A vida no lixo

Riqueza do lixo não vai para o bolso dos catadores

Intermediários compram material das associações a preços baixos e revendem 90% do material fora do Estado com lucro de até 150%

Publicado em 20/11/2017 às 09h40

Texto: Luisa Torre, Mikaella Campos e Natália Bourguignon

Fotos: Marcelo Prest

Conhecidos como sucateiros ou aparistas, os intermediários entre os catadores e as grandes empresas que absorvem os produtos recicláveis são considerados um “mal necessário”. Sem eles, os catadores não teriam a possibilidade de dar vazão ao material separado. No entanto, em um mercado totalmente sem regulação, as variações dos preços pode ser bastante desvantajosa para a parte mais fraca: o catador.

Você está na série A Vida no Lixo. Clique para acessar o índice

Muitos intermediários conseguem bons preços para vender os materiais, que são repassados por valores até 250% maiores que os pagos aos catadores. Um exemplo é na venda do plástico filme: enquanto um aparista adquire o material por cerca de R$ 1,50 o quilo de uma associação do Espírito Santo, ele revende por R$ 2,30 fora do Estado. Já o papelão é vendido em média a R$ 0,25 pelos catadores e por R$ 0,60 pelos intermediários.

Há intermediários que começaram como carrinheiros (catadores informais que carregam carroças) e hoje têm casas e carros conquistados através do negócio.

O pulo do gato é ter condições de revender os materiais fora do Estado, para indústrias de São Paulo e Minas Gerais, por exemplo. No Espírito Santo, os valores pagos pelas indústrias é baixo, explica Maria do Carmo Cantilio Felipe, coordenadora da Rede de Economia Solidária dos Catadores Unidos do Espírito Santo (Reunes), que une 14 associações.

“Tem atravessador que paga melhor que empresa. Eu não entendo. Mas já tentamos vender direto para a indústria na associação da Serra e eles queriam pagar R$ 1,10 o quilo, enquanto um comprador pagava R$ 1,50”, pondera.

“BOLSA” DE VALORES

É por isso que, segundo o coordenador geral do Instituto Sindimicro, Hugo Tofoli, 90% do lixo seco separado pelos capixabas é vendido para fora do Estado.

Existe até mesmo uma “bolsa de valores” do lixo seco, diz Tofoli. De acordo com ele, o preço dos materiais oscila de acordo com o dólar. “O preço do papelão, por exemplo, sobe mais perto do Natal, quando há alto consumo de embalagens. Em dezembro do ano passado, o papelão custava R$ 0,55 o quilo, em janeiro já estava entre R$ 0,25 e R$ 0,27. A oferta e procura afeta o preço.”

Além disso, explica Tofoli, há materiais que são recicláveis, na teoria, mas que não têm qualquer valor de mercado. “A garrafa de plástico vermelha ou preta, por exemplo, ninguém compra. A indústria não aproveita. Já a garrafa cristal (transparente) é valorizada”.

O isopor é outro material que tem pouco espaço no mercado da reciclagem. “O isopor é usado na construção civil, mas não tem volume de consumo. Já as bandejinhas de frios são lixo. O ideal é comprar os frios no plástico ou no papel”, diz o coordenador.

Se por um lado os catadores ficam com a menor fatia desse bolo, por outro lado, os intermediários são necessários para eles, já que conseguem absorver materiais vendidos por eles e repassar grandes quantidades para a indústria, além de pagar à vista.

Tem atravessador que paga melhor que empresa. Eu não entendo. Mas já tentamos vender direto para a indústria na associação da Serra e eles queriam pagar R$ 1,10 o quilo, enquanto um comprador pagava R$ 1,50
Maria do Carmo Cantilio Felipe,coordenadora da Rede de Economia Solidária dos Catadores Unidos do Espírito Santo

Umas das maiores e mais antigas compradoras de papel e plástico da Grande Vitória é a Aparas Vitória. A empresa movimenta 3 mil toneladas ao mês de materiais recicláveis, comprados das associações de catadores, de pequenos aparistas e de grandes empresas. Segundo Jackson Gabler, proprietário, a relação com as associações é “amigável e de parceria”.

“Procuro pagar um preço justo. Eles não teriam como vender diretamente porque as indústrias exigem qualidade, fardos padronizados e grande quantidade. As associações não dão conta de produzir, de estocar, nem esperar o tempo de receber os valores.“

Porém, o empresário admite que as variações do mercado podem prejudicar os catadores. “Se baixou o preço lá na indústria, se eles pagam menos, eu tenho que baixar e o catador recebe menos. Não existe preço fixo, varia de acordo com o mercado e a necessidade das fábricas. É a lei da oferta e da procura, não tem tabela”, esclarece.

Os preços pagos pelos materiais podem ainda variar dependendo da qualidade do produto. Portanto, associações menos organizadas, que repassam produto mais “sujo”, tendem a receber ainda menos.

CADEIA

Além dos grandes aparistas, que compram das associações, há aqueles menores, que compram dos catadores que não estão associados. São os “intermediários dos intermediários”.

Um exemplo é o Lucimar Alves Peçanha, que administra a Assores, em Vila Velha. Ele compra material de catadores independentes, também conhecidos como ”carrinheiros” e os revende para a Aparas Vitória que, por sua vez, vende para a indústria.

“Mais de 100 pessoas vêm aqui. É vantagem para os catadores pois eles recebem o dinheiro na hora, e não mensalmente, como acontece nas associações.”