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Economista: "Governo defende interesses que são do sistema financeiro"

O economista Arlindo Villaschi lança hoje livro em que fala de economia e mobilidade

Arlindo Villaschi: é preciso estabelecer políticas de articulação e mais incentivo às pequenas empresas
Arlindo Villaschi: é preciso estabelecer políticas de articulação e mais incentivo às pequenas empresas
Foto: Marcelo Prest

Não existe uma ideia única ou um modelo único de desenvolvimento para a economia capixaba e para a brasileira. A impaciência com um discurso do “não há alternativa” foi o que motivou o economista Arlindo Villaschi a reunir alguns de seus artigos no livro digital “Caderneta de campo - mapeando possibilidades”, que será lançado hoje, a partir das 19 horas, na Biblioteca Pública do Estado, em Vitória.

O mapeamento, que retrata o olhar do especialista entre 2013 e 2017, trata de temas como economia e mobilidade urbana, passando pela inevitável reflexão sobre a política. “Para qualquer coisa, há uma ideia alternativa. Há de se debater alternativas”, pontua Villaschi.

Para ele, reformas como o teto de gastos e a mudança trabalhista não trazem benefício ao país. É preciso debater outras alternativas, inclusive ao ajuste fiscal e à reforma da Previdência proposta. Além disso, o economista acredita que o atual governo brasileiro não está comprometido com o país. “O governo defende os interesses do mercado financeiro”, diz. A seguir, o que pensa sobre economia, reformas e política.

AJUSTE FISCAL

“Os ajustes fiscais, tanto o proposto por Levy no governo da Dilma, como por Meirelles, agora no governo Temer, para mim são equívocos. Eu acho que o ajuste fiscal no Brasil precisa ser feito mais em cima das receitas. A gente precisa não cobrar mais imposto, mas cobrar em cima daqueles que não pagam. Passa, por exemplo, por cobrança de grandes fortunas, aumentar o imposto de herança, tributar ganhos de capital. São coisas que acontecem em outros países. Você não ajusta simplesmente cortando gastos, principalmente gastos essenciais para a inclusão social e para o futuro do país.”

TETO DE GASTOS

“Quando você congela os gastos em saúde, educação e assistência social, você está congelando o futuro. O teto de gastos foi não foi uma boa solução para o país. Foi uma lástima. Não conheço lugar nenhum do mundo que congelou os gastos por 20 anos. Você tem governos que estabelecem ajustes nos próximos quatro anos. E normalmente nesses países quais são os gastos preservados? Os gastos sociais. No Brasil, congelamos por 20 anos principalmente os gastos sociais. E olha que o Brasil tem um histórico de injustiça social que precisa de algum tipo de compensação.”

MERCADO FINANCEIRO

“Como o mercado financeiro atua como um grande cassino, o humor dele vai depender de onde é que ele vai resolver apostar nas eleições de 2018. Por isso, seria interessante ter um governo mais comprometido com os interesses nacionais, mas lamentavelmente nós não temos. Este governo que está aí é comprometido com o mercado financeiro, seja através do seu ministro da Fazenda, seja através do presidente do Banco Central. São todos banqueiros. O governo atual defende os interesse do sistema financeiro. Então, 2018 não vai ser necessariamente fácil do ponto de vista da economia.”

PERSPECTIVAS

“A continuar, e ao que tudo indica, vai continuar a política tanto no nível estadual quanto federal, com obsessão pelo déficit público, e com encantamento com as forças de mercado e baixa intervenção estatal, eu acho que 2018 não vai ser melhor nem que 2016 nem que 2017. Não tem milagre.”

REFORMAS

“Se dizia que com o teto dos gastos se voltaria a crescer, não voltamos. Depois, de resolvermos o problema da legislação trabalhista, voltaremos a crescer, não voltamos. Agora o próximo milagreiro será a reforma da Previdência. O que está em curso é um processo muito reacionário em relação a avanços sociais, é muito entreguista na medida em que faz apologia exagerada ao mercado internacional, especialmente às grandes empresas internacionais, e isso eu não vejo como beneficiar a economia.”

REFORMA TRABALHISTA

“Eu não conheço empresa que tenha quebrado no Brasil por conta do custo do trabalho. Eu já vi empresa no Brasil quebrar por financiamento caro, por falta de demanda, mas quebrar porque o custo da mão de obra é muito elevado eu não vi.”

DÉFICIT PÚBLICO

“Esse déficit ainda precisa ser melhor esmiuçado. Você tem déficit por quê? Por que se deu muito incentivo a poucas empresas? Você tem déficit por que você não cobra sobre ganhos de capital? Você tem déficit por que não cobra, por exemplo, sobre grandes fortunas como se cobra em outros países? Agora mesmo está sendo dado uma isenção fiscal para petrolíferas estrangeiras de R$ 1 trilhão, isso vem sendo noticiado pelos jornais, será que isso não faz parte do déficit? Será que isso não pode ajudar na cobertura do déficit?”

REFORMA DA PREVIDÊNCIA

“O governo diz que não vai conseguir pagar lá na frente aposentadorias. Mas vou falar de uma notícia de segunda-feira, do ‘Valor Econômico’, que diz que renúncias fiscais aprofundaram déficit da Previdência. Um levantamento do Ministério da Fazenda diz que o déficit da Previdência Social seria 40% menor sem as renúncias fiscais. Não sou eu que estou dizendo, é o Ministério da Fazenda. Então, esse discurso é questionável. Ah, precisamos pensar a Previdência a longo prazo? Lógico. Mas não é fazer este tipo de reforma que está aí.”

GRANDES EMPRESAS

“Há um discurso único no Espírito Santo de só podemos crescer com grandes empresas. Entra governo, sai governo e esse encantamento com grandes empresas. E isso repercute inclusive na atitude de prefeituras. Mais de 200 mil postos de trabalho são gerados no Espírito Santo na agricultura familiar. A agricultura familiar vai pedir apoio à prefeitura e dificilmente consegue muita coisa. Mas se uma indústria vier trazendo 50 empregos, ganha terreno e isenção fiscal. Então há um desequilíbrio nisso.”

PEQUENAS EMPRESAS

“As micro, pequenas e médias empresas são a locomotiva dos empregos do Estado. Para fortalecê-las, os governos têm que conversar com as empresas, envolver a universidade, envolver os institutos federais, que são vetores de inovação, e articular tudo isso. Inclusive com as grandes empresas participando. Tem uma série de oportunidades de trabalho que podem surgir a partir do fomento a essas empresas. É mais linha de crédito, mais financiamento, mais linha de apoio à inovação. São políticas de desenvolvimento.”

 

 

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