Notícia

As novas caras (e vozes) da direita e da esquerda

Jovens tentam mudar o estigma de que políticos são todos iguais

Dia sim e, não raro, outro também, políticos integrantes de partidos dos mais diversos matizes aparecem no noticiário associados a negociações nada republicanas, acusados de corrupção, recebimento de propina e outras práticas ilegais.

O cenário pode afastar ainda mais quem não se interessa por política, como se comprovasse o ditado popular de que todos os políticos e partidos são iguais. Mas há quem queira mudar essa paisagem justamente por meio da política. Da política partidária. E são jovens, normalmente pouco afeitos aos assuntos áridos e desanimadores que emanam de Brasília.

Aos 30 anos, o economista e filósofo Joel Pinheiro da Fonseca é filiado ao Novo, partido criado no ano passado. “Em grande medida, a Lava Jato mostra que os partidos são todos iguais, sim. É um trauma para a política brasileira, que pode sofrer uma renovação. Mas as mudanças essenciais que o país precisa não passam apenas pelo combate à corrupção”, afirma Joel.

E é justamente nas saídas que aponta para a melhoria do país que o economista situa seu ponto de vista ideológico liberal, ou “libertário”: “A gente precisa rediscutir o tamanho do Estado, ter foco. Garantir acesso às condições mínimas a quem precisa, como em saúde e educação, mas deixar o empreendedorismo livre, não intervir na economia. O bolsa-empresário hoje é maior que o Bolsa-Família”.

O economista não rechaça o rótulo de integrante da direita, embora o considere apenas um rótulo. Joel também não embarca no discurso conservador quando o assunto são direitos civis. “Sou a favor do casamento homoafetivo e da legalização do aborto, por exemplo, mas essa é uma posição minha, não do partido”, pontua.

FATOR Bolsonaro

Assim, Joel não compactua do afã provocado pelo deputado Jair Bolsonaro (PSC) em alguns jovens em meio à descrença política.

Marianna Dias, 24, estudante de Pedagogia
Marianna Dias, 24, estudante de Pedagogia
Foto: Acervo Pessoal

Esse é um ponto em comum com a estudante de Pedagogia Marianna Dias, de 24 anos, que há cinco faz parte das fileiras do PCdoB. Para ela, o “turbilhão político” que o país vive expôs um conservadorismo latente na sociedade. “O sentimento de conservadorismo sempre existiu na sociedade, só não era tão exposto”, avalia.

O turbilhão que Marianna cita chegou até ao próprio PCdoB, que teve nomes envolvidos na Lava Jato. Mas isso não demove a baiana, diretora da União Nacional dos Estudantes (UNE), da luta política. “Todos os citados já esclareceram tudo, que receberam doações legais. O PCdoB é um partido de princípios”, responde, sem pestanejar.

Para ela, melhorar o Brasil significa frear qualquer tentativa de retirar direitos conquistados pela sociedade. “O atual governo tem um projeto de Estado mínimo, de privatização, de cobrar mensalidade nas universidades públicas e de retirada de bolsas estudantis. Esse é um projeto que, certamente, não seria aprovado nas urnas”, critica, enquanto Joel Pinheiro já chegou a escrever que o governo Temer “é o que tem pra hoje, apesar de não ser a primeira escolha de ninguém”, e a elogiar a montagem da equipe econômica.

É nas urnas que Marianna vê a luz no fim do túnel para a crise: “Defendo uma consulta popular para o povo dizer o que quer. Não é o Congresso corrompido, e o STF, passional, que têm que decidir”.

A reportagem perguntou a Marianna e a Joel como se imaginam aos 50 anos. “Ainda terei como principal objetivo da minha vida mudar a vida do povo”, responde ela. “Espero até lá ter dado uma boa contribuição para o Brasil no debate público”, projeta ele.

Eles apostam no envolvimento com a política para mudar o país

Kelton Almeida Natali, 21, estudante de Arquitetura
Kelton Almeida Natali, 21, estudante de Arquitetura
Foto: Acervo Pessoal

O estudante de Arquitetura Kelton Almeida Natali, 21 anos, acaba de se filiar ao PSOL. Mesmo antes de integrar os quadros do partido, o jovem já se indignava com os casos de corrupção. “O PT, desde 2002 já se afastava dos ideais de esquerda, o que virou uma bola de neve. Empresa não doa, espera retorno”, diz um taxativo Kelton.

Para ele, a esperança está em mostrar aos jovens que nem todas as legendas são iguais e o caminho é a informação. “Tem gente que nem sabe os posicionamentos do Bolsonaro, mas foi ao Aeroporto de Vitória recebê-lo. Ficam indignados com a corrupção e vão às ruas, num grito de socorro, mas não debatem os problemas”, pontua.

Como resultado dos debates dos quais participa, o estudante já vê possíveis saídas para melhorar a atual crise nacional: “Precisamos de uma reforma tributária. Hoje, 51% dos impostos são sobre o consumo. O preço do arroz é o mesmo para o rico e para o pobre, mas para o pobre, percentualmente, pesa muito mais”, exemplifica.

José Antônio Vervloet, 31, advogado
José Antônio Vervloet, 31, advogado
Foto: Marcelo Prest

Na outra ponta está o advogado José Antônio Vervloet do Amaral, que aos 31 anos preside o partido Novo no Espírito Santo. Para ele, a questão dos impostos também deve entrar na agenda.

Amaral defende a revisão do pacto federativo: “Há uma inversão maléfica da repartição do bolo tributário. A União concentra a maior parte dos recursos, os Estados uma parte menor e os municípios a menor parte ainda. E é onde as pessoas vivem e as maiores demandas por recursos estão”.

Ele avalia que a Lava Jato pode afastar ainda mais os jovens da política, diante dos escândalos de corrupção que maculam a imagem dos agentes públicos. “Mas a vida em sociedade reclama a participação política, e o ser humano é, em essência, um ser político. O forte fisiologismo existente no Brasil, a troca de favores escusos em detrimento do interesse público, infelizmente, é o que impera”, critica.

“Só que em política não há vácuos. Com estímulos como o fundo partidário o espaço certamente será preenchido por alguém. Pode ser por alguém por quem você se sinta representado ou não. Por isso é importante participar. Para mudar aquilo que não acreditamos é preciso se envolver e agir, e não apenas esperar que as soluções venham de terceiros”, afirma.

Ver comentários