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Veja as profissões do futuro e aquelas que vão deixar de existir

Avanço da inteligência artificial vai mudar mercado de trabalho

Com o avanço da inteligência artificial, os drones ganham cada vez mais importância. No futuro, vão até mesmo transportar passageiros. E são técnicos como Rafael Destefani, de 23 anos, que vão ter muito trabalho para fazer a manutenção desses objetos voadores que já têm aplicações na indústria, agricultura e em entregas
Com o avanço da inteligência artificial, os drones ganham cada vez mais importância. No futuro, vão até mesmo transportar passageiros. E são técnicos como Rafael Destefani, de 23 anos, que vão ter muito trabalho para fazer a manutenção desses objetos voadores que já têm aplicações na indústria, agricultura e em entregas
Foto: Marcelo Prest

Quando se pensa em futuro, carros voadores e robôs inteligentes parecem uma realidade tão longe quanto os anos 3000. Mas isso pode estar mais perto que imaginamos. Especialistas acreditam que a inteligência artificial vai transformar a nossa forma de viver e de trabalhar em 20 anos.

Com isso, profissões como atendente de telemarketing e caixa de banco vão desaparecer quando os robôs evoluírem o bastante para manter uma conversação ágil e que faça sentido com o ser humano, além de tomarem decisões. Por outro lado, designer de realidade virtual e editor de DNA são novas profissões que vão ganhar muito mercado.

Máquinas capazes de coletar informações e tomar decisões, ou seja, com inteligência artificial, vão mudar completamente o mercado de trabalho, acredita a consultora em inovação, Luciane Aquino. Para ela, toda profissão que tem tarefas repetitivas estão ameaçadas.

“Estamos a 20 anos de que a inteligência artificial funcione de forma importante. Nesse período, vamos assistir os robôs substituindo humanos em tarefas repetitivas. Atendente de telemarketing, caixa de supermercado, cobrador de ônibus, há uma tendência forte que isso tudo acabe”, afirma.

Em contrapartida, as experiências virtuais vão ficar cada vez mais ricas. “Mark Zuckerberg, do Facebook, acredita que vamos ter declínio forte do celular em 10 anos, isso porque vai ter uma substituição por um gadget vestível ou implante no cérebro. Uma profissão importante é designer de experiências virtuais. Vai desde games a até conversas com holografia”, explica Luciane.

MEDICINA

A nanorobótica, ou seja, robôs inteligentes para engolir ou injetar, será o futuro da medicina, acredita Luciane. “Vai desde despejar uma droga numa região, escanear órgãos, até fazer monitoramento do corpo 24 horas por dia. E o que se fala no futuro é de ter máquinas capazes de se reordenar e gerar órgãos, ossos. Quem desenvolve isso é o pesquisador de biotecnologia. Um profissional do futuro é o especializado em edição da DNA, onde há um universo enorme. Impressoras 3D vão imprimir coisas com células vivas e órgãos ou comida”.

Desenvolver medicamentos nessa realidade também será diferente do que se faz hoje, projeta o economista e professor do departamento de Economia da Ufes, Ednilson Felipe. Pílulas inteligentes, desenvolvidas por um bioquímico de nanotecnologia, vão substituir 6 ou 7 comprimidos e vão ler as doenças atuais e do futuro.

Além disso, ele acredita que os drones terão muitas funções que não existem hoje. “Com inteligência artificial, vamos usar mais drones. O técnico de drones vai ser muito demandado”.

Charles Martins, do centro de pesquisa da Arcelor Mittal. Ele trabalha com impressão 3D de peças para consertos nos equipamentos da empresa. Charles foi entrevistado sobre as profissões que vão sumir e as que vão surgir com a inteligência artificial
Charles Martins, do centro de pesquisa da Arcelor Mittal. Ele trabalha com impressão 3D de peças para consertos nos equipamentos da empresa. Charles foi entrevistado sobre as profissões que vão sumir e as que vão surgir com a inteligência artificial
Foto: Guilherme Ferrari

HUMANOS

Pode parecer catastrófico. Mas, para o vice-presidente de Planejamento Acadêmico da Adtalem Educacional do Brasil, Maurício Garcia, todas as atividades criativas vão ser valorizadas. E todo mundo vai continuar precisando de médico, veterinário, dentista – a forma como esses profissionais atuam é que vai mudar.

