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Chances na crise

Somada à perda de receitas, a política de equilíbrio fiscal míope em vigor resulta em arrecadação ainda menor pela falta de dinamismo econômico

A crise financeira pela qual passam as prefeituras capixabas é grave. Somada à perda de receitas vindas do Fundap e à diminuição de royalties, a política de equilíbrio fiscal míope em vigor resulta em arrecadação ainda menor pela falta de dinamismo econômico. Tempos difíceis que podem servir para provocar novos olhares para a cidade.

Em tempos de receitas exuberantes, era comum o anúncio de obras megalomaníacas. Diante da prioridade dada ao fluxo de veículos – na maioria automóveis –, soluções como túneis, pontes, viadutos, pista exclusivas para sofisticados veículos sobre trilhos ou ônibus imitando metrô davam asas à imaginação de gestores públicos. Diante da bem-vinda impossibilidade de alimentar a opção insustentável pelo automóvel, caminhos são abertos para que as municipalidades pensem outros fazeres.

Fazeres de baixo custo que respondam a anseios da população por cidades com melhor condição de vida. Fazeres que valorizem mais o fluxo de pessoas – e aí a prioridade tem que ser para calçadas dignas, faixas exclusivas para ônibus, ciclovias e abrigos decentes em pontos de ônibus. Fazeres que resultem em locais públicos onde as pessoas possam se encontrar.

Locais públicos como praças existentes e outras que possam ser construídas; ruas que podem ser exclusivas para pedestres – de maneira permanente ou em determinados dias da semana. Espaços que podem ser direcionados para a arte na rua.

Arte na rua que incentive artistas em diversas áreas e escritores a irem ao encontro do público. Encontros que podem contar com produtos artesanais, de pequenas produções, da gastronomia.

Produções artísticas e artesanais, de menor porte, ou gastronômicas, que precisam ser apoiadas e fomentadas até como instrumentos alternativos à crise econômica que torna vulneráveis parcela crescente da população.

Apoiar e fomentar atividades que gerem ocupação e aproximem cidadãos produtores daqueles que compram seus produtos. Essas atividades precisam entrar na agenda de gestores públicos.

Centralidade que muda a forma como muitos ainda veem a cidade. Longe de ser o espaço para fluxos de pessoas e mercadorias, de habitação, trabalho e produção, nossas cidades precisam se transformar em espaço de convivência.

Convivência que nos (re)humanize. (Re)humanização que é um legítimo desejo para o setembro que chega com seus ares primaveris. Que a primavera seja tempo de transformar a crise em oportunidades.

*O autor é professor de Economia

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