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Mercado de trabalho ainda discrimina os negros

Números revelam desigualdade e preconceito no ambiente profissional

Dâmaris Lorenzoni investiu em qualificação e  se destacou como engenheira
Dâmaris Lorenzoni investiu em qualificação e se destacou como engenheira
Foto: Ricardo Medeiros

Quase 129 anos depois da abolição da escravatura, o mercado de trabalho brasileiro ainda é marcado pela cor do preconceito. A segregação no ambiente profissional persiste, revelando que estamos longe de ter um país igual. Essa discriminação, velada, apresenta-se em forma de remunerações menores e de cargos sem status de liderança para a população negra.

Uma pequena amostra da manutenção dessas barreiras étnicas no ambiente profissional é o baixo índice de negros no comando das grandes companhias do país. Apesar de 55% da população brasileira ser afrodescendente, no quadro de executivos das 500 maiores corporações do Brasil, apenas 4,7% é ocupado por esse público, segundo pesquisa realizada pelo Instituto Ethos, organização que estimula negócios socialmente sustentáveis.

O abismo racial também fica evidente ao analisar os dados salariais. Mesmo com os avanços nos últimos anos, o homem negro, no Espírito Santo, recebe apenas 64% do salário do branco, segundo dados calculados pelo Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), a partir dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE.

O cenário é ainda pior para a mulher afrodescendente. Os vencimentos dela chegam a representar apenas 50% do que recebe o homem branco. “A discrepância tem se reduzido ao longo dos anos. Em 2003, o salário dessa mulher era apenas 38% do que a renda do homem branco. Mas podemos dizer que os desafios continuam”, explica a diretora de Estudos e Pesquisas do IJSN, Ana Carolina Giuberti.

Investigações

O problema desperta a atenção das autoridades. No Espírito Santo, entre janeiro de 2016 a abril deste ano, o Ministério Público do Trabalho (MPT) recebeu 87 denúncias de discriminação envolvendo questões raciais, de gênero, orientação sexual, entre outros casos. As queixas resultaram em 35 inquéritos civis, duas ações civis públicas e um termo de ajustamento de conduta foi fechado.

Para combater situações como essas, principalmente a racial, a Coordigualdade, grupo do MPT nacional que atua para eliminar a discriminação no trabalho, tem usado mecanismos para avaliar os salários e os cargos disponibilizados aos negros dentro das empresas. “Se na sociedade temos quase 60% de população negra, o correto seria ter o mesmo percentual de negros nas empresas”, explica o coordenador nacional do Coordigualdade, o procurador do Trabalho Sandoval Alves da Silva.

A mudança desse retrato, na visão dele, depende da construção de políticas públicas. “O país têm um débito histórico com o negro. A saída é investir em ferramentas para dar as mesmas condições aos afrodescendentes de competirem em pé de igualdade.”

A integrante do Coletivo Negrada, Eliane Quintiliano Nascimento, também defende a necessidade de medidas que visem o fim do racismo. “Enquanto ele for mascarado, vai ser reproduzido em várias esferas e, consequentemente, nessa relação de trabalho.”

Para o trabalhador negro, abrir caminhos profissionais requer um esforço além do que é exigido do branco. A consultora de negócios Dâmaris Lorenzoni diz não ter sofrido, no ambiente de trabalho, preconceito. O pai dela a preparou desde a infância para ser única. “Eu estudei inglês e programação de computadores quando era criança, numa época que só adultos faziam esses cursos. Meu pai não me deixava ociosa nas férias. Eu sempre fazia alguma qualificação. Ele dizia que os negros precisavam ser melhores que os brancos para serem iguais.”

Dâmaris fez faculdade, mestrado e doutorado fora do país. Ela foi a primeira mulher e negra a ocupar um cargo de engenheira na antiga Aracruz Celulose, hoje Fibria, e assumiu uma função de pesquisadora numa empresa dos Estados Unidos. “Nunca fui vítima de preconceito porque o que chegava nas empresas era o meu currículo. Não minha foto. Na vida, no entanto, já sofri várias vezes com racismo. Quando viajava uma vez de avião, o comissário de bordo disse que ia me ensinar os procedimentos, porque seria a minha primeira vez num voo. Ele não sabia que eu já havia visitado mais de 40 países”.

“Há empresa que não quer associar imagem a negros”

“Ainda existem muitas empresas que, especialmente para cargos de liderança, não contratam negros, uma vez que não querem que a imagem da companhia seja associada a negros”. A constatação é absurda, mas, segundo a especialista em pessoas e diretora da Curry Coaching, Gisélia Curry, essa visão ainda está presente no mercado de trabalho.

