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Após 7 anos, número de homicídios volta a crescer no Espírito Santo

Estado já teve 1.296 mortes, 220 a mais do que no ano passado

Luérick e Lucas foram amarrados e enforcados em sua residência em julho deste ano. O enterro deles emocionou a população de Ibiraçu
Luérick e Lucas foram amarrados e enforcados em sua residência em julho deste ano. O enterro deles emocionou a população de Ibiraçu
Foto: Bernardo Coutinho/Arquivo

Após sete anos de quedas sucessivas, o número de homicídios no Estado volta a crescer. Até o último dia 30, um mês antes de terminar o ano, já tinham sido registrados 1.296 assassinatos, o que equivale a pelo menos três pessoas mortas por dia. No ano passado, até o mesmo período, foram 1.076 casos. Ou seja: em 2017, 220 pessoas a mais perderam suas vidas.

O cenário foi influenciado pela greve dos policiais militares, de 4 a 22 de fevereiro deste ano, quando 219 pessoas morreram. Um mês que fechou com 228 mortes. Foi o período com o maior número de assassinatos, cujos reflexos se fizeram sentir nos meses seguintes.

São as próprias estatísticas que revelam o quanto a retomada dos trabalhos da PM e a repressão à criminalidade têm sido difíceis. Algo que a população sente no dia a dia nas ruas. Ao se comparar os nove meses que se seguiram à greve, com os mesmos meses de 2016, o que se verifica é que em sete deles houve um número maior de homicídios. O contrário só aconteceu em maio e em setembro.

Elizena de Martha durante velório dos dois filhos
Elizena de Martha durante velório dos dois filhos
Foto: Bernardo Coutinho/Arquivo

O próprio secretário de Estado da Segurança Pública reconhece que a relação com a Polícia Militar precisa evoluir. “Precisamos de uma tropa motivada e estamos trabalhando para isso”, disse André Garcia, acrescentando que aposta ainda na experiência acumulada nos últimos sete anos de quedas sucessivas para retomar a redução dos assassinatos.

DRAMA

Uma violência que atinge em cheio dezenas de famílias, como a de Elizena Martha e Tarcísio Cera, que teve seus únicos filhos assassinados de forma brutal em julho. Lucas e Luérick de Martha Cera, de 22 e 18 anos, foram amarrados e enforcados na residência onde moravam com o pai.

Os irmãos trabalhavam com compra e venda de veículos e foram vítimas de um golpe do comerciante Renato Bragunci, que confessou o crime. Ele está preso, mas a primeira audiência só deve acontecer no próximo ano.

Enquanto isso, a família tenta se recuperar de uma perda sem descrição. Na ocasião do enterro, Elizena relatou que o que vivia era uma crueldade. “Perder um filho é difícil, mas dois...”, desabafou. Para o pai, é difícil sobreviver a este tipo de tragédia. “Não dá nem para falar da saudade que sinto. Não tem justiça para isso”, desabafou.

A cidade onde ocorreu os crimes, Ibiraçu, é uma das que registraram aumento neste tipo de criminalidade. Em 2016, ocorreram três assassinatos. Este ano já foram cinco.

Ela está localizada na Região Norte do Estado, que concentrou o segundo maior volume de casos: 434 homicídios. Em alguns municípios a situação chega a ser alarmante. Em Linhares, por exemplo, houve um crescimento de 111% no número de assassinatos. Foram 78 este ano contra 37 do mesmo período em 2016.

Outra situação crítica é a Fundão, com crescimento de 67% neste tipo de crime. Foram 15 assassinatos este ano, contra 9 de 2016. Também merece destaque Jaguaré, que apresentou 82% de aumento neste tipo de violência, com 31 mortes este ano contra 17 em 2016.

Mas a liderança na violência ficou com a Região Metropolitana, com 740 casos. Puxa o ranking estadual a Serra, com 284 homicídios, 143% a mais do que o ano anterior. Logo a seguir vem Cariacica (169) e Vila Velha (154). O maior crescimento no número de mortes foi registrado na Capital, com 76 casos, contra 49 registrados em 2016.

Já os municípios da Região Sul apresentam, no conjunto, uma queda neste tipo de mortes. Juntos totalizaram 122 casos, contra 127 do ano passado.

