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Quebradores de pedra trabalham em condições insalubres no Estado

Debaixo de muita poeira e ao som de marretas batendo em ferramentas de metal, trabalhadore atuam em situação degradante

Foto: arte

O trabalho é pesado, perigoso e insalubre. Começa cedo, por volta das 5h30, e só termina quando o sol se põe. Debaixo de muita poeira e ao som de marretas batendo em ferramentas de metal, os quebradores de pedra trabalham em situação degradante, muitas vezes coagidos e vigiados, em áreas clandestinas de beneficiamento espalhadas ao longo de toda a cadeia do mármore e granito. Neste quarto dia de série “Dor e Morte no Caminho das Pedras”, entramos no submundo das rochas e encontramos uma atividade que vive de restos. Os blocos de pedra que a indústria descarta é transformado manualmente para virar produtos de jardinagem e ornamentação. É a outra ponta do setor que responde por 10% do PIB capixaba, mas que é responsável por um acidente de trabalho a cada 24 horas e 1 morte a cada 40 dias.

Quebradores de pedra trabalham em condições insalubres, sem equipamentos ou carteira assinada
Quebradores de pedra trabalham em condições insalubres, sem equipamentos ou carteira assinada
Foto: Marcelo Prest

O mercado clandestino funciona assim: pequenas empresas de extração e marmorarias contatam grupos de trabalhadores, ao longo da cadeia produtiva, e cobram deles o valor de frete e até R$ 100 por cada pedaço de pedra defeituosa ou com pouco valor de mercado. Assim, se livram dos resíduos e, de quebra, ainda lucram com o material que deveria ser descartado corretamente. Cerca 50% do lucro dos cavouqueiros volta para as empresas e atravessadores, que se abstém de qualquer responsabilidade trabalhista. Por todo o Estado, flagramos áreas de processamento onde dezenas de pessoas atuam sem carteira assinada, não recebem qualquer tipo de equipamento de proteção e dormem em barracas de tapumes escondidas no meio do mato. Há casos de homens trazidos de outros Estados, como Minas Gerais e Bahia, e que já chegam devendo.

Em três municípios (Serra, Cachoeiro de Itapemirim e Nova Venécia), conseguimos entrar nessas zonas irregulares e entrevistar os trabalhadores, também chamados de cavouqueiros. André Carvalho, de 35 anos, e Ernandes Alves, 38, saíram de Guaratinga, Bahia, com a esperança de conseguir emprego formal no Estado. Ao chegar, há cerca de 10 anos, a realidade encontrada foi outra e desde então atuam na informalidade, quebrando blocos de pedra às margens da BR 101, na Serra. A área fica a menos de 1 quilômetro do posto da Polícia Rodoviária Federal (PRF), não tem banheiro, nem refeitório, e os trabalhadores descansam no chão de terra, em uma barraca de tapume e eternit construída por eles próprios. Também bebem água sem tratamento, em canecas recicladas.As pedras chegam em carretas ou nos chamados caminhões muque e são descarregadas numa área do tamanho de um campo de futebol. É um verdadeiro processo industrial, mas que tem na linha de frente trabalhadores sem qualquer tipo de proteção para as mãos ou vistas. As lascas de pedra voam e entram nos olhos.

Local onde trabalhadores descansam e fazem as refeições, na Serra
Local onde trabalhadores descansam e fazem as refeições, na Serra
Foto: Marcelo Prest

Com a presença da reportagem, um homem que se apresenta como Baiano foi chamado rapidamente pelos “funcionários”. Disse que os trabalhadores eram autônomos, depois prestadores de serviços.Por fim, afirmou que aquela era uma atividade “artesanal”.“Eles só sabem fazer isso mesmo, não têm estudo. Nenhum deles têm profissão. Aqui dá pelo menos para comer”, justifica. Baiano conta que também já foi cavouqueiro, mas agora toma conta dos trabalhadores como se fosse um encarregado, a mando de um suposto dono da área. “Aqui é por produção. Trabalham a hora que querem, param a hora que querem. Se está quente vão para a sombra. É a liberdade deles. Não tem patrão. Patrão é nós mesmos”. Longe do “patrão”, os trabalhadores revelam que, mesmo debaixo de chuva, não podem parar de cortar pedra se quiserem receber cerca de R$ 600 no fim da quinzena. Ninguém tem carteira assinada, e a cena se repete em várias regiões rurais do Estado.

