Notícia

Cidade no papel: 60 projetos engavetados em Vitória

Em duas décadas, dezenas de obras na capital capixaba ficaram só mesmo na promessa

Vista do mirante da Fonte Grande
Vista do mirante da Fonte Grande
Foto: Marcelo Prest | GZ

Se alguns projetos que foram planejados para Vitória, nos últimos 20 anos, tivessem sido postos em prática, viveríamos em uma cidade muito diferente. Teríamos um centro olímpico, elevadores para subir os morros e várias alternativas para burlar o trânsito que diariamente complica a vida da população, como metrô de superfície, pontes, túneis, mergulhões, viadutos e até marinas públicas, para quem optasse por barcos.

Sem contar as possibilidades de lazer, como teleféricos, restaurantes panorâmicos nos morros e píeres de Camburi, polos turísticos em ilhas, museus variados, bondes ou belos calçadões em orlas que percorreriam quase toda a ilha. O Centro já estaria revitalizado, com fachadas históricas recuperadas, sem a fiação aparente que as ofusca. E as praias poderiam estar menos poluídas, já que o saneamento seria municipalizado.

Se você gostou desta cidade, saiba que ela um dia existiu, mas só no papel. Foi o que constatou levantamento realizado por A GAZETA, em arquivo de reportagens publicadas nas últimas duas décadas.

VIRTUAL

Neste período identificamos pelo menos 60 projetos lançados pelas seis últimas administrações municipais, alguns até com apoio dos governos estaduais à época, e que nunca foram nem mesmo iniciados. “Juntos compõem uma cidade virtual”, resume o arquiteto e mestre em Urbanismo, com pós-graduação em Políticas Públicas e em Gestão Ambiental Antonio Chalhub.

Ele próprio participou da elaboração de alguns deles, como é o caso dos túneis. “Que começamos a projetar na década de 80”, lembra. Além dos restaurantes panorâmicos nos píeres de Camburi, incluídos no projeto de reurbanização da praia. “Se uma parcela destes projetos tivesse sido realizada ao longo dos últimos 20 anos, teríamos sim uma outra Vitória”, destaca.

Chegou-se até a utilizar recursos públicos na execução de projetos executivos, plantas, maquetes e até vídeos que os tornavam quase reais. Para outros foram feitos convênios, lançados editais ou tiveram leis aprovadas. E teve ainda os que foram incluídos no planejamento estratégico da cidade, em orçamentos municipais e tiveram até verbas federais prometidas. “Há os que eram viáveis no momento de sua criação. Mas também teve os factóides, obras anunciadas e que não eram necessárias naquele momento”, avalia o arquiteto e urbanista André Abe.

Foto: Edson Chagas | GZ

Outro destaque apontado pelo levantamento realizado pela reportagem é que muitas dessas ideias eram recuperadas de administrações anteriores, com uma roupagem nova. É o caso do teleférico e dos túneis – projetos dos anos 80 –, a municipalização do saneamento, a orla noroeste ou a urbanização dos canais.

LENDAS

Com o passar dos anos, seja pelo custo, dificuldade de execução e articulação política ou por terem ficado no papel, alguns se transformaram em lendas urbanas: histórias fabulosas, amplamente divulgadas, um tipo de folclore moderno. Já imaginou um túnel cortando o maciço central de Vitória – a cadeia de montanhas da cidade – para garantir acesso entre as avenidas Serafim Derenzi e a Fernando Ferrari? E um outro, passando por baixo do Morro de Monte Belo – aquele da Faesa –, criando um acesso da Avenida César Hilal até Avenida Vitória, na altura da Fábrica de Ideias?

Para Abe, as cidades precisam ter um estoque de propostas para o futuro, como um laboratório de ideias. “Mas em alguns casos é preciso avançar, realizar estudos para verificar o grau de viabilidade”, pondera.

Chalhub vai ainda mais longe ao destacar que, pior do que os projetos que não saíram do papel, são obras não concluídas ou que estão sendo subutilizadas. “É o caso da Fábrica das Ideias, do Tancredão, do Sambão do Povo. Eles não se viabilizam e geram um alto custo de manutenção para o município”, assinala.

Na avaliação dele, precisamos estar atentos aos interesses da cidade, à aprovação de projetos que não sejam somente para um mandato, que atendam às demandas da população e que sejam viáveis. “O que precisamos é fazer com que a cidade real saia do papel”.

AS OBRAS SONHADAS

Ao longo dos últimos 20 anos, pelo menos 60 projetos foram planejados para Vitória. Obras que, apesar de terem sido prometidas, nunca saíram do papel.Algumas já se transformaram em lendas urbanas

Foto: Arte | A Gazeta

Metrô de superfície

Alternativa viária para Vitória, também conhecido como VLT, ligaria a cidade a outras da Região Metropolitana. Chegou a ser orçado em R$ 920 milhões.

Canal da Passagem

Outra proposta com pelo menos duas décadas e que ficou “quicando” nos últimos anos. A urbanização contempla deques, ciclovias, passarelas e pontos de encontro para lazer. Foi incluída na proposta de atualização do PDU da cidade, este ano.

Teleférico

Em 2003, faria parte da área de lazer do Parque da Fonte Grande, com restaurantes panorâmicos, e ficaria pronto em 2004. Nove anos depois, foi resgatado, agora para ligar vários bairros: São Benedito, Gurigica, Bonfim, Itararé e Bairro da Penha. Até hoje, nada.

Túnel

Em São Pedro, cortando o maciço central – cadeia de montanhas de Vitória –, da Avenida Serafim Derenzi a Joana Darc, para ter acesso à Fernando Ferrari.

Marina

Há 20 anos os planos eram de uma marina pública na Praça do Papa. Depois, o endereço estudado passou a ser o Píer de Iemanjá, em Camburi, com previsão de restaurantes panorâmicos. Projeto voltou a ser resgatado este ano.

