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Casagrande negociou caixa 2 com Odebrecht no Palácio Anchieta, diz delator

Segundo ex-executivo, a empreiteira tinha interesse em obras como Quarta Ponte, BRT e túnel entre Vila Velha e Vitória

Casagrande negociou repasses no Rio, diz delator
Casagrande negociou repasses no Rio, diz delator
Foto: Divulgação

Atualizado às 00h34

O ex-superintendente da Odebrecht em Minas Gerais e Espírito Santo, Sérgio Neves, revelou em delação premiada na Operação Lava Jato que pagou R$ 1,8 milhão em caixa 2 para a campanha do ex-governador Renato Casagrande (PSB) em 2010. Recursos oriundos do departamento de propina da empresa, totalizando R$ 500 mil, também teriam chegado em 2012, como forma de colaborar com a campanha do então candidato a prefeito de Vitória Luciano Rezende (PPS) a pedido do socialista.

Neves relatou que uma das reuniões para fechar o valor dos repasses ocorreu na sede do governo estadual, o Palácio Anchieta, em 2012, em um encontro entre Casagrande, o delator, o ex-presidente da Odebrecht Infraestrutura Benedicto Júnior (o BJ), e Paulo Brusqui, assessor do então governador e responsável por receber o dinheiro. (Abaixo, leia o que disse BJ, também confirmando esses relatos em depoimento de colaboração com a força-tarefa)

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Em depoimento à Procuradoria-Geral da República (PGR), Neves também declarou ter organizado reunião com Casagrande, em 2010, no escritório da Odebrecht, na praia de Botafogo (RJ), a pedido de Brusqui. Na ocasião, o então candidato ao governo solicitou aos executivos da companhia doação para sua campanha a governador. Teria recebido, em seguida, R$ 1,8 milhão. Benedicto Júnior também teria participado.

O dinheiro, segundo Neves, foi todo pago em caixa 2, em sete parcelas de R$ 250 mil e uma de R$ 50 mil, entre os dias 20 de julho e 16 de setembro de 2010.

“Ficou estabelecido que Paulo Brusqui seria o link no dia a dia da construtora. Ele é quem recebia esses pagamentos”, relatou Neves.

Em 2012, durante as eleições municipais, segundo o delator, Brusqui voltou a pedir uma reunião com os executivos da construtora, desta vez pedindo apoio financeiro a Luciano Rezende, que pertencia ao mesmo grupo de Casagrande, à época já adversário do governador Paulo Hartung (PMDB).

“Essa reunião foi realizada na sede do governo do Espírito Santo, com a participação do governador, do Benedicto Júnior, do Paulo Brusqui e eu. O Casagrande solicitou apoio para seu grupo político”, disse, antes de continuar: “Efetuamos essa contribuição no valor de R$ 500 mil via setor de Operação Estruturada. Esse pagamento foi feito em Vitória”, afirmou Neves.

 > Clique aqui para ler documento do Ministério Público Federal que resume denúncias sobre Casagrande

Doação legal

Neves também contou que Casagrande solicitou, em reunião com BJ e Paulo Brusqui, que os repasses efetuados na campanha de 2014 fossem similares entre ele e Hartung. Naquele ano ambos se enfrentaram.

“Foram R$ 770 mil para Casagrande. A empresa determinou que fosse feita de forma oficial”, disse. Neves afirmou não saber se Hartung recebeu o mesmo. Esses R$ 770 mil constam no sistema do Tribunal Superior Eleitoral, em uma doação direta de R$ 200 mil e outra, de R$ 570 mil, via PSB nacional.

Repasses similares aos de Hartung

Na disputa para governador em 2014, Paulo Brusqui solicitou, conforme depoimento de Sérgio Neves, uma nova reunião com executivos da Odebrecht, desta vez no escritório da empreiteira em Botafogo.

"Ele estava um pouco magoado, parece que tinha uma cisão com o grupo de Hartung, então ele frisou que os valores repassados a ele fossem similares aos valores para Hartung. Foram R$ 770 mil para o PSB, para Casagrande. Neste caso, a empresa determinou que fosse feita de forma oficial. Não sei se foi o mesmo doado a Hartung, quem tratou com Hartung foi o próprio Benedicto", contou.

 "Valor alto" até para Estados maiores

Foi numa reunião no escritório da Odebrecht na praia de Botafogo, lugar de vista panorâmica no Rio de Janeiro, que Renato Casagrande solicitou aos executivos da companhia R$ 1,8 milhão de doação para sua campanha a governador em 2010. O dinheiro foi todo pago em caixa dois. É o que afirma o delator Benedicto Júnior, o BJ, ex-presidente da Odebrecht Infraestrutura, em termo de colaboração com a Operação Lava Jato também obtido pela reportagem.