No meio do mato

Às margens da rodovia que liga Nova Venécia a São Gabriel da Palha, no Noroeste capixaba, oito trabalhadores atuam em uma área improvisada, sem água limpa ou qualquer espaço para fazer as refeições. O forno de barro usado para amolar as ferramentas é o mesmo que cozinha a comida. Não existe banheiro, e os trabalhadores precisam fazer as necessidades básicas no meio do mato. A higiene pessoal também é feita com folhas de plantas, por falta de papel higiênico. Ninguém tem carteira assinada. Uma barraca de palha, no chão de barro, escondida no matagal, serve para abrigar os cavouqueiros. São por volta de 15 horas de uma quarta-feira (7) de dezembro de 2016. A chuva começa a cair, mas os trabalhadores continuam quebrando pedra mesmo debaixo d'água, pois não podem perder um minuto de serviço. Mas a chuva aperta mais, e de repente todos vão para debaixo da barraca. É a oportunidade também para preparar um café e dar um tempo no barulho estridente que incomoda os ouvidos. Todos tentam se acomodar no local imprensado, mas o teto de palha não consegue segurar a goteiras e rapidamente todos ficam molhados. É nessa hora que nossa equipe aproveita para colher algumas histórias. Os trabalhadores reclamam que já começam o dia de trabalho devendo. Se não produzir, não conseguem pagar as pedras que compram das marmorarias, nem o frete dos caminhões.

Abrigo de um grupo de cavouqueiros que atua em Nova Venécia, no Noroeste do Estado.  O grupo "presta serviços" para marmorarias da região
Abrigo de um grupo de cavouqueiros que atua em Nova Venécia, no Noroeste do Estado. O grupo "presta serviços" para marmorarias da região
Foto: Marcelo Prest

No mesmo local onde as pedras são talhadas, o material é vendido para mansões de bairros nobres da Grande Vitória,Rio de Janeiro e Bahia, ou para empresas de jardinagem. Como não recebem equipamentos de proteção individual (os EPIs), muito menos orientação sobre segurança do trabalho, os acidentes são frequentes nesses locais.

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Para fazer as necessidades básicas, precisam se agachar em um chão de pedras, entre uma barraca de palha e um barranco. O ambiente é insalubre e perigoso e o trabalho parece ser, literalmente, da ‘idade da pedra’ - como brincam alguns trabalhadores. O barulho agudo das talhadeiras provoca surdez crônica e as pedras que voam nos olhos sem proteção são deixam trabalhadores cegos e deficientes.

Marcelo Prest

Rochas de 300 a 400 quilos são levantadas no braço e talhadas de forma primária. Os ponteiros são afiados em lareiras artesanais, onde os trabalhadores também cozinham a própria comida. Sem carteira de trabalho, não recebem qualquer direito quando se afastam por causa dos acidentes, que são frequentes. Em alguns locais, o trabalho e vigiado de perto pelo dono do negócio, geralmente alguma pessoa de confiança do dono da pedreira ou marmoraria. Longe do olhar do vigilante, trabalhadores reclamam de punição e assédio moral. “Se demorar um pouco no almoço chama a nossa atenção”, diz um trabalhador que se acidentou mais de 10 vezes em 2016. “Quando fere a vista tem que continuar trabalhando. Se não trabalhar não recebe”, completa.

Foto: Marcelo Prest

Reginaldo sofreu ameaças de morte após fazer denúncia

Ameaçados de Morte

Quando o Sindimármore (sindicato que representa os trabalhadores formais do setor) flagra atividades degradantes e precárias nas pedreiras e empresas de beneficiamento, a denúncia à polícia e órgãos de fiscalização é imediata, o que faz diversos representantes de trabalhadores se dizerem vítimas de pressão e ameaças. Alguns casos já são de conhecimento da polícia.“Temos mais de mil processos na vara do trabalho. Algumas ações são milionárias, o que também resulta em ameaças. Isso nos desmotiva”, afirma o diretor regional do Sindimármore em Nova Venécia, Reginaldo Célia, que também já foi vítima de ameaças. “Um proprietário de uma empresa me ofereceu dinheiro para eu abandonar uma causa referente a risco de soterramento de trabalhador. Como não cedi, ele disse que ia enfiar um tiro na minha cara. Disse que sabia onde eu pedalava de bicicleta e que sabia onde meu filho morava. Senti uma pressão enorme e medo de minha família sofrer um atentado. Fiquei um ano sem pedalar, em clima de muito medo, achando que a qualquer momento um carro ia passar em cima de mim”.

Em outro caso, por dois meses, o Sindimármore precisou contratar seguranças particulares para escoltar seus advogados que atuavam em causas trabalhistas. Segundo o sindicato, o setor de mármore e granito tem mais de 20 mil trabalhadores diretos, 8 mil são sindicalizados. “Tem trabalhador que sai de casa sem saber que horas volta, só sai de lá quando a empresa quer. Aí, quando a gente denuncia, começa a pressão”, lamenta Reginaldo.

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