OUTRAS PROPOSTAS

Água e esgoto - A municipalização foi anunciada em 1997, o projeto foi resgatado este ano pela prefeitura

Elevado em Santo Antônio - Seria construído sobre o canal para fazer a ligação da Rodoviária à Rodovia Serafim Derenzi

Galpões do IBC - Em Jardim da Penha, se transformariam em centro de lazer. Chegou a ser feito convênio com o governo federal, sem sucesso

Ilha da fumaça - No local seria instalado um polo turístico

Cais do Hidroavião - Espaço seria destinado a restaurante e museu

Píeres de Camburi - Na ponta contariam com restaurantes panorâmicos

Avenida Adalberto Simão Nader - Seria duplicada

Centro de Convenções ou de Eventos - Ao lado do aeroporto, nunca foi feito

Avenida Serafim Derenzi - Seria duplicada

Praça do Cauê - Deixaria de existir e se transformaria em uma rua de acesso à Terceira Ponte

Revitalização do Centro - Com retirada da fiação e recuperação das fachadas

Mergulhão em Camburi - Seria construído entre as avenidas Adalberto Simão Nader e Dante Michelini

Viaduto da Fernando Ferrari - Seria construído no cruzamento com a Adalberto Simão Nader

Bonde no Centro - Alternativa para turismo

Orla Noroeste - Projeto executivo foi feito e incluía calçadões, ciclovias, restaurantes, interligando a região ao restante da ilha

Armazéns do Porto - No Centro, seriam convertidos em áreas de lazer com restaurantes, para receber turistas

Túnel de Monte Belo - Iria do final da César Hilal até próximo a Fábrica de Ideias, para garantir outras vias de trânsito

Saldanha da Gama - Seria transformado em um museu

Mergulhão da Leitão da Silva - Seria construído no cruzamento com as avenidas Marechal Mascarenhas de Moraes (a Beira-Mar) e Nossa Senhora dos Navegantes, na região da Praia do Suá.

Elevador de morro - Para locais onde não há transporte coletivo

Mercado da Capixaba - Reformado e restaurado, seria museu ou espaço de cultura

Radares em Camburi - Para reduzir a velocidade

BARRADOS POR FALTA DE DINHEIRO E BUROCRACIA

A cidade de Vitória cresceu seu território sobre o mar e assim está sob forte impacto das legislações federais que tratam das áreas de marinha e das propriedades da União. E são essas leis, além da burocracia e as dificuldades financeiras que dificultaram a execução de boa parte de pelo menos 60 projetos que nunca saíram do papel, como apontado em levantamento realizado por A GAZETA.

A avaliação é de dois ex-prefeitos da cidade – Luiz Paulo Vellozo Lucas e João Coser –, e do atual prefeito, Luciano Rezende. A administração da Capital esteve e ainda está na mão deles, nas últimas duas décadas, cada um deles com dois mandatos.

Foto: A Gazeta

SONHO

Um exemplo clássico, observa Coser, vem de um antigo anseio da cidade, principalmente dos moradores de Jardim da Penha: a transformação dos Galpões do IBC em área cultural e de lazer. “Sempre houve muita dificuldade para a União ceder a área, algo que se sobrepõe aos interesses da cidade”, pondera, acrescentando que a burocracia também emperrou boa parte dos projetos de revitalização do Centro de Vitória.

Luiz Paulo acrescenta que, além de dificultar, a legislação federal tem preconceito contra a utilização econômica destes espaços. “Há duas marinas privadas na cidade que há mais de uma década não são utilizadas em decorrência do aluguel cobrado pela União”, relata.

A falta de recursos públicos também pesou na hora da escolha dos projetos que seriam executados. “Havia propostas ótimas, futuristas, que elevariam a qualidade de vida da população, mas de custo elevado. Acabaram concorrendo e perdendo para as necessidades básicas da cidade”, observa Coser, que lamenta, por exemplo, não ter conseguido executar o Centro de Convenções. “Conseguimos a liberação do governo Lula de uma área de 100 mil m2, mas não foi possível executar o empreendimento e perdemos”, assinala.

AINDA

Uma realidade financeira que ainda pesa nos cofres municipais, como avalia Luciano Rezende: “Todo projeto precisa ter uma conexão com a realidade financeira e cultural”, destaca, lembrando que quando isso não ocorre, o projeto corre o risco de ficar em desuso.

“Na linguagem popular as pessoas chamam de elefante branco, ou seja, uma obra que é concluída e que não tem bom uso. Então, uma das formas de nós evitarmos isso é colocar os pés no chão e fazer com que os projetos sejam gradativamente instalados”, diz o prefeito.

E isso deve acontecer, pontua Rezende, principalmente quando “os projetos são transformadores e inovadores”, para que a sociedade vá acompanhando o seu amadurecimento, acrescenta.

Para Luiz Paulo, é preciso ainda entender que cada projeto tinha sua própria história. “Alguns eram intervenções urbanas, outros, estratégias. Ou ideias transformadoras, com uma possibilidade de desenvolvimento e implantação”, destaca o ex-prefeito.

É o caso, cita ele, do teleférico no Parque da Fonte Grande. “Havia um plano de manejo, com projeto de unificação das torres de televisão, com restaurantes, pousada, teleférico, museu, com a participação da iniciativa privada, algo que sempre defendi, para que não ficasse só na dependência dos recursos públicos, mas não aconteceu”, relata.

Um gestor municipal, observa Coser, precisa pensar muito a frente. “Muitos projetos se perdem no tempo. Outros dependem de longo planejamento. As obras são sempre os maiores desafios, mas há projetos simples que às vezes não saem do papel”, diz.

Ver comentários