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Em carta, médica previa morte e desejo de que filhas ficassem com irmão

Milena já sugeria seu possível assassinato na carta que escreveu em abril deste ano, e deixa clara a vontade de o irmão cuidar das filhas

Carta deixada pela médica Milena antes de ser morta em Vitória
Carta deixada pela médica Milena antes de ser morta em Vitória
Foto: Gazeta Online

A médica Milena Gottardi Tonini Frasson, de 38 anos, deixou uma carta, registrada em cartório, meses antes de morrer. No documento, ela deixa claro que tinha medo de ser morta pelo ex-marido Hilário Antônio Fiorotti Frasson, e também expressa que, caso isso acontecesse, queria que as filhas, de dois e nove anos, ficassem sob a guarda do irmão, Douglas Gottardi Tonini, com a supervisão da mãe, Zilda Maria Gottardi. 

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Na mesma carta, a médica diz que, só assim, ficaria em paz, já que, de acordo com o relato do documento, Milena diz que sabe que o irmão tem plenas condições de seguir com a educação que ela dava às filhas, bem como fazer bom uso de recursos financeiros para as meninas.

Veja trecho da carta:

"[...] Por isso, venho através desta carta expor a minha vontade que se acontecer algo de ruim comigo, por exemplo, se Hilário Antônio Fiorotti Frasson me matar e pode ser que tente se matar também, eu desejo que minhas filhas "X" e "XX" fiquem sob a guarda do meu irmão Douglas Gottardi Tonini com a supervisão de minha mãe Zilda Maria Gottardi porque assim ficarei em paz. Sei que eles têm plenas condições de seguir com os ensinamentos e afeto para com as minhas filhas da forma que eu mesma faria. Bem como de utilizar todos os benefícios financeiros a favor da educação das minhas filhas.

Expresso essa vontade em vida e na forma dessa carta para que se acontecer algo comigo, que as autoridades responsáveis possam se sensibilizar com o desejo de uma mãe que estava em busca somente de paz."



A CARTA NA ÍNTEGRA

Vitória, 05 de abril de 2017

Meu nome é Milena Gottardi Tonini , sou mãe de "X" (9 anos) e "XX" (1 ano e 10 meses). Sou casada com Hilário Antônio Fiorot Frasson, mas estamos em processo de separação. Temos um relacionamento de 20 anos (7 anos de namoro e 13 anos de casamento).

Por várias vezes ele demonstrou um temperamento difícil com mudanças de humor frequentes durante o dia. Reage com agressividade em algumas situações, porém sem agressão física. A agressividade é feita através de palavras. Tem manias como de limpeza excessiva que ao meu ver é muito sugestivo de transtorno obsessivo compulsivo.

Toda essa personalidade sempre me preocupou e me oprimiu porque nunca sabia como ele reagiria às situações do cotidiano. Orientei por diversas vezes à procura de tratamento psiquiátrico, mas ele nunca levou a sério. Ia ao psiquiatra, mas não seguia o tratamento proposto. A situação ficou mais grave a partir do momento que o alcoolismo começou a se tornar algo real nas nossas vidas. Ele era um etilista social (embora mesmo nos finais de semana sempre abusava da quantidade de álcool), o hábito se tornou diário.

Em relação às meninas, sempre foi um bom cuidador, porém, principalmente com a "X" usava também de palavras agressivas e castigos físicos [...].

A nossa relação sempre foi de posse. Ele sempre demonstrou muita obsessão à minha pessoa, mesmo antes do namoro.Diante de todos esses fatos, hoje sairei dessa com minhas filhas por determinação judicial, uma vez que estou desde o dia 5 de março de 2017 tentando convencê-lo a sair de casa ou aceitar pacificamente a separação. No entanto, não obtive êxito nas inúmeras tentativas.

As conversas ele sempre partia para o lado das ameaças. Falava que não sairia de casa, nem deixaria as meninas, que se um dia me separasse, ele declararia guerra, e se mataria (falou isso perto de "X" dentre outras falas). Me sinto uma refém dentro da minha própria casa. Está insuportável! Não quero brigar com ele, mas também não consigo ter uma conversa, um diálogo.

Ele não permite isso. Temo pelas crianças. A "X" está em acompanhamento com psicóloga "Y", a qual orientou sempre pouparmos de qualquer divergência entre o casal, mas ele grita e fala coisas terríveis perto dela.

Não aguento essa situação, por isso pedi ao juiz a liberação para sair de casa com as meninas para me poupar e, principalmente, as minhas filhas de um ambiente hostil.

No entanto, não sei qual será a reação dele. Tenho medo que essa agressividade verbal se concretize em atitudes. Temo em ele tirar sua própria vida e, como vemos em muitos casos, tirar a minha vida também.

Poderia ir na delegacia e relatar meus temores, mas não quero prejudicá-lo. Desejo muito que a situação seja resolvida pacificamente.

Embora eu desejo e rezo pela paz. Tenho duas crianças que dependem de mim que são "X" e "XX", dependem do meu amor, do meu carinho, dos meus ensinamentos e financeiramente.

Por isso, venho através desta carta expor a minha vontade que, se acontecer algo de ruim comigo, por exemplo, se Hilário Antônio Fiorotti Frasson me matar e, pode ser que tente se matar também, eu desejo que minhas filhas "X" e "XX" fiquem sob a guarda do meu irmão Douglas Gottardi Tonini com a supervisão de minha mãe Zilda Maria Gottardi porque assim ficarei em paz.

Sei que eles têm plenas condições de seguir com os ensinamentos e afeto para com as minhas filhas da forma que eu mesma faria. Bem como de utilizar todos os benefícios financeiros a favor da educação das minhas filhas.

Expresso essa vontade em vida e na forma dessa carta para que, se acontecer algo comigo, que as autoridades responsáveis possam se sensibilizar com o desejo de uma mãe que estava em busca somente de paz.

A separação será para mim a busca de paz e, com isso, uma casa harmonioza para criar minhas filhas. A "X" e a "XX" tenham certeza de que vocês são o bem maior que tenho. O meu amor por vocês é infinito. Um dia vocês saberão que a mamãe tentou de todas as formas manter o casamento, mas não deu.

E a separação foi a forma que eu encontrei de busca a nossa paz e a nossa felicidade. Eu sempre estarei com vocês para protegê-las e amá-las.

*As filhas da médica foram identificadas como "X" e "XX", e a psicóloga à que Milena se referiu é chamada de "Y" para preservar as identidades destas pessoas.

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