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"Não somos políticos", diz diretor de filme sobre a Lava Jato

Marcelo Antunez não se esquiva das acusações de partidarismo do longa e diz que não precisa de distanciamento histórico para contar uma história

Acusado de ser partidário e de utilizar o cinema para propaganda, o filme conta parte da história da Operação Lava Jato
Acusado de ser partidário e de utilizar o cinema para propaganda, o filme conta parte da história da Operação Lava Jato
Foto: Divulgação

É difícil falar de “Polícia Federal – A Lei é Para Todos”, que estreia na quinta-feira (7), sem abordar a política e as polêmicas que cercam o filme. Acusado de ser partidário e de utilizar o cinema para propaganda, o filme que conta parte da história da Operação Lava Jato foi financiado (R$ 15 milhões) por investidores que a produção se recusa a revelar. Quando questionado sobre isso durante o lançamento do filme em Curitiba, o produtor Tomislav Blazic despistou – “Isso é teoria da conspiração” – e, mais uma vez, não falou sobre o assunto.

A lado de Tomislav na entrevista e no comando do filme estava o diretor Marcelo Antunez (“Qualquer Gato Vira-Lata 2” e “Até que a Sorte nos Separe 3”), que, como pode ser conferido na entrevista, fala com paixão e empolgação sobre o filme. Independente de tudo o que cerca a produção, Marcelo tem orgulho de seu thriller político que pega emprestado muito do cinema e das séries americanas. “Um filme como não se faz muito por aqui. A gente sabe como é o Jason Bourne, mas não sabe como é a Polícia Federal”, brinca o diretor.

Nestas páginas o cineasta, claro, fala sobre política, cinema e não foge das perguntas sobre um suposto partidarismo do longa. Confira.

Na première, você disse que o filme não é político, mas como você se define politicamente?

O filme não é político e não tem nenhum objetivo político. Nós somos cineastas, não somos políticos e não temos nenhuma aspiração política. O que a gente quer, além de entreter, é provocar debate. A gente sabe que a Lava Jato atiça os ânimos de todo mundo. A gente viveu muito tempo num estado de apatia política, a gente não falou sobre política durante muitas décadas e isso resultou no que a gente tem hoje. Por isso agora a gente tá tendo essa sensação de acordar, mas ainda estamos na infância de exercer o nosso poder enquanto povo. É natural que a gente exalte um pouco os ânimos, mas o filme não tem nenhum objetivo político. Eu, particularmente, sempre me posicionei à esquerda, todos meus votos até hoje foram para partidos de esquerda.

Qual foi o critério que vocês usaram para manter o nome de alguns personagens como o Lula e o Sérgio Moro e mudar o de outros?

Foi um critério puramente criativo. Quando você estrutura um roteiro, você não consegue colocar nele o número de protagonistas que essa história tem na vida real. Ao longo de três anos e meio de operação, pelo que a gente conseguiu contabilizar, tem mais de 50 investigadores, delegados, agentes... Enfim, era impossível a gente trazer essas pessoas pra dentro de um filme, uma por uma, e seria uma coisa até muito ruim do ponto de vista artístico. O que a gente fez foi pegar histórias reais de todos os delegados e agentes, de tudo que era interessante, e fundir em poucos protagonistas. A gente precisava conduzir isso tudo de uma maneira que o público pudesse acompanhar.

Alguns delegados falaram que há cenas no filme que não foram retratadas exatamente. Você teme que o que o filme mostra possa entrar pra percepção pública como verdade?

Na verdade nada do que está no filme foi exatamente com ocorreu. Mas em qualquer filme baseado em fatos você tenta colher o maior número possível de relatos das pessoas que estiveram ali presentes, das pessoas que vivenciaram aquilo. Aí você tenta, obviamente, confrontar, checar... E você tenta estabelecer mais ou menos o que realmente aconteceu ali. Depois disso você adiciona uma camada de roteiro, é cinema. Não é um documentário, é uma ficção baseada em fatos. As sequências de ação do nosso filme não ocorreram daquela maneira, mas estamos fazendo um thriller e precisamos intensificar um pouco as emoções, deixar as pessoas um pouco mais animadas na tela, então carregamos um pouco a mão na tinta aqui ou ali. Mas a gente teve muita responsabilidade com os eventos que têm, de fato, um documento, uma comprovação real, a gente foi muito fiel em relação àquilo. O resto que acontece obviamente é entretenimento. Isso é cinema e não estamos aqui querendo fazer noticiário de jornal.

Ao fim da sessão o Moro não quis dizer o que achou do filme. Você chegou a conversar com ele?

O Moro, vocês devem ter percebido ao longo de toda cobertura das operações, não é de falar muito, ele é muito discreto e não foi diferente conosco. Não só após a sessão, mas em outras oportunidades que tivemos de conversar um pouquinho, pra entender um pouco que figura é essa, ele falou muito pouco. É muito reservado. Do ponto de vista de roteiro isso até poderia ser um problema... Por sorte a gente decidiu contar a história pelo ponto de vista da investigação, quando a figura do juiz é muito reativa, não tem muito protagonismo.

Desde que surgiu a notícia de que o filme estava sendo produzido em parceria com a Polícia Federal, houve a crítica de um possível filme “chapa branca”. O que vocês fizeram para tentar tirar esse estigma?

