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Empreendedorismo: de trailer a um grande restaurante em Vitória

"Agradeço muito a Deus por ter me dado a oportunidade de vencer na vida. Hoje, posso falar que vencemos", afirmou Maria da Conceição

Maria da Conceição Machado e os filhos Odmar e Silvano, sócios do restaurante Mister Cook

Após o falecimento do primeiro marido, Maria da Conceição Machado, hoje com 69 anos, começou a se desdobrar entre seu trabalho como cabeleireira e um pequeno negócio de venda de pratos feitos, na hora do almoço – os clientes comiam literalmente na mesa de sua cozinha, com a sua família. De lá para cá, ao lado de Odmar e Silvano, seus filhos, construiu um dos melhores restaurantes de Vitória, o Mister Cook.

Era 1982 quando meu primeiro marido faleceu. Ele era caminhoneiro e pagava um INSS baixo. Eu tinha três filhos pequenos, todos estudando em escola particular, e a renda só do salão de beleza que eu tinha na minha casa não estava dando. Em 1987, comecei a vender prato comercial. Servia porções de arroz, feijão, carne e verduras na copa da minha casa mesmo, em Bento Ferreira. E depois do almoço atendia como cabeleireira.

No mesmo ano, o movimento do almoço aumentou e eu fiz uma área maior com mesas e cadeiras. Saía de bicicleta para comprar carne e verdura. Isso durou 3 anos. Na época da hiperinflação, eu comecei a trabalhar muito, mas não ganhava nada. Então, parei. Mas os clientes insistiam muito para voltar. Nessa época, meu filho, Odmar (hoje com 43 anos) fazia estágio e o Silvano, meu outro filho (hoje com 47), trabalhava numa lanchonete, em Manguinhos. Os dois queriam trabalhar e alugaram um trailer que ficava na rua da nossa casa. Um tio do Odmar e do Silvano emprestou dinheiro para pagar o aluguel e a avó deles arrumou mesas e um freezer.

Mas seis meses depois, o dono pediu o trailer de volta. Então, o Juarez, meu segundo marido e padrasto deles, comprou um trailer novo, que ficava dentro do nosso terreno. Era 1991 e nós vendíamos lanches, churrasquinho e bebidas.

Fazíamos tudo no trailer: eu lavava os alfaces, tomates, fazia maionese, comprava o que precisasse de ônibus, e temperava o churrasquinho. E Odmar e Silvano se revezavam entre garçom, caixa e chapeiro. Um primo deles, o Alex, nos ajudava no fim de semana. A gente abria às 17 horas e virava a noite. Chegávamos a pegar o pessoal que saía de uma boate da Ilha da Fumaça para lanchar de manhã.

Mas os clientes continuavam pedindo que a gente voltasse com a comida. Eu fiquei com medo, nem apoiei muito isso, sabia que a responsabilidade era muito grande. Mas o Odmar e o Silvano decidiram fazer o restaurante. Abrimos em 1995. Pedimos a placa com o nome “Mister Cook”, mas chegou uma placa escrito “Conceição”! Mandamos refazer. O Odmar e o Silvano não conseguiram uma cozinheira boa na hora de abrir, aí eu entrei. A Janete trabalhava na minha casa como doméstica e chamamos ela e mais uma, e eu ensinei tudo a elas.

Depois de 3 anos, fui para a balança, onde eu ficava junto com o Juarez. Nós todos trabalhávamos de segunda a segunda, o Odmar e o Silvano ficavam de manhã até a noite trabalhando. Com o restaurante indo bem, fui deixando algumas responsabilidades, e passei mais a ajudar eles no salão. Fomos crescendo, construindo puxadinhos para trás, até chegar na minha casa, que era nos fundos do terreno. A gente continuava abrindo à noite, servindo caldos, sanduíches e porções.

Mais ou menos em 1999, 2000, a insegurança começou a aumentar e decidimos parar de abrir à noite. Dava pouco movimento, era cansativo.

A esposa do meu filho Odmar começou a trabalhar conosco em 2005. Eu continuava ajudando no restaurante quando minha mãe adoeceu. Decidi, então, largar o trabalho para cuidar dela, fiquei três anos cuidando. Logo depois, tive que cuidar também da minha sogra. E desenvolvi um problema no ombro, então parei. Em 2007, a prefeitura nos informou que a gente não podia ter moradia e comércio com a mesma entrada. Então, eu tive que ir embora de onde vivi 40 anos, e fui morar no Centro, onde estou até hoje.

Entre 2011 e 2015, eles fizeram uma reforma grande no restaurante e agora ele atende bastante gente. Minha saúde não é lá essas coisas, mas eu venho almoçar uma vez por semana. Agradeço muito a Deus por ter me dado a oportunidade de vencer na vida. Eu lutei, meus filhos lutaram e nós somos vitoriosos. Hoje, podemos falar que vencemos.

Sou realizada e agradeço muito ao esforço deles, que foi enorme. Acho que o trabalho duro, a honestidade e o carinho eles é o que fez a diferença e que nos fez ter sucesso. Desde novos, eles sempre trabalharam dentro de casa, sempre lavavam a louça, cuidavam do cachorro, varriam o quintal. O restaurante hoje é nossa história, tudo que temos está aqui, e ainda damos emprego para 25 a 30 pessoas. É um sonho que se tornou realidade.

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