Notícia

Caso Milena: Justiça aceita denúncia contra os seis acusados

O juiz da 1ª Vara Criminal de Vitória decidiu manter presos Hilário e outras cinco pessoas denunciadas pelo assassinato

Foto: Edson Chagas

As seis pessoas denunciadas como as responsáveis pelo assassinato da médica Milena Gottardi, entre elas o ex-marido da vítima, o policial civil Hilário Frasson, são agora réus em uma ação penal. A denúncia feita pelo Ministério Público Estadual foi aceita na tarde desta quarta-feira (1º) pelo juiz da 1ª Vara Criminal de Vitória, Marcos Pereira Sanches. Ele determinou ainda que os seis permaneçam presos.

Leia também

A médica foi baleada na cabeça no dia 14 de setembro, quando saía do trabalho, no estacionamento do Hospital das Clínicas (Hucam). No dia seguinte teve a morte declarada.

Em sua decisão, o juiz destaca que aceitou a denúncia feita pelos promotores porque houve “comprovação da materialidade do crime”. E mais, de que existe no processo “indícios de autoria e participação em relação aos acusados Hilário Antônio Fiorot Frasson, Esperidião Carlos Frasson, Valcir da Silva Dias, Hermenegildo Palauro Filho, vulgo “Judinho”, Dionathas Alves Vieira e Bruno Rodrigues Broetto, inclusive com individualização da conduta atribuída a cada um deles na prática do crime ali descrito”, assinala.

PRISÃO

Pistolagem e feminicídio

Ao analisar a conversão da atual prisão temporária dos réus para a prisão preventiva, o juiz destacou as características do crime e a periculosidade dos envolvidos no homicídio.

Os fatos, ainda a serem apurados em sua completa extensão no curso da instrução, revelam a possibilidade da existência do denominado crime de pistolagem, que tanto atemoriza o meio social, acrescido de feminicídio, que tem índices epidêmicos no Espírito Santo
Juiz Marcos Pereira Sanches

E continua: "A forma de execução do crime demonstra que os acusados ostentam periculosidade e contam com personalidade desprovida de sensibilidade moral, sem um mínimo de compaixão humana, não valorizando, destarte, o semelhante de forma a ser possível a convivência social".

Barbaridade e covardia

O juiz Sanches, na decisão, também lembra das filhas pequenas de Milena e das crianças com câncer que passavam pelos cuidados da médica.

Cometido dentro do estacionamento do próprio local de trabalho da vítima - a qual deixou duas pequenas filhas, além de um sem-número de crianças acometidas de câncer, as quais cuidava no exercício da profissão de médica especializada em oncologia pediátrica e voluntariamente por meio da Associação Capixaba Contra o Câncer Infantil
Juiz Sanches

Sanches ainda complementa e afirma que a prisão preventiva dos réus é necessária “para a manutenção da ordem pública e da credibilidade da Justiça”. 

Ameaças contra testemunhas

É informado ainda que no processo existem provas e testemunhos de ameaças e intimidações contra testemunhas. “Consta que parentes da vítima mudaram de endereço por medo do acusado Hilário”.

O juiz destaca que uma testemunha afirmou que, alguns dias após a morte de Milena, Hilário abaixou o vidro da porta do veículo que conduzia e ficou encarando a testemunha, quando ela atravessava a rua em uma faixa de pedestres. “Motivo pelo qual vive amedrontada, tendo informado a um dos investigadores, por meio de conversa em WhatsApp, que, também iria se mudar para outro ente federado, mesmo porque o mencionado acusado havia passado o dia todo anterior ligando para a escola das filhas e estava todo mundo apavorado”, disse o juiz.

'É meu dia sim'

É descrito ainda na decisão que há relatos de “comportamentos intimidatórios exteriorizados” por Hilário na porta do estabelecimento de ensino das filhas, em trajes comuns e sem qualquer identificação da condição de policial civil. “Portando ostensivamente arma de fogo, e no fato de, após ser indagado se aquele era o dia correto dele buscar as filhas na escola (já que se tratava de uma quarta-feira e o combinado eram às quintas-feiras), erguer a camisa e mostrar a pistola em sua cintura para a professora que o questionou, respondendo: ‘É meu dia sim’”, relata a decisão.

