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Indústria 4.0

crescentes automações de atividades e usos da inteligência artificial desafiam os mais diversos campos da vida humana

Desde antes da eclosão da grave crise financeira global, a partir de setembro de 2008, é possível afirmar que o mal-estar difuso já se fazia presente em diversas sociedades. Até mesmo do ponto de visa das análises mais conservadoras, o Fundo Monetário Internacional (FMI) reconheceu, bem recentemente, que há motivos objetivos para tanto.

Segundo o FMI, o 1% mais rico ganhou dos “outros 99%” em termos de crescimento da renda nos últimos 30 anos nos países desenvolvidos. Os rendimentos do trabalhador não têm acompanhado a produtividade em muitos países nas últimas três décadas. Progresso técnico e integração econômica global respondem por esse processo, sendo que as pressões sociais por políticas voltadas para “dentro” crescem nas economias avançadas.

No interregno da crise vigente, vem se desmanchando no ar tudo o que parecia razoavelmente sólido. A educação é questionada no presente em diversos aspectos e, entre os relevantes debates globais contemporâneos, a perspectiva da Quarta Revolução Industrial se destaca. Crescentes automações de atividades e usos da inteligência artificial desafiam os mais diversos campos da vida humana.

O Brasil está inserido na divisão internacional do trabalho. Nesse sentido, conforme pondera Paulo Gala (FGV-EESP), em seu livro “Complexidade econômica”, editado pela Contraponto, a desindustrialização precoce brasileira e sua reprimarização exportadora são bem preocupantes. O emprego industrial na Grã-Bretanha atingiu um pico de 45% pouco antes da Primeira Guerra Mundial, mas já atingiu o pico no Brasil, Índia e China, com uma participação de não mais de 15%. Processos de fabricação industrial estão mais automatizados do que costumavam ser, e sem empregos na indústria de transformação para construir uma dinâmica classe média, os países não desenvolvidos podem cristalizar uma elevada desigualdade de renda em suas estruturas econômicas fundamentais.

Segundo aponta um estudo da consultoria McKinsey, a metade dos postos de trabalho no Brasil poderia ser automatizada, 53,7 milhões de um total de 107,3 milhões. O setor mais sujeito ao processo de expansão da automação é a indústria: 69% dos postos. Essa questão é global e o seu avanço depende de as tecnologias se tornarem relativamente mais baratas do que a mão de obra, do dinamismo do mercado e da aceitação social. Formuladores de políticas públicas nos países em desenvolvimento deveriam estar mais atentos ao assunto.

*O autor é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes)

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