Notícia

Sobre as nossas dores

A dor é nosso inferno e paraíso na terra, e ninguém dela há de escapar. Mesmo a alegria da conquista traz nos seus escaninhos o medo do fracasso

Todos temos a nossa dor. Pode ser a perda da mãe, do amante que saiu pra comprar cigarros e foi visto nas ilhas Fiji com outra, a doença impondo freios à intensidade da vida. Sempre dói. A unha encravada, o dente siso atrás de espaço na boca, a canela indo de encontro à quina da cama. Guardamos, ainda, aquela dor sem nome, um não-sei-quê a embaralhar as ideias e trazer à luz os hematomas invisíveis.

Dói. Na boca do estômago pela notícia que me retirou o chão e fiquei a ver estrelas na varanda sem rede, nada de céu. E pode ser a dor de barriga, a campeã de nove entre dez atestados médicos, ou a sinusite tentando expulsar da cabeça rancores e ódios que um dia guardou-se na caixinha do para sempre. São esses guardados silenciosos em veias e nervos que esperam ser revirados pelo avesso, precisam ser enxotados como sinal de saúde.

A dor é nosso inferno e paraíso na terra, e ninguém dela há de escapar. Mesmo a alegria da conquista traz nos seus escaninhos o medo do fracasso: “será que consigo sustentar o sucesso?”, indago, com cordas de nylon amarrando bodes na felicidade do momento. A dor é estraga-prazer, mas também é hora de sair do conforto para o desconhecido. Senti-la nos leva a saltar no breu e descobrir na escuridão o prazer do voo cego.

O momento do nascimento é a dor inaugural: os gritos da mãe e o choro do bebê assustado com o mundo novo na sala de parto. Do aconchego da placenta, daquele mar quentinho do ventre à sala asséptica e de luz fria, um tapa na bunda pra que ele saiba: a vida aqui não é bolinho não, moleque. E abrimos os olhos pras primeiras dores do mundo sem saber o tamanho dos ombros e costas que teremos de tomar emprestados do deus Atlas pra encarar o porvir.

E porque existe a dor, ao seu lado (e não do lado contrário) estão o rio das delícias, a vastidão dos amores, a felicidade estirada sobre o orvalho da grama. Por doer, a vida traz na mala seus lenitivos como bálsamo e consolo, um jeito de fazer as feridas cicatrizarem sem tantos danos. E curamos e doemos de novo. E porque passa, não desistimos de treinar os saltos sem rede de proteção.

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