“Em 20 anos, os produtos vão ser mais customizados que são hoje. E isso vai dar margem a outros tipos de profissões e ocupações que hoje não existem”.

Os robôs vão fazer muitas coisas, mas nunca vão substituir totalmente o homem, explica Anna Cherubina Scofano, professora dos MBAs da FGV. “O diferencial do ser humano é a criatividade, a inovação. Você pode até preparar um robô para responder, interagir, para trabalhar com agilidade. Mas as informações com que eles trabalham alguém precisa criar”, observa.

 

O QUE VAI SURGIR

DESIGNER DE REALIDADE AUMENTADA

O designer de realidade aumentada vai trazer para a visão, de uma forma virtual, mais informações que aquele espaço físico tem à primeira vista. Dentro da mesma lógica, vão surgir os curadores de obras de arte para realidade aumentada. O trabalho vai desde games, entretenimento, até conversas através de holograma.

PESQUISADOR EM BIOTECNOLOGIA

A nanomedicina e a nanorobótica, combinada com a inteligência artificial, vão trazer uma revolução para a medicina. Robôs em forma de comprimido oral ou injetáveis vão mapear problemas, despejar drogas, escanear órgãos e fazer exames internos, além de desentupir artérias e identificar e destruir células cancerosas, vírus, bactérias.

BIOQUÍMICO DE NANOTECNOLOGIA

A inteligência artificial, no campo da dos medicamentos, irá elaborar medicamentos que vão tratar, em uma pílula, a doença específica de cada humano. O bioquímico de nanotecnologia é um farmacêutico diferente do que está no mercado. A inteligência artificial vai ler as doenças e o bioquímico vai criar os medicamentos para combatê-las.

EDITOR DE DNA

Profissões do futuro
Profissões do futuro
Foto: Ilustração GZ

Editar partes defeituosas do DNA substituindo por partes saudáveis será possível com tecnologias inteligentes. A técnica será feita por profissionais da saúde que se especializarem em entender como funciona a genética.

DESIGNER DE IMPRESSÃO 3D

A impressora 3D hoje já é realidade dentro das empresas, principalmente para criar moldes e protótipos. Mas no futuro, elas vão imprimir células e órgãos vivos ou até mesmo comida. Será necessário que designers saibam projetar esse tipo de produto.

DESENVOLVEDOR E TÉCNICO EM DRONES

Agricultura, indústria, entregas, lazer, transporte. Em 20 anos, os drones estarão em todos os setores da economia. Seja reduzindo o uso de agrotóxicos nas lavouras, seja monitorando os processos de produção ou levando compras para os consumidores. O profissional que desenvolve e faz a manutenção de drones vai ter muita demanda.

ESTRATEGISTA DE BIG DATA

Com cada vez mais informação sobre o comportamento humano, será necessário um profissional para organizar e criar estratégias a partir da coleta e interpretação de dados feito pelas máquinas. O estrategista de big data consegue minerar os dados e tirar inteligência disso.

PROFESSOR-TUTOR CONTEUDISTA

Em alguns anos será comum a figura do professor que vai se concentrar em traduzir em material escrito, filmado, falado, o conhecimento e repassar aos alunos até mesmo de forma holográfica. Como a educação será cada mais à distância e voltado para a autonomia do aluno, os professores serão mais tutores, ou seja, vão supervisionar e orientar o aluno para onde ir.

ENGENHEIRO DE DADOS

O engenheiro de dados é quem vai criar os algoritmos de inteligência artificial. É um profissional que já existe, mas que terá muito mais importância.

ANALISTAS DE OTIMIZAÇÃO

É o profissional que faz otimização de buscas na internet, identifica melhores caminhos e as melhores informações para o cliente e para as empresas.

