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De volta aos anos 80: produtividade do trabalho estagnada no país

Estudo aponta que a produtividade do trabalho no Brasil voltou para os patamares dos anos 1980, período que entrou para história como a "Década Perdida"

Empresa capixaba desenvolveu modelo de cegonha com capacidade para transportar mais veículos
Empresa capixaba desenvolveu modelo de cegonha com capacidade para transportar mais veículos
Foto: Divulgação

Os indicadores econômicos não têm sido nada favoráveis nos últimos três anos e reforçam a mais grave crise enfrentada na história do país. Mas para além dos retrocessos em dados como de: emprego, renda, endividamento, juros e investimentos, um outro índice, o da produtividade – pouco falado, mas essencial para o crescimento sustentado de uma nação – acende um sinal de alerta para o caminho percorrido pelo Brasil nas últimas décadas.

Estudo feito pelo Credit Suisse a partir da base de dados da entidade americana The Conference Board aponta que a produtividade do trabalho no Brasil voltou para os patamares dos anos 1980, período que entrou para história como a “Década Perdida”.

Hoje, cerca de 30 anos depois, vivemos uma situação que guarda semelhanças com os anos 80, como a desilusão com a política – principalmente na figura do então presidente José Sarney (1985-1990) –, uma recessão avassaladora, a falta de perspectivas para a retomada do crescimento e até mesmo a saída de pessoas do Brasil para o exterior em busca de uma vida melhor e um futuro mais próspero.

Alguns fantasmas desse período, como a hiperinflação e a ditadura, ficaram para trás, mas um fator determinante para a geração de riqueza de um país – a produtividade (relação entre o PIB e o total de empregados) – persiste acumulando resultados ruins três décadas depois.

Assim como na chamada “Década Perdida”, quando a produtividade caiu 2% ao ano, de 2011 para frente, esse indicador também foi negativo, com recuo anual de 1,1%. Situação diferente da registrada de 1991 a 2000, quando houve melhora de 1,6% na produtividade do trabalho, e de 2001 a 2010, quando o índice aumentou em 1,2% ao ano.

A preocupação em relação a esse retrocesso não é à toa, afinal para chegar aos números da produtividade são levados em consideração fatores como educação, infraestrutura, inovação, abertura de mercado, carga tributária e ambiente de negócios. Isso significa que em muitos desses pontos, se não em todos, o Brasil estagnou ou piorou.

Esse calo que impede o desenvolvimento do país fica ainda mais claro quando comparado com a produtividade do trabalho em nações desenvolvidas. Para se ter uma ideia, são necessários quatro profissionais brasileiros para atingir a mesma produtividade de um norte-americano.

Esse abismo em relação às economias mais avançadas vem se intensificando e deixando o Brasil mais próximo dos países menos produtivos, como o Peru e até a Venezuela.

“Aliás, a América Latina de uma forma geral sofre do mesmo mal que o Brasil. Temos a produtividade mais baixa de todas as regiões do mundo no século 21”, lamenta Paulo Paiva, professor da Fundação Dom Cabral, ao acrescentar que, no ranking mundial da produtividade, o Brasil saiu da 48ª posição, em 2006, para a 82ª em 2016.

Na visão dele, para o país ser capaz de retomar o fôlego da produtividade, é preciso superar questões ligadas à educação, inovação e ao ambiente de negócios.

Paiva frisa que se o Brasil não acordar agora para esse quesito, em um futuro próximo, a situação será ainda mais dramática. “Entre 2025 e 2030, o crescimento da população no Brasil vai ser zero, ou seja, o crescimento da economia terá que passar exclusivamente pelo aumento da produtividade. Isso é uma questão grave e certamente será o principal desafio da economia brasileira”, avalia.

O economista e professor dos MBAs da FGV Robson Gonçalves reforça que o crescimento econômico sustentável só acontece por meio da produtividade. “Se tiver crescimento sem produtividade, você pode ter certeza de que ou se está exaurindo recursos naturais ou o desenvolvimento está acontecendo a partir de um cenário artificial.”

Renda

O estudo do Credit Suisse traz também outros dados que caminham juntos com a produtividade, como a renda per capita e a taxa de emprego. O relatório explica que a elevada taxa de emprego das últimas décadas explica a alta do rendimento por habitante, de 0,7% ao ano, entre o período de 1981 e 2016.

“A renda per capita de um país pode ser decomposta em produtividade e taxa de ocupação. A produtividade do trabalho no Brasil está estagnada desde 1980, sendo que a alta da renda per capita nesse período foi explicada pelo aumento do número de pessoas empregadas. Essa contribuição da taxa de emprego diminuirá nos próximos anos, pois essa medida no Brasil é alta frente à de outros países. Assim, a alta da renda per capita no Brasil nas próximas décadas dependerá ainda mais da dinâmica da produtividade do trabalho”, diz a análise do banco.

