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Entre a escola e o presídio, a cruz

A imagem que estampa a página do adolescente morto em Vitória revela um intrigante dilema

Arte em que garoto se vê dividido entre a escolha pela escola ou pelo mundo do crime

A principal imagem que estampa a página na rede social do adolescente Wedeson Souza, morto nesta terça-feira (25) durante uma perseguição policial no Bairro da Penha, em Vitória, é cercada de um simbolismo no mínimo intrigante.

No desenho, um jovem deve optar por um caminho. De um lado, a escola. De outro o presídio. Pessoas oferecem caderno, lápis e mochila de um lado; arma, faca e granada de outro.

O julgamento no tribunal das redes sociais foi rápido: Wedeson foi tratado como bandido baleado, antes mesmo que qualquer investigação tenha sido concluída, qualquer sentença oficial tenha sido expedida.

A pergunta que talvez muitos de nós não faremos por conta da pressa do dia-a-dia é: quem será que ofereceu os melhores argumentos para que o jovem optasse por algum caminho? O crime ou a "vida de bem"?

Talvez ele, Wedeson, ainda estivesse ali na encruzilhada, parado, tendo de tomar uma decisão. Um garoto de 17 anos convivendo entre a vida de menino esteorotipado como pobre-negro-do morro e o assédio da criminalidade - muitas vezes com suas ofertas de status local e dinheiro fácil.

Talvez ele não tenha tido tempo para tomar a decisão. Caiu ali mesmo, no meio do caminho, na cruz. A mãe conta que ele havia dado um abraço no irmão e saído para comprar pão. A polícia diz que ele entrou em confronto com um policial e foi baleado. Ele já havia se envolvido em confusões com a polícia, fato. Mas só as investigações poderão trazer algo mais concreto além do discurso comum da internet.

Mas é bom saber: nas periferias existem multidões de Wedeson e suas encruzilhadas.

Não cabe a nós julgá-los, dizer que a escolha pelo caminho é deles somente. Tampouco que, ao escolher o lado errado, vão arcar com as consequências sozinhos.

Esse é o lado fácil do pensamento.

Mas no morro não existe meritocracia. Não como conhecemos no mundo corporativo. O caminho é tortuoso. A vida é confusa. Escolher a escola, por exemplo, não quer dizer que serão bem-sucedidos.

É certo que devemos parar mais para pensar na vida de garotos assim. Não esquecer que ainda amargamos, por exemplo, o título de um dos piores Estados para um jovem negro viver, já que, de dez homicídios, oito foram de negros, segundo o Mapa da Violência. A maioria dessas mortes envolve jovens. O ciclo de violência que margeia o tema ainda está longe de terminar.

A pergunta é: como fortalecer o lado bom desse caminho a ser escolhido? Como convencer positivamente garotos que já crescem sabendo que, se nada der certo, vão virar bandidos?

Wedeson colocou essa ilustração em sua timeline talvez para mostrar aos outros que há uma dúvida e uma decisão a ser tomada. Mas a decisão não é só dele. Essa é a única conclusão que podemos chegar no momento.

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