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Era uma vez o racismo

Era 1963 quando Martin Luther King sonhou com um país em que as pessoas fossem julgadas pelo teor de seu caráter, não pela cor de sua pele

Era 1863 quando a escravidão foi abolida nos Estados Unidos. À época, um terço da população Sul do país era formada por negros. Uma guerra civil estava em curso e os segregacionistas diziam crer na superioridade de seus grupos sobre os negros. Tal estupidez, porém, embora nunca tenha encontrado um mínimo respaldo racional ou científico, duraria mais do que se podia imaginar.

Era 1865 quando o primeiro grupo da Ku Klux Klan se levantou em um Estados Unidos partido pelo ódio. Defensores do incompreensível “terrorismo cristão”, a KKK anunciava a supremacia branca e julgava a miscigenação como sinal do “fim dos tempos”. Nas décadas de 1910 e 1940, novas ondas racistas transformaram o grupo numa máquina de segregação, chegando a reunir 5 milhões de adeptos.

Era dezembro de 1955 quando Rosa Parks adentrou em um ônibus e se sentou na área destinada aos “superiores”. Ao recusar ceder o lugar quando brancos logo chegaram, Parks foi detida e levada para a prisão. O absurdo era regra; e parecia longe do fim.

Era 1963 quando Martin Luther King sonhou com um país em que as pessoas fossem julgadas pelo teor de seu caráter, não pela cor de sua pele. A perseguição contra o pastor levaria, cinco anos depois, à sua morte baleado na sacada de um hotel. Luther King, então, ganhou uma data em homenagem à seu legado em 1968. A mesma, porém, só foi aceita por todos os estados em 1993.

Era 2016 quando o então candidato Donald Trump lançou em campanha seu perfil de ataques seletivos e discursos racistas. A referência retrógrada do presidenciável logo despertou, então, o adormecido (mas nunca extinto) racismo americano, ressurgindo nas ruas a violência e o fracasso civilizatório.

Hoje, pois, a nova KKK inflama a América em atos que já levaram ao assassinato de estudantes e conflitos civis que remontam o passado e escancaram, mais do que nunca, a instabilidade e a ruína de nossos tempos. Entre tantas crises assistimos à decadência humana, fruto de um passado vergonhoso e de um presente lamentável.

*O autor é graduado em História e Filosofia, e pós-graduado em Sociologia

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