Para melhorar essa dinâmica, o diretor de macroeconomia do Ipea, José Ronaldo Souza Júnior, cita que algumas preocupações existentes hoje devem ser superadas como: as baixas taxas de inovação, a infraestrutura inadequada e o baixo grau de abertura da economia brasileira.

 A empresa  Fortes Engenharia passou a apostar na utilização de mais equipamentos nas obras e na pré-moldagem de estruturas para produzir mais
A empresa Fortes Engenharia passou a apostar na utilização de mais equipamentos nas obras e na pré-moldagem de estruturas para produzir mais
Foto: Divulgação

Inovação

Mesmo que o quesito produtividade ainda esteja distante da realidade de muitas empresas, há aquelas que não abrem mão de buscar os melhores resultados neste indicador. O diretor de tecnologia e inovação do Grupo Águia Branca, Janc Lage, frisa que há mais de duas décadas a companhia investe na qualidade e na melhoria dos processos e aposta na inovação para sair na frente no mercado.

O executivo cita um exemplo de ganho na produtividade em um dos negócios do grupo, o de logística. Há cerca de cinco anos, os profissionais da empresa desenvolveram um caminhão cegonha com capacidade para transportar um carro a mais do que geralmente uma cegonha comporta. “Isso agregou 10% de melhoria nos processos e custos”, destaca Janc ao citar que o projeto foi inclusive patenteado e, que agora, o grupo vem desenvolvendo estudos de veículos autônomos.

Poder competitivo só com produtividade

Há uma década, a empresa capixaba Fortes Engenharia, fundada em 1986, passou a perseguir a produtividade como um dos pontos-chaves para o sucesso nos negócios. A aposta não foi em vão. Hoje, a companhia é uma das líderes de mercado no segmento de obras industriais e presta serviços para grandes corporações em todo o país.

O diretor comercial da Fortes, Ricardo Antonio Abrahão Netto, conta que para ter bons resultados, profissionais da empresa passaram a visitar obras e a participar de feiras mundo afora. A partir daí perceberam que era preciso investir mais na utilização de máquinas nos canteiros. “Essa já é uma realidade na Europa. Há pouco operário e muito equipamento.”

O exemplo observado no exterior foi adotado pela empresa, que chegou a reduzir seu quadro de mão de obra em 30% nos últimos seis anos. “Isso reduziu nossos custos e nos tornou mais competitivos. Afinal, a cada R$ 1 que pago para o operário, desembolso outros R$ 5 com custos indiretos como com transporte, alimentação e legislação trabalhista. Então, tudo isso faz com que o custo do profissional seja muito alto. Já com o equipamento você não paga isso”, observa Abrahão Netto.

Ricardo Abrahão diz que a inovação faz parte do negócio
Ricardo Abrahão diz que a inovação faz parte do negócio
Foto: Marcelo Prest

Outra alternativa encontrada pela empresa foi passar a fazer estruturas pré-moldadas. “Em vez de fazer a construção no local, realizamos na fábrica, onde alcançamos uma produtividade muito maior a partir da utilização de processos repetitivos. Isso faz diferença. Se não tivéssemos essa inovação, estaríamos estagnados. Quando a empresa tem produtividade alta, ela acaba sendo competitiva, e aí consegue ganhar concorrências”, frisa o diretor ao citar que, atualmente, a empresa executa obras no Estado, no Mato Grosso do Sul, em Minas Gerais e no Maranhão.

Para o economista e professor dos MBAs da FGV Robson Gonçalves, a produtividade coloca as empresas em patamares muito mais competitivos no mercado, especialmente em uma época em que a concorrência é global e não mais local.

O professor rebate ainda o discurso de quem diz que o aumento da produtividade é responsável por gerar desemprego. “Esse é um argumento de quem está parado no século 20. Quando se ganha produtividade, você libera o profissional para outras atividades, e quando a economia cresce, ela gera oportunidades mais qualificadas. Essa história de que gera desemprego é falácia. O que a produtividade traz é uma mudança, e para melhor, do perfil do emprego.”

O diretor de tecnologia e inovação do Grupo Águia Branca, Janc Lage, acrescenta que para que a produtividade seja alcançada, e consequentemente a empresa se torne mais competitiva, a cultura de inovação e melhoria de processos deve ser constantemente disseminada por toda a empresa, e especialmente estimulada pelos líderes. “Além disso, para você manter um ambiente produtivo, as pessoas precisam vestir a camisa da empresa, sentir orgulho do local onde trabalham.”

Gonçalves pondera que hoje, em função da crise, a produtividade que já era deficitária no país, fica ainda mais comprometida. “Na crise, as empresas acabam reduzindo a escala de operação, as instalações são subutilizadas e isso reduz a produtividade. Precisamos reverter esse quadro.”

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