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"O mundo tem dado uma 'Black Friday' para o Brasil", diz economista

Diretor do Laboratório de Estudos dos Brics da Universidade de Columbia afirma que o mundo tem visto com bons olhos os avanços na economia local

economista e diplomata Marcos Troyjo, diretor do Laboratório dos Brics da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, e consultor do Fórum Econômico Mundial.
economista e diplomata Marcos Troyjo, diretor do Laboratório dos Brics da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, e consultor do Fórum Econômico Mundial.
Foto: Divulgação

O ano de 2017 foi o ano da retomada da economia brasileira e a tendência é que esse crescimento se intensifique em 2018. Essa é a avaliação do economista e diplomata Marcos Troyjo, que é diretor do Laboratório dos Brics da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, e consultor do Fórum Econômico Mundial. Para ele, neste ano o Brasil saiu de uma década perdida de crescimento, sobretudo industrial.

Com o fim desse período, Troyjo afirma ser necessário um planejamento para os novos tempos. Segundo ele, o mundo tem dando uma Black Friday de oportunidades para o país crescer, mas, para isso, é preciso fazer a lição de casa. O economista conversou com A GAZETA sobre a percepção mundial do atual cenário nacional, os avanços e os desafios do Brasil. Confira:

Como a comunidade internacional vê o Brasil neste momento?

Há também uma enorme expectativa quanto ao resultado das eleições do ano que vem, porque dependendo de para onde vai a política brasileira, o país pode ter rapidamente sua bolsa superando a marca dos 100 mil pontos, pode acelerar o processo de liberação de investimentos em áreas de infraestrutura como portos, rodovias e ferrovias; ou então a gente pode ter um prolongamento da incerteza, dependendo do caminho que a gente eleger. Eu vejo que o cenário externo está muito bom para o Brasil. A gente percebe que o mundo está dando uma Black Friday para o Brasil, um monte de oportunidades para a gente poder crescer e, para isso, obviamente, a gente precisa fazer a lição de casa. Tem um pouco de decepção com agenda de reformas que se imaginava estar mais avançada neste momento, como as reformas da Previdência e tributária, mas, no geral, é mais satisfação pela adoção de medidas como o teto de gasto e a reforma trabalhista. Eu vejo que a gente está melhor agora do que no início do ano, e essa é a percepção também do investidor externo.

A percepção de saída da crise é percebida também no exterior?

Com certeza. Se vê por esse lado com muita satisfação o Brasil por termos conseguido trazer a taxa de inflação para baixo da meta fixada pelo governo, por verem a trajetória descendente da inflação, que era de dois dígitos há cerca de dois anos, a impressão é de que ocorreu um verdadeiro milagre no Brasil. O mundo está satisfeito com a melhora dos índices de crescimento, que mostram que o Brasil não só parou de piorar como assumiu uma trajetória de crescimento com a indústria, que estava dormente há muito tempo, num papel importante de retomada, e os números dessa semana revelam isso. Se você fizer uma trajetória retomando a produção industrial, a gente tem todos os elementos para dizer que o Brasil passou por mais uma década perdida de crescimento, mas este ano começamos a sair dela. Também se vê com satisfação a melhoria do patamar de governança em unidades controladas pelo governo, como é o caso da Petrobras, da Eletrobras e do BNDES. Além disso, percebo uma certa satisfação do que é percebido por alguns como o ‘avanço institucional brasileiro’ ilustrado pela figura da Lava Jato. Há um pouco a ideia de que esse avanço de transparência vai avançar tanto no Brasil como resultado da Lava Jato; que em médio prazo, aqueles que coloquem suas apostas no Brasil vão acabar recebendo bônus de médio prazo importantes. O ano vai ser bom do ponto de vista de recebimento de investimentos estrangeiros e parte disso é projeto novo e, outra parte, de fusões e aquisições. Os chineses, por exemplo, têm adquirido muitas empresas no Brasil, além de belgas, os holandeses e os espanhóis.

Quais os maiores desafios do país hoje?

São três agendas que a gente ainda precisa avançar: a primeira é a do equilíbrio fiscal; a segunda é a das reformas; e a terceira é o Brasil ter uma visão mínima de estratégia para lidar com as oportunidades e afastar os riscos que estão passando no horizonte. O ajuste macroeconômico deu uma boa melhorada por conta da queda da taxa de inflação, o que diminui colateralmente o serviço da dívida brasileira e houve uma apreciação do Real sem necessariamente diminuir o ritmo das exportações. Mas isso tudo ainda não é suficiente para solucionar o rombo deixado no último período, sobretudo da Dilma, o que faz com que a questão fiscal ainda não esteja resolvida e ela passe para além da discussão de corte de gastos e tenha que entrar no tema das reformas estruturais.

Já conseguimos limpar um pouco a área trabalhista, mas ainda tem a parte tributária, que está numa situação complicada. Para se ter uma ideia, hoje a carga tributária com o percentual do PIB é mais ou menos 36% no Brasil. Na China, que é comunista, é a metade: 18%. No Chile, é 25%. Se fosse só a carga tributária era uma coisa, mas ainda tem o grau de complexidade desses tributos e o montante de horas que a pessoa precisa dedicar para cumprir com suas obrigações do Fisco, o que faz o Brasil ocupar uma das últimas posições no ranking de facilidade de negócios.

