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R$ 53 milhões são engolidos por crateras no asfalto na Grande Vitória

Chuva abre buracos e aumenta despesa de órgãos públicos

Carro desvia de cratera na Rua Inácio Higino, na Praia da Costa, em Vila Velha
Carro desvia de cratera na Rua Inácio Higino, na Praia da Costa, em Vila Velha
Foto: Vitor Jubini

Pelo menos R$ 53 milhões são gastos anualmente por prefeituras da Grande Vitória, pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e pelo Departamento de Estradas de Rodagem do Estado (DER-ES) em serviços para manutenção de vias, entre os quais operações tapa-buracos. Basta chover um pouco e o asfalto, em muitos pontos da Região Metropolitana e do interior do Estado, simplesmente dissolve. Fica difícil para os motoristas desviarem das crateras que se abrem pelo caminho, muitas vezes escondidas sob poças.

O motociclista Jaislan da Silva sabe bem disso. Ontem pela manhã, ele seguia pela Reta do Aeroporto (BR 101), no sentido Serra-Vitória, quando foi surpreendido e passou por um buraco. A roda traseira ficou amassada e o pneu esvaziou.

Carros desvia de buracos no asfalto da ES 010, na Serra
Carros desvia de buracos no asfalto da ES 010, na Serra
Foto: Vitor Jubini

Mas Jaislan não está sozinho na reclamação. A cuidadora de idosos Camila de Souza Ribeiro aponta problemas também na ES 010, na Serra. “Está tenso. E quando chove é ainda pior porque você não sabe o tamanho do buraco. Ferra a suspensão toda do carro. Mas sabe o que me revolta? A gente paga imposto, recebe multa, e quando reclama, não fazem nada. Sem contar os gastos que temos, como com os pneus”, desabafa.

Em um rápido passeio pela Grande Vitória, não é difícil se deparar com o problema também em outros pontos. Na Avenida Norte-Sul, em Vitória; na Rua Inácio Higino, na Praia da Costa, Vila Velha; na Avenida Abdo Saad, na Serra; na BR 262, em Cariacica, somente para citar alguns trechos.

Para o caminhoneiro José Nascimento, as operações tapa-buracos não são eficazes. “Eles jogam areia, um material por cima só para enganar. Daqui dois, três dias, tem buraco de novo”, observou.

GASTOS

Na Serra, a prefeitura tem um contrato anual para fechar buracos no valor de R$ 2,9 milhões, e a média mensal de gastos, nos últimos quatro meses, foi de R$ 220 mil. Mas a estimativa é que, em dezembro, o valor aumente acompanhando a previsão de maior volume de chuvas.

Ao passar pela Reta do Aeroporto, Jaislan da Silva por pouco não se acidentou.  "Era um buraco de uns  15 centímetros de profundidade. Passei por cima  e acabou danificando a roda. Corri o risco de tomar um tombo com a moto."
Ao passar pela Reta do Aeroporto, Jaislan da Silva por pouco não se acidentou. "Era um buraco de uns 15 centímetros de profundidade. Passei por cima e acabou danificando a roda. Corri o risco de tomar um tombo com a moto."
Foto: Caique Verli

Em Vila Velha, o contrato atual é de R$ 3 milhões, porém deve chegar a R$ 4,4 milhões em 2018 para ampliar o atendimento. Em Cariacica, os gastos previstos são de R$ 2,5 milhões, enquanto em Vitória são de R$ 2,3 milhões.

Nas rodovias federais, a previsão apenas para a BR 262 é de R$ 17 milhões, segundo o Dnit, e nas estaduais, R$ 26 milhões para todas as regiões do Espírito Santo, conforme dados do DER. Para os trechos rodoviários, os contratos incluem outros tipos de manutenção e conserva, como capina nos acostamentos.

Com informações de Caíque Verli e Katilaine Chagas

Demora na manutenção ajuda a formar crateras no asfalto

Crateras e buracos em meio às estradas são um sinal não só de que o asfalto foi malfeito, como também de que o trecho não recebeu a manutenção no tempo devido. O alerta é feito pelo engenheiro civil e professor da Universidade de Brasília (UnB), Dickran Berberian, que assim como outros especialistas em pavimentação, reforça a importância de investimentos em bons projetos e materiais para a garantia de estruturas resistentes à ação da água e ao peso dos veículos.