O QUE VAI SUMIR

ATENDENTE DE TELEMARKETING

Hoje, as máquinas já conversam com os clientes no lugar de atendentes de telemarketing. Mas o humano ainda é necessário. Com o avanço da inteligência artificial, o próprio sistema cria os parâmetros de decisão e toma decisões em uma conversa inteligente. Por isso, a ocupação de atendente de telemarketing vai desaparecer.

CAIXA DE SUPERMERCADO

A atividade de caixa de supermercado é repetitiva, por isso, a tendência é que não exista mais. Em poucos anos, o consumidor vai passar os produtos em um leitor e o sistema vai dar a opção de fazer pagamento. Ainda, possivelmente, vai te perguntar o que você não encontrou e questionar por que não está levando o iogurte de todas as semanas.

CAIXA DE BANCO

Com a automatização cada vez maior, a tendência é que os caixas de banco sejam extintos, liberando os trabalhadores para outras funções dentro dos bancos.

ANALISTA DE CRÉDITO

Assistente de empréstimos e analista de crédito são profissões que vão deixar de existir com a evolução da tecnologia. A inteligência artificial entra no sentido de entender a necessidade do cliente e calcular os riscos para trazer simulações e taxas de juros cobradas do cliente.

COBRADOR DE ÔNIBUS

Em vários países, já não existem cobradores em transporte público. A pessoa compra o ticket e entra no transporte, e há um fiscal que confere quem pagou ou não. Quem não pagou, é multado.

TRABALHADOR RURAL

O trabalhador braçal, especialmente no campo, vai sumir em 20 anos. As máquinas vão arar, plantar, monitorar, determinar quando irrigar e fazer as colheitas.

MOTORISTA

Carros autônomos já são realidade, e em 20 anos digirir estará fora de moda para os humanos. Se confirmarmos a tese de que mais de 90% dos acidentes são causados por falha humana, talvez os humanos sejam até mesmo impedidos de dirigir.

ESTOQUISTA

O trabalho de estoquista vai acabar. Hoje, já existe tecnologia que detecta a baixa no estoque quando o produto é passando no caixa, por exemplo, de um supermercado. Assim que o produto é pago, o sistema já aciona a compra.

FRENTISTA

Frentistas serão substituídos por máquina inteligentes que vão saber qual e quanta gasolina o motorista usa toda vez que vai ao posto.

TRADER DA BOLSA DE VALORES

A todo o momento, o trader tem que tomar decisões de compra ou não de determinada ação. Para isso, ele faz cálculos para isso. A inteligência artificial vem para calcular, baseado em informações e comportamentos passados dos ativos, os riscos de apostar ou não naquela ação.

Mudança no modelo será para atender novo perfil profissional

Pedro Henrique Moraes, André Soares e Renhan Marim já desenvolvem o que, no futuro, será comum: um relógio que lembra o paciente de tomar a medicação na hora certa e já avisa o médico. A startup deles está incubada na TecVitória. "No futuro, vamos incorporar ao relógio um algoritmo usando inteligência artificial para monitorar doenças", diz Pedro Henrique.
Pedro Henrique Moraes, André Soares e Renhan Marim já desenvolvem o que, no futuro, será comum: um relógio que lembra o paciente de tomar a medicação na hora certa e já avisa o médico. A startup deles está incubada na TecVitória. "No futuro, vamos incorporar ao relógio um algoritmo usando inteligência artificial para monitorar doenças", diz Pedro Henrique.
Foto: Carlos Alberto Silva

Profissionais do futuro vão ser muito especializados, trabalhar por demanda, por projetos, e terão a jornada totalmente flexível. Isso vai acontecer por dois motivos: necessidade de redução de custos das empresas e o novo perfil dos trabalhadores. 

Para a professora dos MBAs da FGV e coordenadora do curso de Analista em RH, Anna Cherubina Scofano, o que leva muitas pessoas ao empreendedorismo é justamente a insatisfação com o mercado de trabalho da forma como está hoje.