Outro ponto é a Previdência, que caminha rapidamente para a tragédia, assim como aconteceu na Grécia, em Portugal e na Espanha. Além disso, você precisa ter um planejamento para lidar com o mundo hoje, em que metade da população mundial tem uma renda média de US$ 3 mil por ano e que vai crescer mais de 5% ao ano, todo ano, nos próximos 15 anos. Quando cresce a renda, se consome mais produtos, mais alimentos, mais estrutura residencial, mais serviços e mais estrutura logística. Isso significa que esse mundo que está se criando aí vai dar imensas oportunidades para o Brasil crescer ainda mais e se tornar um grande exportador de alimentos mundial, de matérias-primas minerais, e commodities agrícolas. Mas é preciso um plano para essa quarta Revolução Industrial que está chegando no mundo.

O que o Brasil precisa avançar no sentido de atração de empresas estrangeiras?

Este ano, o Brasil será o quinto maior destino de investimento estrangeiro no mundo. Não é pouco, mas quando você coloca os fluxos de investimento de baixo de um microscópio se vê que muitos dos recursos que vêm para cá vêm para explorar oportunidades do mercado interno. Por exemplo: se você é uma montadora de veículos e vem montar operações do Brasil, você não vai fazer isso para utilizar a presença industrial no Brasil como uma plataforma de exportação ou para fazer do Brasil um elo nas cadeias globais de produção, não. Você vem para cá montar automóveis para vender para o mercado interno. A leitura que se faz é que a quantidade de investimentos estrangeiros que vêm para cá ainda estão muito relacionados ao fato de que o Brasil é uma das economias mais fechadas do mundo, com muitas barreiras de proteção no seu mercado interno, subsídios demais e preços altos para o consumidor. Nós precisamos mudar a qualidade desse investimento, e pra isso é preciso dar mais competitividade.

Dentro dos Brics, o exemplo da China seria o ideal para o Brasil pós-crise, quanto a produtividade e competitividade?

Nós não podemos e jamais conseguiríamos copiar o modelo chinês, mas deveríamos aprender coisas importantes com eles. O sistema político fechado, como é o caso da China, certamente não seria um exemplo que a gente poderia seguir. Mas, na economia, poderíamos aprender com eles a fazer um planejamento de longo prazo e ter menos legislação e peso do Estado nas empresas, o que incentiva a produção.

O que falta para o Brasil alavancar seu potencial de produção?

O investimento em Ciência e Inovação é uma das nossas maiores deficiências. Há 25 anos, fizemos um estudo de quanto cada país investe por ano do seu produto interno bruto na área de tecnologia e inovação, e o Brasil investia 1% naquela época, enquanto a China investiu um pouco menos: 0,8%. Se você olhar hoje, o Brasil continua com o mesmo investimento e a China o multiplicou em dez vezes, o que faz com que a China hoje seja a segunda maior depositante de patentes. Numa economia que cada vez mais precisa disso, não dá pra se investir tão pouco. Outro ponto é a educação, onde a gente percebe que o Brasil investe muito, mas mal. Se investe numa pirâmide invertida: pouco na educação básica e muito em universidades públicas, o que é uma lógica errada. Outro ponto é o ambiente de negócios, que precisa de uma reforma estruturante.

Até quando o cenário político continuará tendo tanto peso para economia?

O governo tem um tamanho enorme na economia brasileira, só olhar em setores-chaves, como petróleo e energia, em que o governo é o principal ator. É um Estado tão grande que não cabe no PIB. Todo essa presença gigantesca do governo na economia e a própria demanda governamental só pode ser sustentado ao longo do tempo se você tiver fontes de receita que vão compensar essa perda de eficiência e esse sobrepeso. Quando você tem uma queda da receita ou que se faz a revelação de um grande escândalo de corrupção, esse edifício vem desmoronando e essa brincadeira fica insustentável, como estamos vendo hoje.

O que é esse fenômeno da desglobalização do qual o senhor fala?

Tem um período da queda do muro de Berlim à falência Lehman Brothers, em 2008, que era aquele grande banco de investimentos, que eu costumo chamar de período de globalização profunda, porque havia uma grande crença nos benefícios do livre mercado, do livre comércio e da livre iniciativa. Era uma situação muito boa até que teve a recessão nos países do Norte e progressivamente esses países foram adotando políticas mais protecionistas de maior incentivo ao produto local. A intolerância à imigração e a intolerância ao livre comércio e circulação de bens e pessoas, que eu chamo de risco de desglobalização, não significa que a globalização parou, mas que está andando mais lenta. Essa fase, creio eu, está nos últimos anos, para depois vir uma reglobalização, que demandará respostas de todo o mundo, inclusive do Brasil.

Que balanço o senhor faz da economia do Brasil neste ano? E qual a projeção para 2018?

O ano de 2017 foi da retomada. Já em 2018, devemos ter um crescimento entre 2% e 3%, o que pode acelerar ainda mais se ficar claro lá para o meio do ano o andamento da eleição presidencial, se não teremos uma vitória nas urnas de uma candidatura populista ou extremista, de esquerda principalmente. A nossa tendência é apostar em alguém de centro-direita que seja pró-mercado, comprometido com as reformas e um ambiente de negócios mais liberal.

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