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Com desemprego alto, abrir um negócio vira saída para vencer a crise

Mesmo que represente uma reação da população à crise, a avaliação do Sebrae é de que o crescimento de novos negócios se deu como reflexo do desemprego crescente

Roberto Gasparini e Michel Teixeira, que são de Minas Gerais, enxergaram oportunidades no Espírito Santo
Roberto Gasparini e Michel Teixeira, que são de Minas Gerais, enxergaram oportunidades no Espírito Santo
Foto: Carlos Alberto Silva

Apesar de todas as dificuldades que a crise econômica tem imposto aos capixabas, muitos decidiram dar a volta por cima e abrir o próprio negócio após perder o emprego ou sentir a renda familiar ser reduzida. Reflexo disso é que, entre os meses de janeiro e maio de 2017, 4.623 novas empresas foram formalizadas no Espírito Santo, 222 a mais que o mesmo período do ano passado, quando o número de negócios abertos foi de 4.401.

Mesmo que represente uma reação da população à crise, a avaliação do Sebrae é de que o crescimento de novos negócios se deu como reflexo do desemprego crescente. Como muitos brasileiros ficaram fora do mercado de trabalho, e estão com dificuldade para se recolocar, a alternativa encontrada por eles é a abrir a própria empresa.

Os dados da Junta Comercial do Estado reforçam que, diante do ambiente econômico desfavorável, o empreendedorismo está em alta. Prova disso é que, nos últimos dois anos, o número de empresas abertas no Estado representou quase o dobro da quantidade de fechamentos.

Entre janeiro e maio de 2016, quando 4.401 empresas foram formalizadas, 2.617 fecharam as portas. No mesmo período de 2017, 4.623 negócios foram oficializados e 2.749 foram fechados.

NECESSIDADE

O Sebrae destaca que empresas são abertas por dois motivos: “por oportunidade ou por necessidade”. “Tem gente que está abrindo negócio para poder se sustentar, usando o dinheiro do FGTS depois de perder o emprego. Também tem gente que está enxergando oportunidade. Muitos partem para o setor de serviços, que está crescendo muito. São negócios que se abrem com poucos recursos, principalmente em atividades inovadoras na área computacional ou de comidas e bebidas diferenciadas”, destaca o diretor técnico do Sebrae-ES, Benildo Denadai.

Algo a se observar é que o percentual de capixabas que abriu empresas por “necessidade” - e não por oportunidade - subiu de 29% em 2014 para 42,4% em 2016, segundo o Sebrae. Ainda sim, pouco mais da metade das pessoas escolheu abrir uma empresa com base na oportunidade, na vocação e no planejamento, que são requisitos importantes defendidos pelos especialistas para quem quer ter sucesso no investimento.

Por conta da crise que acabou com o emprego de milhões de brasileiros, a taxa de empreendedorismo no ano de 2016 foi uma das mais altas de todos os tempos, segundo o Sebrae. Exemplos de quem viu na crise a chance para empreender, os amigos Michael Teixeira e Roberto Gasparini, ambos com 42 anos, são engenheiros por formação mas, por conta do cenário atual, resolveram deixar Belo Horizonte (MG) para abrir o próprio negócio na Praia da Costa, em Vila Velha.

O Emporium Mr. Arte foi inaugurado oficialmente ontem, e trabalha com mais de 100 rótulos de cervejas e dezenas de opções de vinhos.

“Com a crise, acabei saindo da empresa onde eu trabalhava. Tomei a decisão de montar alguma coisa na área de entretenimento, e convidei o Roberto para ser meu sócio. Acabei optando pelo Espírito Santo. Fizemos uma análise de mercado e vimos que poderia dar certo. Montamos um plano de negócio e viemos acreditando muito no mercado capixaba”, lembra Michael, que precisou contratar oito funcionários para trabalhar no estabelecimento.

“Eu não sei se sou maluco, mas estou acreditando realmente nessa lacuna que pode surgir. E temos projetos mais ambiciosos se o que a gente planejou der certo”, complementa.

Sobrevida de empresas é melhor no Estado

Serviços na área de beleza têm se destacado no ES
Serviços na área de beleza têm se destacado no ES
Foto: Arquivo

No Espírito Santo, a taxa de êxito dos empreendedores recém-chegados ao mercado tem sido maior do que a média nacional, segundo dados do Sebrae obtidos pela reportagem.

