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Superação da crise vai depender das urnas

Recuperação econômica é real, mas eleições terão papel decisivo

Após dois anos de crise intensa, 2017 representou um suspiro para o país. Os dados recentes da economia brasileira não deixam dúvidas de que estamos vivendo uma recuperação econômica que poderá ser significativa.

Por isso, o novo ano traz sentimento de esperança, no lugar da sensação de apreensão dos três últimos anos, já que 2018 se anuncia com boas expectativas de crescimento para a economia com juros baixos e inflação sob controle, como apontam analistas políticos e econômicos.

Após dois anos de recuo do PIB e do Brasil ter entrado na pior recessão da História, é esperado que o país tenha fechado o ano, ontem, com um crescimento próximo de 1% e que em 2018 possa evoluir para um resultado de até 3%.

O desemprego ainda é grave e incomoda, mas os indicadores mostram que os postos de trabalho voltaram a ser criados. Após o país ter chegado à marca de 14,2 milhões de desempregados, no início do ano passado, o contingente agora é de 12,6 milhões e o total da população ocupada é o maior desde o final de 2015, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Além disso, a inflação baixa é hoje um importante combustível da recuperação brasileira e o que tem alimentado o consumo. Com um índice final de 2017 estimado em 2,8%, após ter alcançado um pico de 10,67% em 2015 e 6,29% em 2016, o orçamento familiar fica mais saudável, o comércio se movimenta e os negócios, aos poucos, ganham vigor.

As eleições, entretanto, são fator de expectativa. Os investimentos ainda fracos e o aumento da incerteza política pesam nas previsões. Para que o país possa usufruir e alcançar um desenvolvimento sustentável, será necessário que as reformas avancem, que haja uma retomada de investimentos na infraestrutura e que a campanha eleitoral apresente agendas propositivas, segundo especialistas.

“Se o atual governo conseguir levar adiante a reforma da Previdência e quem sabe a reforma tributária nos próximos meses do ano, será possível ter uma economia razoavelmente descolada da política. Mas se isso não for feito, vamos ter sobressaltos desagradáveis em 2018”, acredita o economista e analista político da UnB, José Matias-Pereira.

Ele defende que um dos maiores obstáculos para a retomada do crescimento pode estar nos conflitos políticos que ainda não estão resolvidos.

“Essas votações e os arranjos eleitorais podem resultar em uma vertente positiva, em que se busque o entendimento para caminhar para as eleições com o país em um cenário de maior estabilidade política ou haver todo um agravamento, caso essas propostas de mudanças não avancem. Aí certamente vamos chegar nas eleições com muito embate e travas que podem dificultar a chegada de um novo presidente”, disse.

PIB - 01/12/2018
PIB - 01/12/2018
Foto: Ilustração

Peso

Mesmo com a recuperação da economia brasileira já sendo vista como certa para este ano, graças aos resultados de 2017, as escolhas e as decisões políticas a serem tomadas pelo governo, pelo Congresso e pelos eleitores é que vão ser as responsáveis pela continuidade disso nos próximos anos.

"2017 foi um ano difícil, com muito desemprego no Estado e no país. Espero que nossos governantes se atentem para as zonas de pobreza e para quem mais precisa. Estou há três anos em busca de emprego e não consigo. Espero que em 2018 as empresas voltem a contratar e os  empregos sejam retomados no Brasil", atendente Jéssica Valadares
"2017 foi um ano difícil, com muito desemprego no Estado e no país. Espero que nossos governantes se atentem para as zonas de pobreza e para quem mais precisa. Estou há três anos em busca de emprego e não consigo. Espero que em 2018 as empresas voltem a contratar e os empregos sejam retomados no Brasil", atendente Jéssica Valadares
Foto: Ricardo Medeiros

E a economia será novamente um tema de grande influência durante o pleito, assim como ocorreu em 1994, com o início da implantação do Plano Real, e em 2002, por conta do desemprego alto e da promessa de criação de milhões de empregos.

Segundo pesquisa do Instituto Datafolha, o peso dos problemas econômicos triplicou em relação a 2014. Naquele ano eleitoral, só 11% dos eleitores consideravam que os principais problemas do país eram a falta de emprego, o salário ou a inflação. Agora, o índice é de 28%.

Entre as preocupações com a economia, o desemprego é a consequência mais dolorosa. Atinge desde o jovem que tenta se inserir no mercado, como a atendente Jéssica Valadares, de 20 anos, até quem está perto de se aposentar, como o operador de manutenção Marcos Vinícius de Oliveira, que perdeu o emprego aos 60 anos. Para eles, 2018 ainda será um ano de expectativa. “Espero que nossos governantes se atentem a quem mais precisa e os empregos sejam retomados”, disse Jéssica.

O diretor de estudos estratégicos da UFF e cientista político Eurico Figueiredo destaca que o filtro da percepção é o que determina a influência da política na economia e não o número frio do indicador, da estatística.

“O que conta é ver se aquele familiar desempregado conseguiu emprego, se o salário deu para pagar as contas do mês. O eleitorado olha para a vida real dele e a questão é para onde ele vai olhar. Para o passado de economia mais folgada ou para a recuperação diante da crise atual? Enquanto isso, propostas salvacionistas brotam de todos os lados”, afirmou.

A PALAVRA DOS ESPECIALISTAS

Os próximos 4 anos em jogo

Eurico de Lima Figueiredo, diretor de estudos estratégicos da UFF e cientista político

O motor de tudo é a economia. Em 2017, vimos uma inflação baixa e a retomada do desenvolvimento econômico pálido, mas que é significativo, face a recessão de 2016 e 2015. Contudo, esses fatos foram capazes somente de atenuar, mas não de resolver um problema gravíssimo que afeta o lado econômico e social, que é o desemprego. Com isso, a situação social que já vinha se agravando em anos anteriores se aprofundou, com o aumento da violência e da favelização nas ruas. Do ponto de vista político, o governo teve vitórias, mas ainda não alcançou a principal, que é a reforma da Previdência. O que está em jogo agora não é mais 2018, é 2019 a 2022, ou seja, o resultado da eleição. Já nesses primeiros meses do ano vamos ter um debate intenso sobre nosso presente e futuro, e o que poderíamos ser. Vejo 2018 como um ano de passagem entre uma situação grave para a possibilidade de um melhor panorama nos próximos quatro anos.

Desemprego é o desafio

Hugo Froes, economista e consultor de empresas

O grande problema que ainda teremos que enfrentar em 2018 é com relação à taxa de desemprego. As nossas contas públicas estão controladas, mas temos que implantar no Estado uma gestão que foque no crescimento das pequenas, médias e microempresas, que podem ajudar a diminuir essa taxa de desemprego nos próximos anos. Elas foram essenciais em 2017. Também temos que conseguir criar possibilidades e oportunidades para diminuir a desigualdade. Mais uma vez, isso pode ser proporcionado pelo Estado por meio das pequenas, médias e microempresas. É importante ainda termos o ajuste fiscal bem feito para termos mais oportunidades de crescer. Além disso, nós temos um nível elevado de exportações, mas nós não podemos apenas viver do comércio exterior, temos que diversificar. A população quer saber o que será feito a partir de agora para o país avançar.

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