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"Eles enxergam meu filho além do autismo", diz mãe sobre inclusão

Mãe relata exemplo de inclusão que dá certo em escola

Foto: Marcelo Prest

Ana Paula tem os vídeos com cada progresso do filho guardado. O que pode ser uma cena corriqueira para alguns é uma baita vitória para ela e Juan, 9 anos, que tem autismo. A cada avanço dele, a cada demonstrativo de interação, Juan é aplaudido pelos coleguinhas de turma.

“Geralmente ele fica na dele. Quando ele faz algo, a turma comemora. E ele gosta. Ele percebe que ele fez algo bom”, conta a funcionária pública Ana Paula Fialho Silva, 36 anos, mãe de Juan Felipe Fchuína, 9 anos, que autismo do tipo mais grave.

“Eles (equipe pedagógica) tiveram o olhar de mantê-lo na mesma turma”, diz Ana Paula.

Por lei, a inclusão nas escolas é garantida a todos os alunos, não só a matrícula, mas na inclusão de fato, como prevê a Lei Brasileira de Inclusão. Isso, porém, não acontece na prática, com algumas exceções.

O caso de Juan é uma dessas exceções. Ele estuda no quarto ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Ceciliano Abel de Almeida, em Vitória. Antes dali, ele tinha iniciado os estudos no Centro Municipal de Educação Infantil (Cmei) Neucy da Silva Braga, também em Vitória. Em ambas as escolas, a experiência de mãe e filho foi positiva.

“Isso porque eles enxergam o meu filho para além do autismo. Elas (professoras) deram amor ao meu filho”, justifica Ana Paula.

“As escolas têm muita dificuldade de receber (alunos com necessidades específicas), principalmente as particulares. Mas eu não tenho do que reclamar”, diz Ana Paula.

“Eles tiveram um olhar diferente. Não forçaram a entrar na sala de aula. Deixaram-no ir se acostumando com o espaço. Foram dois anos se acostumando. E foram vendo o potencial dele. Hoje ele escreve. É fantástico. É um guerreiro”, conta Ana.

Foto: Arquivo

Adaptação

Entre os professores de Juan está Alba Camporez, especializada em deficiência intelectual. Ela é uma das responsáveis pelo sucesso no desenvolvimento de Juan.

“O primeiro passar é identificar e explorar as potencialidades. No caso do Juan, percebi uma potencialidade em linguagem, mais especificamente em inglês”, relata Alba.

Feita a identificação das habilidades e dificuldades do aluno, é montado um plano de trabalho, bem individualizado, para o estudante.

Reconhecimento

Ana Paula morava na Espanha, onde o Juan nasceu. “Eu não tinha percebido que meu filho tinha autismo. Minha família aqui no Brasil percebia que ele era diferente pelas fotos. Quando cheguei, pensaram que ele era surdo”, relata.

A psicopedagoga Maria José Cerutti, mestre em Educação, explica que autistas têm dificuldades de comunicação oral e afetiva. “Usam gestos repetitivos, movimentos com as mãos, gostam sempre dos mesmos brinquedos, não gostam de barulho, de agitação. Algo desorganizado pode desencadear uma crise, uma irritação muito grande”, exemplifica a psicopedagoga.

Apesar de ter o autismo no grau mais grave, Juan só foi reconhecido como tal no Cmei, que aconselhou a mãe a levá-lo ao médico. “Os médicos na Espanha diziam que não era nada, que era exagero de mãe”, diz.

“Quando perceber algo diferente, não se apavore. Não é uma doença, é um transtorno de comportamento. Então quanto mais cedo identificar, maior a probabilidade de levar uma vida normal”, diz Maria José Cerutti.

TRATAMENTO DE AUTISTA VARIA PARA CADA CASO

Reconhecer a criança autista como um ser humano com demandas e habilidades bem próprias é fundamental para estimular seu desenvolvimento e lhe dar mais chances de seguir uma vida adulta considerada normal.

“Cada caso é um caso. Um não é como o outro. O autista precisa de intervenção multidisciplinar. Temos crianças que não falam, temos crianças que falam várias línguas. Do que eles gostam, eles gostam muito”, explica Pollyana Paraguassu, presidente da Associação dos Amigos dos Autistas do Espírito Santo (Amaes).

Foto: Marcelo Prest

Ela é mãe de Felipe, 14 anos, que é autista. Pollyana conta que as escolas ainda têm dificuldades de incluir de fato as crianças autistas e aponta os direcionamentos para se ter sucesso nos cuidados de quem tem esse transtorno de comportamento.

Como deve ser o trabalho na escola?

Tem que ser um trabalho individualizado. A maior dificuldade não é incluir, mas fazer as atividades adaptadas. A idade cronológica não é a mesma da idade cognitiva. Nem sempre é o mesmo estagiário que fica com a criança. A criança também tem que querer estar na sala de aula, por isso é um processo de confiança. Tem que ter uma pessoa disponível. Por lei, tem que ser um profissional por criança. Mas não é assim que funciona.

Quais são os sinais de autismo e tratamento?

Entre os sinais, atraso na fala e a falta de interação. Ela não usa brinquedo de forma adequada... Nosso tratamento aqui é trabalhar com o comportamento da criança. Mas há outros tipos de tratamento. Tem quem vai na base alimentar, com mudança na alimentação.

Mais casos estão sendo identificados?

Em 2017, acolhemos 241 novas famílias aqui na Amaes. Em 2016, foram 116. Não sei se as pessoas estão tendo mais informações ou aceitando mais. Porque há pais que não aceitam. É comum a avó da criança vir buscar informação.

Existe uma intervenção específica?

Cada caso é um caso. Um não é como o outro. O autista precisa de intervenção multidisciplinar. Temos crianças que não falam, temos crianças que falam várias línguas. Do que eles gostam, eles gostam muito. A nossa dificuldade é descobrir a habilidade dele e investir.

Há diferentes autismos?

Antigamente se dividia entre os que tinham asperger, com uma inteligência grande, mas com dificuldade de socialização, e com capacidade cognitiva menor. Hoje não se faz mais essa divisão. São todos transtorno do espectro autista.

FAMÍLIA E ESCOLA DEVEM ANDAR JUNTAS

A psicopedagoga Maria José Cerutti, mestre em Educação, diz que a organização dos espaços para as crianças autistas e uma ação multidisciplinar entre profissionais é fundamental para o seu desenvolvimento.

“A organização do espaço que vai atender a criança, a forma como lidam com ela, o acompanhamento dos pais, do psicólogo, do psiquiatra, para fazer um trabalho completo. É importante que haja interação entre os profissionais”, diz a psicopedagoga.

Ela diz que tem que ter um auxiliar para acompanhar a criança. “Pode ser um estagiário. Todas as atividades têm que ser planejadas. O autista precisa ter um espaço e rotina organizados.”

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