Ela observa que o preconceito se dá de forma velada e lembra que por oito anos, quando atuou como headhunter de grandes corporações, raríssimos foram os cargos de liderança em que negros foram os escolhidos pelos gestores das empresas.

“Mas foi somente uma vez que deixaram claro que não queriam um negro para a vaga. Tratava-se de uma multinacional mexicana e que o dono era preconceituoso”, relata ao comentar que no meio corporativo essa seletividade por cor vem perdendo força.

A psicóloga e diretora da Center RH, Eliana Machado, reforça que o comportamento das empresas na seleção dos candidatos mudou muito nos últimos 10 anos e que a escolha pela raça ou sexo deixou de ser pré-requisito. “O preconceito não acabou. Mas as empresas têm outro olhar. Até porque sabem que as pessoas estão mais mobilizadas e conhecem seus direitos.”

Tratamento

A integrante do Coletivo Negrada, Eliane Quintiliano Nascimento, também avalia que o racismo vem reduzindo nos últimos anos. Mas frisa que as diferenças no tratamento entre brancos e negros continuam existindo.

“A luta do movimento negro e o aumento das oportunidades, como com a qualificação profissional, têm ajudado na inserção dos negros no mercado de trabalho. Mas sabemos que ainda são exceções os profissionais que ocupam cargos mais altos nas empresas. Se considerarmos mulheres negras, aí é mais raro ainda”, lamenta.

Eliane relata que em muitos casos, quando afrodescendentes se destacam profissionalmente, eles são confundidos com trabalhadores que tem funções inferiores.

“No Brasil, o racismo é dissimulado. E é recorrente o uso de frases depreciativas, como: ‘Você nem tem cara de ser o chefe’. A pessoa até tenta dar uma conotação de brincadeira, mas o preconceito está aí embutido”, alerta Eliane, que demonstra ainda a preocupação dos negros perderem mais espaço com as recentes mudanças nas regras trabalhistas.

“Muitos duvidam da qualificação só pela cor”

Ejandir  Martins enfrentou desafios no mercado
Ejandir Martins enfrentou desafios no mercado
Foto: Arquivo Pessoal

Filho de família humilde, Ejandir Elias Martins, 53 anos, disse que a jornada profissional teve vários desafios. O ensino superior foi financiado pelo próprio bolso. “Eu trabalhava para pagar a faculdade. Meus pais não tinham condições de ajudar”.

Na infância e na adolescência, a dedicação aos estudos e ao esporte fez com que ele conseguisse acesso às melhores escolas. “Ganhei várias bolsas de estudo. Isso me ajudou a ser o profissional que sou hoje”.

Ejandir, que atua como advogado, também se formou em Ciências Contábeis antes de entrar para o Direito. Foi bancário e, com a remuneração dessa atividade, pagou o segundo curso superior e se especializou fora do país.

No entanto, mesmo com tanta capacitação percebe que o mercado de trabalho ainda reflete preconceito em diversas esferas. “Muitos acreditam que você, por ser negro, não tem a mesma qualificação que um advogado branco. Isso é um desafio a ser vencido”, desabafa ao acrescentar ainda que em diversos lugares, não só no ambiente profissional, o negro sofre com a discriminação. “A gente percebe como em alguns lugares o branco é tratado de uma forma melhor do que o negro”, critica.

Ela conseguiu, mas é uma exceção

Rosely Gomes Falcão diz que, ao longo da minha carreira, nunca passou por situações de  discriminação
Rosely Gomes Falcão diz que, ao longo da minha carreira, nunca passou por situações de discriminação
Foto: Carlos Alberto Silva

Olhares que julgam, indiretas desrespeitosas e desconfiança da capacidade. Apesar de muitos negros já terem passado por situações como essas, Rosely Gomes Falcão Paulo garante que elas nunca fizeram parte do seu dia a dia de trabalho. “Ao longo da minha carreira, nunca percebi discriminações. Mas se alguém teve essa intenção, quebrou a cara”, relata orgulhosa a bióloga por formação, mas que há quase 30 anos atua no segmento bancário.

E não é só no tratamento, sem preconceitos, que recebeu de colegas de trabalho, chefes e clientes que ela é uma exceção. A posição que Rosely conquistou e está atualmente também foge à regra de profissionais negros no país. Hoje, ela ocupa um cargo de destaque no Banestes. É gerente-geral da agência de Cobilândia, em Vila Velha, o que a coloca entre os apenas 6,3% dos profissionais negros brasileiros que fazem parte desse escalão de gerência, conforme pesquisa do Ethos.