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Benedicto Junior delata Renato Casagrande por GazetaOnline

Além de BJ e Casagrande – chamado sob o codinome de "Centroavante" -, estavam no encontro o também diretor da empreiteira e hoje delator Sérgio Neves, bem como Paulo Brusqui (assessor do socialista). "O colaborador (BJ) autorizou Sérgio Neves a tratar do pagamento da contribuição, no valor de R$ 1,8 milhão, que foi realizada com recursos de caixa dois", registram os procuradores da Lava Jato. Neves informou que esse valor foi pago em parcelas, a maioria em Belo Horizonte.

Como em outros casos envolvendo capixabas, o Departamento de Obras Estruturantes (chamado de departamento de propina nas investigações) viabilizou a operação. 

Segundo BJ, o valor pedido por Casagrande "seria bem alto até para Estados maiores", mas o ex-executivo relata o interesse da empreiteira em pagar tudo, porque o socialista tinha "enorme possibilidade de vencer a eleição", pois sua coligação era mais ampla e tinha o apoio do então governador Paulo Hartung (PMDB, também citado pelo delator). Casagrande era senador e ganhou a eleição para o governo.

R$ 500 mil para Luciano Rezende

Ainda conforme o depoimento em colaboração premiada, os pedidos se seguiram na campanha municipal de 2012, quando BJ afirma ter sido convocado para uma reunião na própria sede do governo, em Vitória, novamente com as presenças de Sérgio Neves e Paulo Brusqui. Na ocasião, Casagrande pediu contribuição para a campanha de Luciano Rezende (PPS), "candidato de sua base política", para a Prefeitura de Vitória.

BJ autorizou Neves a fazer o pagamento não contabilizado de R$ 500 mil, "que foi realizado com recursos de caixa dois". O dinheiro foi dado em parcela única, constando na planilha Drousys sob o codinome de Casagrande, "Centroavante". Apesar de projetos do governo estadual não terem "andado bem", BJ afirma ter sido sempre bem recebido por Casagrande quando ia a Vitória. Por fim, relata-se que o socialista não fez pedidos para a campanha de 2014 (quando perdeu a reeleição para Hartung).

Outro lado

Na tarde desta quinta-feira (13), o ex-governador Renato Casagrande (PSB) negou, por nota, ter tratado sobre repasse de dinheiro para campanhas eleitorais com a Odebrecht ou com qualquer outra empresa no Palácio Anchieta. Segundo ele, "as reuniões relatadas pelos delatores sempre abordaram assuntos institucionais e de interesse do Estado".

Confira a nota na íntegra:

Diante dos últimos fatos divulgados pela imprensa com relação à delação dos ex executivos da Odebrecht envolvendo meu nome, esclareço:

1. Nunca tratei de assuntos referentes à campanha eleitoral na sede do Palácio Anchieta com a Odebrecht, nem com nenhuma outra empresa; as reuniões relatadas pelos delatores sempre abordaram assuntos institucionais e de interesse do Estado;

2. Em 2010, fui ao Rio de Janeiro a uma reunião com o Superintendente da empresa, Benedito Junior, para solicitar recursos para a campanha de governador, porém, não explicitei valor específico, como relatado pelo delator, muito menos que fosse por via ilegal;

3. Em 2012, não solicitei recursos para as campanhas do PSB ou aliados diretamente no ES. Isso foi feito pela direção nacional do Partido, que arrecadou e repassou aos Estados.

4. Em nenhum momento houve, de minha parte ou da equipe, qualquer negociação referente a obras ou serviços no Estado, prova disso é que a empresa não fez nenhum contrato no meu período de governo.

5. Já solicitei o levantamento de toda documentação referente às prestações de contas das minhas campanhas e providenciarei as informações sobre a forma como foram efetivadas, até porque as delações misturam doações oficiais com outras supostamente não oficiais.

6. Esclareço que a administração financeira da campanha era realizada por equipe especialmente indicada para esse trabalho, que era responsável pela arrecadação, aplicação e prestação de contas dos recursos junto à justiça eleitoral.

7. Permaneço à disposição para novos esclarecimentos.

Luciano Rezende

O prefeito de Vitória Luciano Rezende (PPS), também por meio de nota, respondeu que não teve nenhum contato com representantes da Odebrecht para tratar qualquer tipo de assunto.

"Como ficou bem claro no próprio depoimento do delator, jamais tive contato com essa pessoa ou qualquer outro representante dessa empreiteira citada, para tratar desse assunto ou de outro, que desconheço. E mais, durante todos os meus 4 anos de mandato, essa empresa não fez nenhuma obra em Vitória!".

Paulo Brusqui

O ex-assessor de Renato Casagrande, Paulo Brusqui, disse ter tomado conhecimento através da imprensa da inclusão de seu nome na investigação aberta no Tribunal Regional Federal-RJ, a respeito de doações da Odebrecht.

"Esclareço que fui responsável pela administração financeira das campanhas do PSB, nas eleições de 2010 e 2014, não tendo jamais disputado qualquer cargo eletivo. Esclareço por fim, que tão logo seja intimado pela justiça, terei oportunidade para promover a defesa do trabalho realizado na campanha".

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