Índices de assassinatos devem cair até o fim de 2018, diz secretário

O secretário de Estado da Segurança Pública, André Garcia, disse que o retorno do crescimento do número de homicídios é “um ponto fora da curva”, ao se referir aos número de mortes de fevereiro (228), período da greve dos policiais militares. “O resultado, sem dúvida, foi afetado pela greve, e pagamos o preço, com indicadores acima do esperado”, assinalou.

Garcia: estratégia é manter trabalho de monitoramento
Garcia: estratégia é manter trabalho de monitoramento
Foto: Carlos Alberto Silva | GZ

A expectativa de Garcia é de reverter esse quadro até o final do próximo ano, retomando a série histórica de reduções no ranking dos assassinatos que vinham sendo registrados nos últimos sete anos. “No segundo semestre, já tivemos uma tendência de normalização, e na Região Sul houve melhora com redução do número de homicídios”, destacou.

AÇÕES

A estratégia para reverter o quadro será manter, com ajustes, o trabalho que já vinha sendo feito desde 2010, com monitoramento diário dos indicadores e reuniões semanais com os comandos das polícias, e quinzenais, com uma equipe mais ampliada. “Analisamos os cenários e onde precisamos concentrar ou antecipar esforços; avaliamos os indicadores, o esclarecimento dos homicídios. Hoje temos uma taxa de resolutividade acima de 60% na Grande Vitória”, destaca.

Outra aposta, será dedicada a algumas ações que também vêm dando resultado, como a prisão de homicidas. “São ações frutos de investigações da Delegacia de Tóxicos e entorpecentes (Deten) e a Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), com alvos priorizados e que pesam no combate à impunidade”, disse.

Garcia relata que, dentre os municípios, a preocupação é maior com as cidades da Serra, Linhares, Cariacica e São Mateus. Locais que vão receber uma atenção maior, diz Garcia. Ele cita como exemplo operações como as que foram realizadas no condomínio Ourimar, na Serra, onde oito homicidas foram presos em um ano. “Também atuamos para neutralizar grupos que estejam atuando nestas áreas, como foi o caso da Região 5 (Grande Terra Vermelha e bairros adjacentes), de Vila Velha, onde todas as liderança criminosas foram presas”, relata.

Para impedir o surgimento de novos líderes, em muitos casos bem mais jovens e impetuosos, Garcia pondera que a aposta do governo é em programas sociais e educacionais, como o Ocupação social e o Escola Viva.

PUNIÇÃO

De acordo com o chefe da DHPP, José Lopes, a prioridade continuará sendo a resolutividade dos inquéritos de homicídios. “Resolver isso é fundamental. Se mata e não é punido, aumenta a impunidade”, disse, destacando que a divisão estava próxima de alcançar 70% de resolutividade. “Mas a greve mudou o cenário e caímos para uma média de 60%”, relatou Lopes.

Ele diz que 85% dos homicídios registrados na Região Metropolitana são com arma de fogo. Desses, 68% estão relacionados ao tráfico. “Já chegou a 85%, mas com a prisão dos homicidas a estatística foi diminuindo”, conta, acrescentando que 60% desse tipo de morte na Grande Vitória ocorre na Serra.

ANÁLISE

“É preciso comprometimento”

"Não podemos desconsiderar que o Espírito Santo vinha reduzindo, gradativamente, o número de homicídios. Uma redução acumulada de 43% na taxa de assassinatos. Mas fevereiro de 2017 trouxe uma situação atípica, que mudou o cenário da série histórica: a greve dos policiais militares. Em uma semana tivemos mais de 200 mortes que representam muito do ponto de vista social. Um aumento que vai repercutir nas estatísticas de 2017. Porém, considerando a redução acumulada, e o peso dela, acreditamos que em 2018 possamos ter uma retomada da redução que estávamos registrando e que destacou o Espírito Santo em nível nacional. Por três décadas sempre estivemos entre os mais violentos. Mas, para retomar esta tendência, é preciso o comprometimento dos comandantes e da tropa da PM. E mais, uma maior integração entre as polícias - que já vinha acontecendo –, investimento em tecnologia e inteligência policial e a participação da Polícia Civil na investigação dos crimes. Também é importante a manutenção do sistema prisional. Um dos fatores que contribuíram para redução dos homicídios foi a reestruturação do sistema prisional, algo que outros Estados estão buscando a duras penas. Temos que ser perseverantes. As autoridades com incumbência de controlar e prevenir a violência têm que continuar lutando" - Pablo Lyra Professor do mestrado de, segurança pública da UVV

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