“Os profissionais não querem mais jornada de 40 horas. Eles podem até trabalhar 60, 80 horas, mas não com horário, batendo cartão, por obrigação. Essa mudança vai acontecer pela própria geração que está no mercado, fazendo com que as empresas mudem seus modelos. Caso contrário, vai ser difícil trabalhar a retenção dos talentos. Cada vez mais as pessoas vão atuar por projeto, por demanda”, explica.

Para o profissional que já está no mercado há alguns anos, a máxima é: tudo muda o tempo inteiro, diz Anna.

“Ele tem que olhar para onde estão indo os ventos. É um belo exercício, um belo desafio. Os profissionais do futuro vão ser muito especializados, mas eles precisam também ter uma visão do todo, o diferencial é a visão sistêmica, a contextualização, entender onde ele está inserido, até para identificar as tendências de mercado”, salienta.

A substituição de profissões provocada pelo avanço da tecnologia não é novidade. Mas os processos são lentos e desiguais, dependendo do local do mundo ou da empresa.

“Há muitas tecnologias que já existem, mas não são todas as empresas têm acesso. E tem a questão da força de trabalho buscar manter o mercado profissional, apesar da tecnologia. Já existe tecnologia que substituiria cobradores de ônibus, frentistas em posto de gasolina, mas há um lobby para que o mercado continue”, observa o economista e professor do departamento de Economia da Ufes, Ednilson Felipe.

Até hoje, a tecnologia substituiu trabalhos braçais ou repetitivos. E isso deve continuar. A novidade é que a inteligência artificial vai substituir trabalhos marcados pela inteligência ou por processos decisórios, aponta o economista.

Felipe lembra que esse processo de destruição e criação do mercado de trabalho não é uniforme. “Não é a mesma quantidade de trabalho criado e destruído, ou seja, destrói-se mais que se cria, e não se cria exatamente no mesmo lugar. Esse é o grande desafio.”

Silas de Moraes é analista de sistemas e trabalha desenvolvendo algoritmos de inteligência artificial. O produto que ele desenvolve mapeia o hábito de navegação do usuário e oferece a ele, por e-mail, notícias e produtos. "O trabalho exige muita qualificação. Mas ainda há um déficit enorme desses profissionais", diz.
Silas de Moraes é analista de sistemas e trabalha desenvolvendo algoritmos de inteligência artificial. O produto que ele desenvolve mapeia o hábito de navegação do usuário e oferece a ele, por e-mail, notícias e produtos. "O trabalho exige muita qualificação. Mas ainda há um déficit enorme desses profissionais", diz.
Foto: Carlos Alberto Silva

Sociedade vai precisar de novas políticas públicas

Carreiras pautadas na interpretação humana e na emoção, além das áreas de saúde, vão continuar existindo, firmes e fortes. Mas uma sociedade que muda pede novos profissionais para pensá-la.

Em um mundo onde as profissões que exigem menos qualificação vão desaparecer, é preciso pensar políticas públicas para incluir essas pessoas que vão ficar sem emprego, defende a consultora em inovação, Luciane Aquino.

“Se vamos ter desemprego, como lidar com isso? Com os robôs produzindo riqueza, eles pagam impostos, como indivíduos? De quem são? Vamos decidir que cada cidadão receba uma renda básica, já que os robôs vão substituir as pessoas que são pouco intelectualizadas? Isso se discute já, hoje, olhando para o futuro relativamente próximo em alguns países. São nossos filhos e netos.”

Em 20 anos, vamos ver uma mudança de valores, perfil, hábitos da sociedade. Isso vai demandar mudanças na legislação, por exemplo, e gente para pensar essas mudanças. Além disso, novas questões se tornam fundamentais a serem debatidas, como a privacidade, acredita o vice-presidente de Planejamento Acadêmico da Adtalem Educacional do Brasil, Maurício Garcia.

“Hoje geramos muitos dados nossos com tudo conectado: nosso percurso no carro, a hora que acordamos. E tem a questão da privacidade. Os sociólogos e cientistas sociais vão discutir essas novas questões. Já os psicólogos cada vez mais vão ter demandas sobre novos distúrbios de ansiedade, tipos de paciente que não existiam antes.”

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