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Cientistas usam focas para monitorar oceano Antártico

Ação dos mamíferos pode trazer respostas sobre aumento do nível do mar a nível global

Animais foram equipados com aparelhos na cabeça
Animais foram equipados com aparelhos na cabeça
Foto: Lars Boehme (SMRU)

Um grupo de focas que vive na costa da Antártica Ocidental tem munido cientistas com dados que podem ajudar a melhorar estimativas sobre o futuro do aumento do nível do mar.

Os pesquisadores equiparam os mamíferos rechonchudos com sensores que medem a temperatura e a salinidade do mar de Amundsen. De acordo com os cientistas, essa parte remota e pouco estudada do oceano pode estar acelerando o derretimento da camada de gelo da Antártica Ocidental, de modo que informações ao longo do ano sobre as condições da água são chave para prever qual contribuição dessa camada para o aumento do nível dos oceanos.

O estudo, publicado em 14 de maio na revista "Geophysical Research Letters", revela que a corrente conhecida como Águas Profundas Circumpolares (CDW, na sigla em inglês) é maior, mais quente e mais salgada nos meses de inverno que nos de verão.

A corrente é como uma rosca quente e salgada de água que circunda a Antártica em uma profundidade de 500 a 1.000 metros. No mar de Amudsen, acredita-se que essa faixa de água quente esteja acelerando o derretimento da camada de gelo da Antártica Ocidental, que caso derreta por completo pode elevar o nível do mar em até 3,2 metros.

O Mar de Amundsen abriga duas das maiores geleiras e que apresentam recuo mais rápido: Thwaites e Pine Island. As duas juntas depositariam cerca de 40% da camada de gelo da Antártica Ocidental nas águas dos oceanos. O último estudo fornece os primeiros dados detalhados sobre o impacto da corrente CDW nesta região.

— Nessas regiões muito remotas, muitas vezes temos apenas um 'frame' de como são as condições. Esta é uma das primeiras vezes que começamos a ter uma fotografia mais ampla que mostra a variabilidade deste sistema — diz Andrew Thompson, oceanógrafo físico do Instituto de Tecnologia da Califórnia em Pasadena.

COLABORADORES SELVAGENS

Apesar da influência do Mar de Amundsen na camada de gelo da Antártica Ocidental, os estudos da região foram prejudicados pelo ambiente inóspito do continente. Os pesquisadores podem reunir apenas informações limitadas durante o ano por meio de instrumentos fixados no fundo do mar, como âncoras, ou realizar experimentos mais complexos durante o verão, quando o gelo do mar é fino o suficiente para que os navios possam atravessá-lo.

Os dados irregulares tornam mais difícil a missão de determinar se a corrente CDW no Mar de Amundsen era maior e mais quente em certas épocas do ano. Para preencher essa lacuna, pesquisadores da Universidade de East Anglia, em Norwich, no Reino Unido, e da Universidade de Estocolmo, na Suécia, se uniram à Unidade de Pesquisa de Mamíferos Marinhos da Universidade de St Andrews, no Reino Unido. A equipe colou sensores nas cabeças de sete elefantes marinhos do sul (Mirounga leonina) e de sete focas-de-weddell (Leptonychotes weddellii) para monitorar uma área de 150 mil quilômetros quadrados por 9 meses, incluindo o inverno rigoroso. Nesse tempo, as focas registraram mais de 10 mil medições distintas. As duas décadas anteriores de pesquisa com âncoras e instrumentos baseados em navios produziram 2 mil.

— As focas são os assistentes perfeitos para coletar esses dados. Elas estão lá o ano todo, e podem ficar em lugares com tempo péssimo onde navios não podem estar —, diz Helen Mallett, oceanógrafa física da Universidade de East Anglia, e autora do estudo.

Os novos dados podem ajudar a aprimorar a precisão dos modelos climáticos que tentam projetar a velocidade com que a camada de gelo da Antártica Ocidental vai derreter.

— O objetivo é entender como o Oceano Antártico interage com as plataformas de gelo e contribui com o aumento do nível do mar — diz Yoshihiro Nakayama, do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, em Pasadena. — O maior problema é que não temos dados suficientes.

No mês passado, o Conselho de Pesquisa Ambiental da Grã-Bretanha e a Fundação Nacional de Ciências dos EUA anunciaram a Colaboração Internacional da Geleira Thwaites, um projeto de cinco anos e 20 milhões de libras (US$ 25 milhões) para estudar a geleira. A colaboração enviará os pesquisadores volta ao Mar de Amundsen em 2019 para ampliar os dados com outro grupo de focas "experts" em tecnologia.

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