Foto: Fernando Madeira

É apontado ainda que no processo há informações sobre a personalidade do ex-marido, dita como “agressiva e possessiva” em relação à vítima. “Inclusive com a solicitação de instalação de câmeras escondidas no apartamento em que residiam, notadamente no interior do quarto do casal e na porta de entrada do imóvel, mesmo após a vítima decidir colocar fim ao casamento, além da narrativa de ameaças por ela sofridas, mormente após a medida judicial de separação de corpos, e do envio de vídeos e mensagens com conotação intimidatória, no qual aparece manuseando e ostentando armas de fogo, o que resultou em intenso sofrimento psicológico por parte da vítima e no pressentimento de futura morte, conforme exteriorizado em carta por ela manuscrita acostada aos autos”.

Dificuldades

A decisão judicial aponta ainda que dois dos réus dificultaram as investigações. É o caso de Hilário Frasson, que se recusou a entregar seu telefone pessoal para que fossem analisadas as conversas dele com a ex-mulher. Segundo o juiz, foi necessário a expedição de um mandado de busca e apreensão para que o aparelho pudesse ser recuperado.

Informa ainda que o pai de Hilário, Esperidião Frasson, é “pessoa temida na localidade de Timbuí”, com envolvimento em outros crimes na região, tanto que o executor do crime, Dionathas Alves, solicitou medidas de proteção na prisão. “Tamanho o temor exteriorizado nos presentes autos que o próprio acusado de ser o autor dos disparos de arma de fogo contra a vítima solicitou medidas especiais de proteção a este juízo. Se o medo aflige quem se encontra recolhido em unidade prisional, quiçá os que não contam com a pronta e imediata tutela estatal e ainda têm que prestar declarações acerca dos fatos mesmo diante desse assombroso cenário”, destaca o juiz.

Há ainda, segundo o juiz, o risco descrito no processo de fuga por parte dos acusados Valcir e Hermenegildo, os quais teriam atuado como “corretores da morte”. Ele informa que Judinho foi preso pela polícia na zona rural da cidade de Aimorés, Minas Gerais e que, apesar de ter esboçado a intenção de se apresentar espontaneamente, acabou desistindo, “Só não fugiu em razão de estar sendo monitorado pela autoridade policial por meio de interceptação telefônica judicialmente autorizada”, assinalou o juiz.

Por fim, destaca em sua decisão, o envolvimento de Dionathas em processos por roubo, receptação, porte ilegal de arma e violência doméstica, além de ser apontado pela polícia como suspeito de envolvimento em outros dois homicídios na cidade de Fundão. “Ademais, afirmou ter praticado crime(s) de roubo com o acusado Bruno, indicando ter personalidade voltada para o crime e dele fazer sua atividade econômica principal, e tanto se torna mais grave quando consta dos autos a informação de que o acusado Esperidião queria a contratação de uma pessoa com 'referência', o que reforça a possibilidade apontada pela autoridade policial de estar envolvido em crimes de homicídio ocorridos em Fundão no presente ano que vitimaram Marcela Tonini Soares e Lorrane Clemente Pereira”, diz o juiz.

QUEM É QUEM NO CASO MILENA?

 ACUSADOS DE SEREM OS MANDANTES 

Hilário Antônio Frasson, ex-marido da médica Milena Gottardi Tonini Frasson, teve arma e celular apreendidos pela polícia
Hilário Antônio Frasson, ex-marido da médica Milena Gottardi Tonini Frasson, teve arma e celular apreendidos pela polícia
Foto: Edson Chagas

Hilário Antonio Fiorotti Frasson, 44 anos 

Policial civil, ex-marido da vítima e apontado pela polícia como um dos mandantes do crime. Hilário era conhecido na região de Fundão pelo apelido de "advogado". Junto ao pai, ele teria planejado o crime e decidido quem chamaria para executá-lo. Foi detido no dia 21 de setembro, enquanto trabalhava.

