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Psicólogos relatam piora da saúde mental de capixabas com as eleições

Casos de sofrimento que chegam à prática clínica em decorrência do acirramento político do país aumentaram consideravelmente, segundo o Conselho Regional de Psicologia

Psicólogos relatam piora da saúde mental com as Eleições 2018

A definição das eleições presidenciais está chegando, acontece no próximo domingo (28) e, neste cenário de polarização e divergências entre os eleitores e seus candidatos, psicólogos da Grande Vitória relatam a piora em relação à saúde mental dos capixabas com a escolha do futuro presidente do Brasil.

De acordo com o Conselho Regional de Psicólogos do Espírito Santo (CRP-ES), casos de sofrimento que chegam à prática clínica em decorrência do acirramento político do país aumentaram consideravelmente nos últimos meses, principalmente durante as pesquisas do segundo turno.

Em uma reunião realizada pelo Conselho nesta semana, por exemplo, cerca de 50 psicólogos disseram receber diariamente em seus consultórios pacientes que falam sobre discussões e conflitos por conta de um possível resultado no segundo turno das eleições, segundo informou a presidente do CRP, Maria Carolina Fonseca Barbosa Roseiro.

Todo esse contexto político afeta diretamente a saúde mental das pessoas. Os relatos sobre as consequências já chegou aos consultórios e desafia psicólogas e psicólogos em suas práticas clínicas
Conselho Regional de Psicologia

Para ilustrar este cenário, o Gazeta Online conversou com alguns profissionais da área que também relataram um alto índice de pacientes com dificuldades de lidar com o período eleitoral, tendo reflexos clínicos. A psicóloga Caroline Ramalho, por exemplo, citou que pelo menos metade dos pacientes que atende em seu consultório particular expõe algum tipo de transtorno ou dificuldade em relação às Eleições 2018.

A maior dificuldade que todas as pessoas estão encontrando é a forma de lidar com o outro. Ambos os lados - e eu já atendi pessoas que votam pelos dois partidos - reclamam da intolerância. Então é interessante pensarmos como que as ideias não estão se encontrando realmente. As pessoas não estão dialogando a fim de debater, e sim de impor ideias. Essa é a maior dificuldade

Além das dificuldades de comunicação, Caroline conta que os pacientes relatam angústia, medo e preocupação com o futuro. "Os que têm uma condição financeira melhor até falam em sair do país dependendo do resultado. Alguns já até planejam, pesquisam como é a vida em outros países, procuram saber sobre visto e informações do tipo". A psicóloga já ouviu, ainda, que alguns dos pacientes relatam o medo da volta da Ditadura Militar no Brasil. "Isso acontece, principalmente, com os pacientes LGBT, negros e mulheres", avaliou.

BRIGAS NA FAMÍLIA

Ódio nas redes sociais

A psicóloga Sara Casteluber reforça que alguns pacientes já narraram briga familiar, medo de sair na rua e de ocupar alguns espaços em que situações de violência sejam "mais declarada e não velada", medo da perda de direitos e outros problemas em relação ao tema.

Nós buscamos trabalhar com o paciente as potencialidades e o que ele pode buscar, usar as resistências e laços afetivos para atravessar esse momento - que já aconteceu outras vezes na história política do Brasil, mas que está se aflorando de um jeito absurdo

DISCURSO DE ÓDIO

Getúlio Souza, que atua como psicólogo clínico no Hospital das Clínicas, em Vitória, detalhou que recebe pacientes que relatam o notável crescimento de discurso de ódio em um momento de caos social. 

Muitas vezes esse impacto é sentido de modo inconsciente. Esse discurso que atesta violência contra certos grupos atenta diretamente contra o laço social - que é o que usamos para poder nos constituir de modo saudável psicologicamente

O psicólogo também reforçou a percepção de um aumento nas tendências suicidas de pacientes com ansiedade e depressão. "O discurso de ódio e violência ganha muita força na sociedade, e ele é completamente contrário à saúde mental. Com isso, aumenta o risco de suicídio entre os pacientes, depressão, ansiedade e outras doenças".

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AS DIVERGÊNCIAS

Maria Carolina Fonseca Barbosa, presidente do CRP, ainda falou ao Gazeta Online que, por meio dos canais de comunicação do Conselho e pelos próprios conselheiros têm chegado pedidos de ajuda para lidar com toda a situação que paira sobre o país.

Ouvimos psicólogos relatando que estão acolhendo pessoas que enfrentam problemas familiares, conflitos nos relacionamentos, ansiedade de andar na cidade, de conviver com as pessoas e principalmente medo. São mensagens que falam de situações que aconteceram e que estão acontecendo, principalmente agora na caminhada do segundo turno

Abordagem nas ruas por estranhos e a dificuldade de lidar com opiniões divergentes sobre os presidenciáveis é uma das situações. "Os relatos mais graves são sobre essas pessoas na rua, principalmente a comunidade LGBT. Estamos orientando aos psicólogos que, independente de suas posições pessoais políticas, princípios éticos devem ser cumpridos para atender qualquer sofrimento deste tipo. Precisamos acolher e auxiliar o paciente", concluiu a presidente.

Maria Carolina informou que, para continuar monitorando os possíveis casos de abordagens na rua, por exemplo, observatórios de violência estão sendo criados para ter controle sob toda a situação.

COMO DOSAR A "MILITÂNCIA" A FAVOR DO SEU CANDIDATO?

A psicanalista Jane Quintão aproveitou para citar Sigismund Freud, médico neurologista criador da psicanálise. "Freud fala de três fontes de sofrimento do homem: uma seria o corpo, a outra a força da natureza - que são as causas externas, e a última é em relação ao mal estar-que advém das relações humanas. Essa última é a que traria mais dor ao homem", explicou. No consultório em que atua, a psicóloga conta que tem ouvido alguns relatos em relação às Eleições de 2018. Muitos pacientes, segundo ela, falam sobre embates diretos e desencontros de opinião.

A maior dificuldade das pessoas que se consultam com Jane e relatam problema na saúde mental por conta da política é no sentido de ter que lidar com o mal-estar diante dos posicionamentos, da agressividade do outro e das diferenças. 

A forma de tentar lidar com esse mal-estar é trazer a mediação pela palavra sempre

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O QUE FAZER?

Foto: Pixabay

Para quem não tem tempo ou condição de trabalhar esta questão com um profissional, Jane dá algumas dicas. "As pessoas precisam se distrair um pouco, se divertir mais, fazer com que essa energia de vida vá para outros lugares também. Conversar com os amigos, rir um pouco, se permitir outras coisas para que isso não fique pesado e não gere até um adoecimento, uma tristeza muito profunda", indicou a psicanalista.

Por conta da pessoa ficar muito imersa e "militar" a favor do seu candidato, Jane disse que pode acontecer dela ficar muito envolvida com a causa. "O segredo é tentar equilibrar. Lutar pelos próprios ideais, mas tentar dosar com outras distrações da vida", finalizou.

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