Notícia

Mais um poeta se vai. Mas quem se importa?

Ainda há lugar para a poesia nessa tal pós-modernidade?

O cantor e compositor Belchior
O cantor e compositor Belchior
Foto: Arquivo / Agência Estado

A verdade é que as loucuras vêm tomando cada vez mais conta do nosso dia a dia.

As loucuras nocivas, não as benignas.

Nestes tempos de confrontamentos virtuais agressivos, desse oito ou oitenta, onde as pessoas desfazem amizades e amores por posições políticas e ideológicas, qual será o espaço da poesia? Ainda há espaço para ela?

É uma pergunta a se fazer cada vez que um poeta morre. Hoje é Belchior, ontem foram outros, amanhã serão mais alguns.

A poesia vai morrendo cada vez que a discussão de ideias dá lugar à intolerância, ao ódio.

Estamos soterrados por uma avalanche de notícias e opiniões. Greves, corrupções, políticos, violências, medos, certezas, boatos. Ainda há lugar para a poesia nesta tal de pós-modernidade? Ainda há tempo de se ouvir ou ler alguém que traga um olhar próprio sobre nossas crises existenciais e amorosas? Ainda há chance de usarmos a arte para enfiar o dedo nas entranhas da política, por exemplo?

Pois é isso que sintetiza todo o esforço de artistas como Belchior. Só que de uma complexidade talvez dolorosa demais para um tempo em que a vida se divide entre ser vivida e consumida tão rapidamente como agora. 

Verdade seja dita: nos últimos anos interessava mais a nós saber o tamanho das dívidas de Belchior, investigar seus supostos calotes após largar tudo e partir para a reclusão em algum lugar distante. Sobrava para nós revirar os extratos do guichê do estacionamento onde ele abandonou o carro e sumiu do que revirar sua própria poesia em busca de respostas.

Revirar a poesia dá muito trabalho, e a gente não tem tempo para isso, afinal de contas.

Belchior se foi e não explicou porque decidiu desaparecer antes disso. Talvez estivesse mais interessado em Brecht do que Odebrecht. Mais Rita Lee, menos ritalina. Mais rede na varanda e menos rede social.

Não dá para dizer que a poesia anda escassa. Mas o que anda ditando as regras é mais o confronto do que a reflexão. Mais atuais do que nunca, as canções de Belchior vão continuar por aí como um alento em tempos cada vez mais difíceis.

Ele seguirá sempre alertando que precisamos todos rejuvenescer. Cabe a nós separar um tempo em nossas vidinhas corridas para ouvir com atenção.

Ver comentários