“O primeiro indicador da necessidade de manutenção é o trincamento. Se ele não for consertado, a água penetrará e danificará as bases. Na próxima chuva, vai se formar uma panelinha, que vai ficar cada vez mais craquelada até formar uma cratera e destruir o asfalto”, explica Dickran.

Segundo o engenheiro, as etapas do asfalto – denominadas subleito, sub-base e base – garantem a durabilidade da obra e quanto mais bem compactado o solo estiver, melhor. Tudo isso deve ser definido no projeto inicial da estrutura, mas o processo esbarra em problemas administrativos. “Não faltam bons projetistas e materiais. O problema é o superfaturamento de obras. A primeira coisa que empreiteiras ruins fazem é subornar o fiscal e usar material inferior e espessuras mal compactadas”, afirma Dickran.

Na Reta do Aeroporto, asfalto cedeu formando cratera e várias trincas, que podem se tornar novos buracos
Na Reta do Aeroporto, asfalto cedeu formando cratera e várias trincas, que podem se tornar novos buracos
Foto: Carlos Alberto Silva

Para a professora de Engenharia Civil da Ufes e doutora em Pavimentação, Jamilla Teixeira, em muitas ruas ainda falta um projeto de drenagem associado ao do pavimento. “O pavimento não suporta umidade excessiva. Essa água tem que ser escoada por um sistema de drenagem. Se isso não funciona, ele vai ficar molhado por mais tempo do que suportaria”, justifica.

Jamilla defende que o serviço de tapa-buracos é importante para a segurança de quem trafega, mas ressalta: “Mesmo um tapa-buracos é um serviço que tem critérios de execução e de materiais. Precisamos ficar espertos e fiscalizar se os critérios são seguidos”.

Já o professor de Engenharia de Tráfego da Universidade Mackenzie, Luiz Vicente Figueira de Mello Filho, pontua que o recapeamento de vias só é válido até certo ponto.

“Quando há uma cratera, há um indicativo de problemas de drenagem por baixo da massa asfáltica, que é de grandes proporções. Se um buraco surge todo ano no mesmo local, é preciso que haja uma intervenção definitiva porque o recapeamento são suportará o calor, a chuva e o fluxo de veículos pesados. Uma intervenção maior, com mais recursos seria necessária.”

Prefeituras culpam malha antiga e tráfego pesado

Asfalto antigo, serviços mal executados, tráfego pesado. Os municípios têm alegações diversas para justificar os buracos que aparecem com frequência em suas ruas e avenidas.

“Temos uma malha viária antiga e subsolo arenoso, o que torna a compactação mais difícil. Para que a empresa faça a compactação perfeita, às vezes é necessário pressionar um pouco mais e pode abrir alguma fenda, ou seja, um buraco no futuro”, explicou Luciano Machado, assessor técnico da Secretaria de Infraestrutura, Projetos e Obras de Vila Velha.

Em Cariacica, o secretário de Infraestrutura, Bruno Polez, reconhece que a operação tapa-buracos é um paliativo, especialmente nas vias com asfalto mais antigo. Ele afirmou que existe um processo de recapeamento de ruas e avenidas, mas que depende de captação de recursos para executá-lo.

O secretário da Central de Serviços de Vitória, Leonardo Gonçalves, contou que um problema enfrentado no município é resultado de obras malfeitas por concessionárias de serviços – gás, telefonia – que precisam cortar o asfalto para realizar seu trabalho e depois não fazem a cobertura corretamente.

“Temos fiscalização para esse tipo de serviço, mas vamos intensificá-la e cobrar mais qualidade.”

SERRA

A assessoria da Prefeitura da Serra informou que o asfaltamento é feito seguindo todas as normas exigidas, mas a cidade tem tráfego pesado de caminhões e é cortada por estradas federal e estaduais.

O Dnit e o DER ressaltaram que estão investindo, além de tapa-buracos, em reabilitação de vias. O DER, por exemplo, está com projeto para recuperar a Avenida Abdo Saad, na Serra.

 

 

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