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Crimes invisíveis, mortes esquecidas

Cadáveres amontoados. Quem são eles? Bandidos? Inocentes? Ninguém sabe, e talvez nunca saibamos

Cadáveres armazenados sem refrigeração no DML de Vitória
Cadáveres armazenados sem refrigeração no DML de Vitória
Foto: Reprodução

Chegamos à terrível marca de cem mortes (e contando) desde que a Polícia Militar do Espírito Santo deixou as ruas.

O senso comum dos grupos de WhatsApp manda avisar que são todos bandidos, mortos em acertos de contas ao longo desses dias de medo e tensão.

Será que são?

Ou melhor: Quem são eles, afinal? Tais cadáveres amontoados no DML sem geladeira, sem nome, sem história. Quem são suas famílias? Como foram executados?

A impressão mais latente é de que foram crimes invisíveis e se tornarão mortes esquecidas. Sem condições de manter uma rotina mínima, a Polícia Civil em muitos desses casos apenas recolhe os corpos para o Departamento Médico Legal. Se houve perícia, deve ter encontrado cenas de crimes completamente bagunçadas. Se houver autópsia, será feita em condições absurdamente precárias. Se houver investigação, será feita com absoluta dificuldade pelos policiais civis.

No meio desse furacão transbordam dúvidas. Quem são os inocentes que estão morrendo nas disputas de poder entre as bandidagens? Qual satisfação será dada às famílias de TODAS essas pessoas, isenta de qualquer pré-julgamento?

Não entram na conta as tentativas de homicídio, roubos, furtos, saques, agressões e toda essa infinidade de crimes que ocorrem pelas ruas do Estado. São outros delitos que provavelmente entrarão no limbo das coisas esquecidas e mal resolvidas.

Outra dúvida: tais mortes mal contadas, mal investigadas e mal registradas entrarão nas estatísticas oficiais? Os números estão sendo fornecidos pelos policiais civis, será que temos outros assassinatos sequer informados?

Temos aqui mais uma mancha em um dos episódios mais tristes da história do Espírito Santo. Como publicado no início do ano, um Estado com 11 mil homicídios que ainda não tiveram qualquer punição. Com esses crimes, creio ser ainda mais difícil chegar a alguma resposta.

E não adianta chamar o Batman.

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