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Tolerar é preciso!

Na sociedade, ou todos são tidos como dignos e, portanto, merecedores de respeito e tolerância, ou ninguém o é

Em 21 de janeiro de 2000, falecia em Salvador, na Bahia, Mãe Gilda, Iyalorixá fundadora do Ilê Axé Abassá de Ogum. Poucos meses antes, um jornal religioso publicara uma matéria difamatória ilustrada com uma foto de Mãe Gilda. Não era um ataque pessoal à Iyalorixá, mas ao Candomblé, à Umbanda e aos seus sacerdotes e crentes, de uma forma geral.

Como consequência, o terreiro de Mãe Gilda, ela e os frequentadores do local passaram a sofrer injúrias e ataques diversos. O caso ganhou repercussão nacional, e, em 2007, através da Lei Federal 11.635, o dia 21 de janeiro foi declarado Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado no último sábado.

A intolerância religiosa é, sem dúvida, uma violência que atinge com mais frequência adeptos do Candomblé e da Umbanda, entre outras religiões de matriz africana, mas está longe de ser um problema apenas dos crentes dessas crenças. Católicos, evangélicos, judeus, muçulmanos, espíritas, não importa. Para todas as religiões, há casos de intolerância registrados em nosso país.

Segundo dados da Secretaria Especial de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, o número de denúncias de intolerância religiosa feitas ao “disque 100” vem aumentando significativamente. O último balanço faz um comparativo entre 2015 e 2016, do período de janeiro até setembro, apresentando um salto de 155 para 300 denúncias registradas.

Esses números refletem, no campo das religiões, o aumento de intolerância em nossa sociedade. E em tempos de redes sociais, nos quais reputações são, com frequência e facilidade, atacados moralmente por pessoas normais, mas que, protegidos por telas de computador, sentem-se autorizadas às práticas mais levianas de intolerância para com tudo e todos que pensam e vivem de modo diferente. Infelizmente, não raras vezes, essa violência deixa o mundo virtual e se materializa em agressões e morte.

No final de 2016, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) abordou o assunto como tema da redação e pediu para que fossem apresentados os caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil. Promover o debate é uma das opções, assim como continuar denunciando os casos que ainda acontecem no país.

Tolerar é aceitar a diferença. É saber conviver e dialogar. É aceitar que apesar de todas as nossas crenças, aqueles que são diferentes ao seu convívio ou às suas tradições, seja lá qual for a diferença, é tão digno de viver segundo sua identidade e convicções quanto nós mesmos.

Numa sociedade, ou todos são tidos como dignos e, portanto, merecedores de respeito e tolerância, ou ninguém o é.

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