Rosely, que tem sob seu comando cerca de 30 trabalhadores, frisa que o que deve imperar no ambiente profissional é a capacidade. “Tem muita gente que gostaria de estar no meu lugar. Então, tenho que fazer jus ao posto que conquistei. Sempre busquei fazer o melhor no meu trabalho. Outras questões como cor, gênero ou algum tipo de deficiência jamais devem prevalecer.”

A determinação de Rosely pode ser reconhecida em vários momentos, mas um que ela ressalta é quando fez concurso para gerente, em 2001. “Passei e precisava realizar mais uma etapa do processo. Mas tinha acabado de ganhar neném. Como não queria perder a oportunidade, levei o bebê que tinha 11 dias e um berço para o local. Deu tudo certo!”.

"Achavam que eu era secretária do meu sócio"

"Os desafios que tive para crescer foram muitos. Sempre tive a sensação de que precisava me esforçar mais que o normal, diz Ana Paula Tongo
"Os desafios que tive para crescer foram muitos. Sempre tive a sensação de que precisava me esforçar mais que o normal, diz Ana Paula Tongo
Foto: Divulgação

Capixaba, mulher, negra e empreendedora. Ana Paula Tongo começou a trabalhar com 12 anos vendendo cocada durante o verão. Estudou em escolas públicas na infância e na adolescência. Viu o preconceito com sua raça e gênero de perto e encontrou formas de contornar a discriminação, apostando no trabalho e na inovação.

Hoje, Ana Paula é secretária adjunta na Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres, do Ministério da Justiça e Cidadania. Para ela, a desigualdade no mercado de trabalho e no ambiente de negócios depende de ações de empoderamento com recorte de gênero e etnias. “Precisamos analisar todo o contexto histórico em que vivemos. Não há uma fórmula mágica, contudo, técnicas de gestão nos ajudam muito nisso. Acredito que podemos avançar mais e melhorar o nosso grau de maturidade para todos sermos vistos de forma mais igual, em termos de gênero e raça.”

Quais foram os desafios na sua jornada profissional?

Os desafios que tive para crescer foram muitos. Sempre tive a sensação de que precisava me esforçar mais que o normal. Abri mão de finais de semana, passei muitas noites sem dormir para estudar e alcançar os objetivos que eu queria. Tive que batalhar muito para alcançá-los. Teve um período em que eu estudava além do normal para recuperar informações às quais não tive acesso.

Você já sofreu preconceito por ser negra?

Quando era criança aconteceu de se referiram ao meu cabelo, como algo ruim, por ser crespo, e falavam do meu nariz, mais largo ou do tamanho da minha boca. Venho de uma geração que não tinha acessos a bonecas parecidas comigo e não via meninas parecidas comigo, como protagonistas na TV. Precisei ir construindo as referências e resgatando a minha identidade pra entender todo o contexto que vivia e vivo.

Sofreu preconceito por trabalhar com tecnologia?

Montei uma empresa de Tecnologia e Engenharia, com foco em Gerenciamento de Projetos, com meu irmão, há 15 anos. E esse mercado continua bastante desafiador. Enfrentamos problemas, traçamos diversas estratégias para contorná-los à medida que aconteciam. Demos um passo de cada vez. Precisei criar estratégias para ser ouvida pelos meus clientes e parceiros de negócios, no início da empresa, muitos achavam que eu era secretária do meu sócio. Levou bom tempo para as pessoas assimilarem que eu era dona do meu próprio negócio. Nas reuniões, me pediam para tomar notas e fazer a ata, mas eu fui me posicionando aos olhos deles, com delicadeza e cuidado.

Como avalia o preconceito com negros e mulheres e o que precisa ser feito para que haja realmente igualdade no mercado?

É sabido que, atualmente, uma mulher branca recebe, em média, 70% do salário de um homem branco no país, e que uma mulher negra recebe, em média, 40% do salário de um homem branco. É importante frisar isso, porque não é mimimi, nem posar de vítima, é fato.

Para reverter isso, é importante termos mais creches. Mulheres que são mães precisam ter certeza que seus filhos ficarão em segurança e que serão bem cuidados, enquanto trabalham. Essas trabalhadoras precisam de uma estrutura de cuidadores para lhes dar suporte, porque a tendência é, se alguém adoecer na família, a responsabilidade maior ficar com a mulher.

Também é recomendado a elas melhorar a divisão das tarefas domésticas, com os maridos e familiares, para evitar que fiquem sobrecarregadas, e que possam ter melhor qualidade de vida. Como a mulher vive fora do trabalho vai refletir diretamente no seu desempenho dentro do mercado de trabalho. É importante termos ações sistemáticas sincronizadas para que as mudanças aconteçam mais rápido. O fortalecimento de políticas públicas é um compromisso de toda sociedade. Essa é uma mobilização que deve envolver todos os cidadãos e o governo.

 

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