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Endividados perdem uma hora de trabalho por dia resolvendo pendências

Devido às dívidas, não só a vida pessoal, mas também o desempenho profissional passa a ser radicalmente afetado

Endividados perdem 1 hora de trabalho
Endividados perdem 1 hora de trabalho
Foto: Inforgrafia /Marcelo Franco

Quando as cobranças começam a chegar, a cabeça fica atordoada, procurando uma forma rápida de se livrar das dívidas. No Brasil, mais de 50 milhões de pessoas estão nessa situação, com os CPFs negativados.

Isso significa que um em cada quatro brasileiros está inadimplente e deixou de pagar pelo menos uma de suas contas, conforme aponta levantamento do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL).

Devido às dívidas e restrições comerciais ou de crédito, não só a vida pessoal, mas também o desempenho profissional passa a ser radicalmente afetado.

Um levantamento realizado pela Blue Numbers, consultoria empresarial de pequenas e médias empresas, revela que profissionais endividados chegam a perder até 1 hora por dia no telefone ou enviando e respondendo e-mails na tentativa de resolver esses problemas.

Ou seja, considerando profissionais com jornada diária de oito horas, as empresas arcam com 12,5% a menos de tempo útil de trabalho, além da qualidade inferior na execução das atividades das outras horas trabalhadas.

Para os especialistas em gestão de empresas, uma pessoa angustiada por não conseguir pagar uma conta, com crédito bloqueado no banco e cheques sendo devolvidos, perde muito em produtividade. Sem contar as cobranças, por telefone ou presenciais, que acabam tomando o tempo precioso e levando os profissionais a resolverem esses problemas em dia útil e horário comercial.

Seja faltando no serviço, seja pensando o dia todo e tentando administrar tudo isso, a produtividade do profissional cai, “e muito”, explica Márcio Iavelberg, sócio-diretor da Blue Numbers. “Quando a empresa é mais rígida com acesso a telefone e internet, a pessoa acaba usando o tempo de almoço para escapar e no banco, por exemplo, debilitando o corpo e a mente para o trabalho do turno vespertino”, destaca.

Agravamento

Com o agravamento da crise econômica no país, acentuada principalmente nos últimos três anos, os problemas relacionados à queda da produtividade no trabalho têm se tornado mais evidentes, apontam os especialistas.

Estatísticas do Banco Central sinalizam que, nos últimos cinco anos, o número de brasileiros com dívidas superiores a R$ 5 mil passou de 10 milhões para 23 milhões. “Nesse grupo de negativados, temos tanto pessoas desempregadas quanto ainda em atividade”, reforça Márcio.

Um levantamento da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Espírito Santo (Fecomércio) revela que, apenas em Vitória, cerca de 36 mil famílias têm contas em atraso.

A inadimplência registrou em março o maior nível de toda a série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), iniciada em 2010, atingindo 41,2% das famílias da Capital que tinham dívidas. Em todo o território capixaba, 637.967 mil pessoas estão em situação de inadimplência, segundo dados da CDL Vitória.

 O cartão de crédito e o cheque especial estão entre os principais comprometimentos das pessoas com dívidas no Estado, afirma José Lino Sepulcri, presidente da  Fecomércio
O cartão de crédito e o cheque especial estão entre os principais comprometimentos das pessoas com dívidas no Estado, afirma José Lino Sepulcri, presidente da Fecomércio
Foto: Marcelo Prest

Para o presidente da Fecomércio-ES, José Lino Sepulcri, a perspectiva negativa das famílias em relação à capacidade de pagamento está relacionada à conjuntura desfavorável de juros elevados, além da queda da renda. “Sem planejamento e diante de juros tão altos, as dívidas aumentam rapidamente, principalmente quando as pessoas recorrem ao cartão de crédito e ao cheque especial”.

Misturar vida profissional com a pessoal pode ameaçar o emprego

As empresas de pequeno a grande porte já aprenderam que o profissional com menos problemas pessoais tende a render mais no trabalho. Mas, quando a pertubação é o alto grau de endividamento, o que fazer para não afetar as funções no trabalho?

Especialistas ouvidos por A GAZETA garantem que já há soluções pontuais para esses casos. De acordo com Thais Varejão Fagundes Barcelos, psicóloga clínica da Verthag Psicologia, é importante o profissional criar um cronograma, uma rotina de trabalho com todas as tarefas do dia a serem realizadas.

“Assim não deixa que os pensamentos preocupantes venham à mente, mantendo sempre o foco no que está sendo realizado”.

Márcio Iavelberg, sócio-diretor da Blue Numbers, aponta que é essencial desenvolver ações continuadas e preventivas, já que a vida financeira e as decisões de compra envolvem questões emocionais, sensação de poder, estilo de vida e mudanças de hábitos e de modelos mentais.

“Por outro lado, o funcionário precisa administrar suas próprias finanças, fora do ambiente profissional, para não perder o emprego”.

A psicóloga da Verthag ainda alerta que a pessoa endividada precisa criar um mecanismo para aprender a separar o trabalho do lado pessoal.

“Esse mecanismo consiste principalmente em evitar, no local de trabalho, e-mail pessoal, pois assim não se tem contato direto com o problema, no caso as cobranças”.

Planejamento

Uma pesquisa da Associação Americana de Psicólogos revela que o quesito dinheiro é apontado por 69% dos entrevistados como principal fonte de estresse.

Por isso, para tornar o trabalho mais produtivo, é fundamental que a pessoa crie o hábito de fazer em casa seus planejamentos financeiros e conversar sobre o problema, orienta Thais.

“Mas o mais importante ainda é ela criar um horário para ela, para o lazer, onde ela possa acalmar a mente, para não pensar no problema, e se ocupar com coisas que a agradam. Pedalar, caminhar, visitar um amigo que goste muito, se divertir. Tudo isso ajuda”, completa a psicóloga.

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