Eu e os roteiristas tínhamos uma preocupação de reler o roteiro o tempo todo procurando por possíveis interpretações equivocadas. Até que chegou um ponto em que a gente percebeu que não tem como fazer nada pra evitar isso e a gente tem que ser honesto e o mais responsável possível apenas contando a história e não tentando fazer nenhum tipo de análise. Acho que essa é a confusão que se faz, mas você não precisa de distanciamento histórico para contar uma história. A gente precisa pra fazer uma análise, aí sim, mas a gente não se propõe a analisar nada durante o filme, a gente só pretende contar uma história da maneira mais agradável, palatável, mais emocionante possível, esse é o nosso trabalho como cineastas. Quando você se baseia em fatos, tem que vesti-los da maneira mais emocionante possível. A gente não tem nenhum interesse em controlar a opinião das pessoas, muito pelo contrário. Acho que o debate é saudável, produtivo, contanto que seja um debate, uma conversa sem hostilidades, porque não foi nosso objetivo, não temos nenhum interesse ou objetivo político, não quero me candidatar a nada e prefiro continuar fazendo cinema pro resto da vida (risos).

É um filme diferente do que o cinema brasileiro está acostumado a fazer?

É bom falar de cinema um pouquinho... (risos) O público brasileiro vai ao cinema acostumado a ver FBI, CIA e adora thrillers e filmes de ação, mas estamos acostumados com as histórias americanas. A gente não tem dinheiro pra fazer “Transformers”, mas a gente consegue fazer um filme ou outro com uma ação interessante. A nossa indústria tem uma dificuldade de explorar um pouco esse nicho, esses outros gêneros. Falo isso de cadeira porque eu vim da comédia, mas a gente precisa romper essa barreira. A gente não tem referências, a gente não faz filmes desse tipo, então como é que é a nossa Polícia Federal? A gente sabe como é o FBI, como é o agente secreto, um Jason Bourne da vida, mas como são as coisas próximas da gente, sem Jason Bournes da vida pulando de prédio? São coisas muito mais reais.

O filme tem um ritmo diferente do que a gente está acostumado a consumir. Foi uma dificuldade?

A gente não tá habituado a fazer esse tipo de filme, mas a gente não quer imitar o cinema americano. A Lava Jato é uma ótima oportunidade pra trazer o cinema brasileiro pra dentro disso porque ela é muito cinematográfica, cheia de desdobramentos inimagináveis a todo momento. Acho que nenhum diretor no Brasil tem experiência pra isso, então tentamos estabelecer qual seria a linguagem. Você vê que tem vários saltos temporais e isso é necessário porque acompanhamos três anos de operação. Não dá pra ficar desenvolvendo muito uma coisa cadenciada. Nossa primeira descoberta foi encontrar o nosso ritmo porque eram muitos acontecimentos.

Há uma preocupação grande com os personagens parecerem mais humanos, com consciência de que estão fazendo um trabalho que vai ter um impacto político grande... Até que ponto isso foi indicação de roteiro e até que ponto foi fruto do contato dos atores com os policiais?

Uma pergunta de cinema... que maravilha (risos). É uma combinação dos dois. Quando a gente começou as entrevistas e as pesquisas para o filme, a gente foi percebendo que essas pessoas poderiam ser nossos vizinhos, assim como os investigados. Foi uma surpresa agradável e achamos que o público ia curtir ver isso em tela. Então o roteiro foi desenvolvendo essa humanidade, essa parceria, essa irmandade que existe dentro desse grupo.

A estreia em 7 de setembro (Independência do Brasil) é uma coincidência?

É uma coincidência mesmo. Os produtores e distribuidores estavam no meu pé (risos) dizendo que a história estava ficando velha... E eu batalhando por mais tempo. Você sabe que diretor não lança filme, né? Abandona. Fiquei segurando até onde eu pude.

Vocês usam atores pra representar os personagens, mas vocês decidiram utilizar uma imagem de arquivo da Dilma. Por quê?

Ficou muito claro pra gente que a Dilma não era um personagem do filme, ela não é investigada na Lava Jato e, por isso, não deveria ser interpretada por uma atriz. Eu não me sentiria muito confortável com uma atriz interpretando a Dilma, trazendo um tom pra fala dela. Então preferimos usar o pronunciamento dela, o anúncio em relação aos ministros. A gente tá passando por um momento histórico, então quanto mais próximo pudermos retratar, melhor.

A cena pós-crédito indica o que vem depois. Quantas sequências teremos?

(risos) Essa pergunta... Vamos ligar pra Brasília? (risos) Os roteiristas de Brasília são muito mais criativos que os meus, e olha que os meus são bastante. Enquanto a operação nos der assunto e o povo quiser assistir a isso, vamos continuar contando a história. O que a gente pode dizer, por enquanto, é que tem espaço para uma trilogia. Já estamos desenvolvendo o segundo roteiro que conta os eventos a partir de março do ano passado. Se nada acontecer de muito grande. Nem sei se torço pra que aconteça ou não.

Tem uma cena entre o Júlio (Bruce Gomlevsky) e o pai que pode ser entendida como passada de pano, mas, conversando com alguns colegas, eles relataram vivências idênticas...

É isso... A conversa entre os dois veio dessas vivências. A gente percebe na nossa timeline do Facebook, nos nossos almoços de família. É uma discussão o tempo todo, tudo muito polarizado. O discurso moderado não tem mais graça, é morno, o que tem graça são as posições polarizadas. Então acho que é natural que se tenha dentro da própria família pessoas com posições diferentes, e essa cena exemplifica muito isso. Em outra cena com o Rainer (Cadete) e o Calloni a gente tentou passar a dúvida que a gente percebeu que esses personagens da vida real têm. Os caras estão tão acostumados a terem as investigações interrompidas que acho que eles nunca foram tão longe. Essa conversa representa isso, deles não saberem mais quem estão ajudando, a quem interessa a investigação.

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