios de ameaça, também sugere que Hilário poderia sofrer de uma doença psiquiátrica. "[...] (Hilário) tem manias como de limpeza excessiva que ao meu ver é muito sugestivo de transtorno obsessivo compulsivo".

Alcoolismo

A médica, morta na quinta-feira (14), aponta o terror que era conviver com Hilário quando a bebida passou a fazer parte do cotidiano da família. "A situação ficou mais grave a partir do momento que o alcoolismo começou a se tornar algo real nas nossas vidas. Ele era um etilista social (embora mesmo nos finais de semana sempre abusava da quantidade de álcool), o hábito se tornou diário".

Guarda das filhas

Prevendo seu possível assassinato, a médica se adiantou e deixou clara a vontade que tinha de que suas filhas, de dois e nove anos, ficassem sob a guarda do irmão, Douglas. Ela queria que as meninas continuassem tendo uma boa educação e avaliou que a família dela poderia proporcionar isso.

O trecho em que isso é detalhado, descreve: "[...] se Hilário Antônio Fiorotti Frasson me matar [...] eu desejo que minhas filhas "X" e "XX" fiquem sob a guarda do meu irmão Douglas Gottardi Tonini com a supervisão de minha mãe Zilda Maria Gottardi porque assim ficarei em paz".

Mensagem às filhas

Prevendo a própria morte e com medo de deixar as filhas sem orientação, Milena, no último parágrafo da carta, deixou uma mensagem às filhas. Leia:

"A "X" e a "XX" tenham certeza de que vocês são o bem maior que tenho. O meu amor por vocês é infinito. Um dia vocês saberão que a mamãe tentou de todas as formas manter o casamento, mas não deu. E a separação foi a forma que eu encontrei de busca a nossa paz e a nossa felicidade. Eu sempre estarei com vocês para protegê-las e amá-las."

A carta deixada por Milela Gottardi 

Vitória, 05 de abril de 2017

Meu nome é Milena Gottardi Tonini , sou mãe de "X" (9 anos) e "XX" (1 ano e 10 meses). Sou casada com Hilário Antônio Fiorot Frasson, mas estamos em processo de separação. Temos um relacionamento de 20 anos (7 anos de namoro e 13 anos de casamento).

Por várias vezes ele demonstrou um temperamento difícil com mudanças de humor frequentes durante o dia. Reage com agressividade em algumas situações, porém sem agressão física. A agressividade é feita através de palavras. Tem manias como de limpeza excessiva que ao meu ver é muito sugestivo de transtorno obsessivo compulsivo.

Toda essa personalidade sempre me preocupou e me oprimiu porque nunca sabia como ele reagiria às situações do cotidiano. Orientei por diversas vezes à procura de tratamento psiquiátrico, mas ele nunca levou a sério. Ia ao psiquiatra, mas não seguia o tratamento proposto. A situação ficou mais grave a partir do momento que o alcoolismo começou a se tornar algo real nas nossas vidas. Ele era um etilista social (embora mesmo nos finais de semana sempre abusava da quantidade de álcool), o hábito se tornou diário.

Em relação às meninas, sempre foi um bom cuidador, porém, principalmente com a "X" usava também de palavras agressivas e castigos físicos [...].

A nossa relação sempre foi de posse. Ele sempre demonstrou muita obsessão à minha pessoa, mesmo antes do namoro.Diante de todos esses fatos, hoje sairei dessa com minhas filhas por determinação judicial, uma vez que estou desde o dia 5 de março de 2017 tentando convencê-lo a sair de casa ou aceitar pacificamente a separação. No entanto, não obtive êxito nas inúmeras tentativas.

As conversas ele sempre partia para o lado das ameaças. Falava que não sairia de casa, nem deixaria as meninas, que se um dia me separasse, ele declararia guerra, e se mataria (falou isso perto de "X" dentre outras falas). Me sinto uma refém dentro da minha própria casa. Está insuportável! Não quero brigar com ele, mas também não consigo ter uma conversa, um diálogo.

Ele não permite isso. Temo pelas crianças. A "X" está em acompanhamento com psicóloga "Y", a qual orientou sempre pouparmos de qualquer divergência entre o casal, mas ele grita e fala coisas terríveis perto dela.

Não aguento essa situação, por isso pedi ao juiz a liberação para sair de casa com as meninas para me poupar e, principalmente, as minhas filhas de um ambiente hostil.

No entanto, não sei qual será a reação dele. Tenho medo que essa agressividade verbal se concretize em atitudes. Temo em ele tirar sua própria vida e, como vemos em muitos casos, tirar a minha vida também.

Poderia ir na delegacia e relatar meus temores, mas não quero prejudicá-lo. Desejo muito que a situação seja resolvida pacificamente.

Embora eu desejo e rezo pela paz. Tenho duas crianças que dependem de mim que são "X" e "XX", dependem do meu amor, do meu carinho, dos meus ensinamentos e financeiramente.

Por isso, venho através desta carta expor a minha vontade que, se acontecer algo de ruim comigo, por exemplo, se Hilário Antônio Fiorotti Frasson me matar e, pode ser que tente se matar também, eu desejo que minhas filhas "X" e "XX" fiquem sob a guarda do meu irmão Douglas Gottardi Tonini com a supervisão de minha mãe Zilda Maria Gottardi porque assim ficarei em paz.

Sei que eles têm plenas condições de seguir com os ensinamentos e afeto para com as minhas filhas da forma que eu mesma faria. Bem como de utilizar todos os benefícios financeiros a favor da educação das minhas filhas.

Expresso essa vontade em vida e na forma dessa carta para que, se acontecer algo comigo, que as autoridades responsáveis possam se sensibilizar com o desejo de uma mãe que estava em busca somente de paz.

A separação será para mim a busca de paz e, com isso, uma casa harmonioza para criar minhas filhas. A "X" e a "XX" tenham certeza de que vocês são o bem maior que tenho. O meu amor por vocês é infinito. Um dia vocês saberão que a mamãe tentou de todas as formas manter o casamento, mas não deu.

E a separação foi a forma que eu encontrei de busca a nossa paz e a nossa felicidade. Eu sempre estarei com vocês para protegê-las e amá-las.

*As filhas da médica foram identificadas como "X" e "XX", e a psicóloga à que Milena se referiu é chamada de "Y" para preservar as identidades destas pessoas.

 

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