O órgão argumenta que isso é consequência de um trabalho de longos anos realizados por diversas instituições no território capixaba. Enquanto no Brasil 23% das empresas fecharam as portas antes de completar dois anos (tendo como referência 2014-2016), no Estado essa porcentagem não passou de 20%. Ou seja, a cada 100 empresas abertas no em 2014, pelo menos 80 continuavam no mercado ao fim de 2016.

Diretor técnico do Sebrae-ES, Benildo Denadai avalia que o Espírito Santo tem se mostrado equilibrado do ponto de vista econômico, o que cria um ambiente favorável e de confiança ao empreendedorismo. “O Estado está com uma gestão eficaz, redonda. Isso estimula as pessoas a empreenderem. Na crise, se eu tenho uma economia com sinais de recuperação, por que não investir? Serviços como beleza e computação tem gerado muitas oportunidades”, completa Denadai.

“Planejar para fazer o negócio prosperar”

Empreendedores precisam planejar o negócio
Empreendedores precisam planejar o negócio
Foto: Divulgação

A perda do poder de compra da população e a queda nas vendas não devem ser motivos para paralisar o empreendedor que acaba de chegar no mercado. É preciso planejar e repensar sempre o plano de negócios traçado quando a empresa foi aberta.

Os especialistas avaliam que normalmente as pessoas se acomodam quando a empresa passa pelo momento de sufoco e deixam de arriscar, o que inibe o crescimento.

“Por isso, é importante assumir riscos. Se você é um empresário nato ou um aventureiro, não importa. Se você teve a capacidade de abrir e de formalizar o negócio, agora deve fazer de tudo para que ele dê certo. Para isso, seja sempre um profissional, pensando as consequências de cada passo seu no médio e no longo prazos e tenha persistência”, sugere o consultor empresarial e especialista em carreiras, Sério Borges.

Para tornar um negócio realidade e fazê-lo prosperar, é preciso ainda ter perfil empreendedor e conhecer a realidade do mercado. “Se não tem esse perfil, capacite-se. Defina estratégias para posicionar corretamente a empresa no mercado”, completa o especialista.

PREPARO

De acordo com o Sebrae, o número de empreendedores que opta pelo planejamento antes de abrir uma empresa subiu de 51%, em 2006, para 71% em 2014. No entanto, com a crise econômica e o aumento do desemprego, volta a crescer o número de pessoas que decidem ter um negócio próprio sem buscar capacitação.

Para diminuir o risco de errar, o Sebrae orienta que o empreendedor tenha um plano de negócios para ser revisto com frequência. Dessa forma, além de projetar o futuro o empresário vai ter a oportunidade de olhar para o passado. Todos os consultores e especialistas batem nessa tecla: planejar é fundamental, e os empresários de sucesso estão quase sempre apoiados em planos para que as coisas deem certo.

PARA TER SUCESSO

Organização

Tenha um plano de negócios para ser revisto com frequência. Você projeta o futuro e aprende com o passado. Todos os consultores e especialistas batem nessa tecla. “Planejar é fundamental”. Os empresários de sucesso estão quase sempre apoiados em planos e mais planos para que as coisas deem certo.

Escolha bem os sócios

A troca de ideias, opiniões e sugestões enriquece o dia a dia da companhia e ainda pode render bons negócios. Muita gente tem restrições em ter sócios. Uma dica é escolher alguém que tenha os mesmos valores que você. Um precisa complementar o outro.

Movimente-se

Se é uma loja que você quer abrir, atravesse a rua e anote o que vê. É atrativa? Destaca-se da concorrência? Qual a mensagem que passa? Se é um escritório, como está o acesso? É divulgado? É visto? A apresentação da recepção é adequada? Anote tudo!

Interação

Interaja com os clientes perguntando se estão sendo bem atendidos, se o produto está bom, se o serviço está bem-feito, o que buscam, como se sentem, o que valorizam (preço, prazo, qualidade, conveniência)... Enfim, conheça o que os clientes querem e buscam.

Atualização

Estabeleça um plano de mudanças e coloque-o em prática. Investir no negócio não é só gastar dinheiro. Pode-se pesquisar novos produtos ou serviços, atualizar-se com cursos e visitas aos concorrentes, feiras e eventos do setor (e fora dele); produzir novidades. Capacite a equipe e a si e não tenha medo de arriscar.

O início

Para tornar um negócio realidade, é preciso ter perfil empreendedor e conhecer a realidade do mercado. Se não tem esse perfil, capacite-se. Defina estratégias para posicionar corretamente a empresa no mercado.

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