Esperidião Carlos Frasson, ex-sogro da médica Milena Gottardi, chegando ao DML
Esperidião Carlos Frasson, ex-sogro da médica Milena Gottardi, chegando ao DML
Foto: Fernando Madeira

Esperidião Carlos Frasson, 71 anos

Pai do policial civil e proprietário de um sítio em Fundão, ele também é apontado pela polícia como mandante do crime. O idoso teria ajudado o filho a esquematizar a execução da médica. Esperidião foi preso também no dia 21 de setembro, no sítio em que morava, em Fundão.

 INTERMEDIÁRIOS 

Valcir da Silva Dias
Valcir da Silva Dias
Foto: Divulgação/Polícia Civil

Valcir da Silva Dias

Lavrador, morador de Fundão e apontado pela polícia como intermediário do crime. Ele e Hermenegildo contrataram Dionathas Alves Vieira. Valcir conhecia Hilário e o pai havia mais de 30 anos. A ele não teria sidoi oferecido dinheiro para participar no crime. O pagamento seria uma "camaradagem", segundo a polícia, algo comum no cenário da pistolagem. Valcir é proprietário de um Gol cinza e estava com Hermenegildo no local e na hora do crime acompanhando o desenrolar dos fatos.

Hermenegildo Palauro Filho é acusado de participar do assassinato da médica Milena Gottardi
Hermenegildo Palauro Filho é acusado de participar do assassinato da médica Milena Gottardi
Foto: Reprodução

Hermenegildo Palaoro Filho 

Peão de boiadeiro, amigo da família Frasson e apontado como intermediário do crime. Junto com Valcir da Silva, contratou o Dionathas Alves Vieira. Assim como Valcir, conhecia os mandantes havia mais de 30 anos e também foi ao casamento de Milena e Hilário. O pagamento seria uma "camaradagem", segundo a polícia, algo comum no cenário da pistolagem. Junto com Valcir, estava no local do crime acompanhando o desenrolar dos fatos. Hermenegildo está foragido. 

 EXECUTOR 

Dionathas Alves Vieira é acusado de matar a médica Milena Gottardi
Dionathas Alves Vieira é acusado de matar a médica Milena Gottardi
Foto: Divulgação/Polícia Civil

Dionathas Alves Vieira, 23 anos

Pedreiro e carpinteiro em Fundão, ele teria sido contratado por Valcir e Hermenegildo para executar o crime, segundo a polícia. Ele recebeu a orientação para que tudo parecesse um latrocínio (roubo seguido de morte). Para executar o crime, ele precisava de uma moto roubada, e encomendou o crime ao seu cunhado, Bruno. Os dois partilhariam os R$ 2 mil oferecidos pelos intermediários e que seriam pagos pelos mandantes. A dívida seria quitada após a morte da médica, "quando a poeira baixasse". Como foram descobertos, a dívida não foi quitada.

No dia do crime, segundo a polícia, ele foi para o Hucam com a moto. Lá encontrou Valcir e Hermenegildo. Entrou no carro deles e recebeu, de Valcir, a arma e a indicação de quem era a Milena. Após o crime, entregou a arma para Valcir e desapareceu. Quando foi contratado como pistoleiro, 25 dias antes do crime, Dionathas estava desempregado. Na semana do crime, ele conseguiu um emprego de pedreiro em uma obra em Maria Ortiz, Vitória. Dionathas foi preso no dia 16 de setembro, tentando fugir.

 APOIO 

Bruno Broetto
Bruno Broetto
Foto: Reprodução/Facebook

Bruno Rodrigues Broetto 

Cunhado de Dionathas, Bruno teria ficado, segundo a polícia, encarregado de roubar a moto utilizada no crime, uma CB 300 vermelha.

Ver comentários