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Dia dos Idosos

Desejo que o Brasil rejeite modelos censuráveis no que se refere ao tratamento da velhice. Reduzir direitos dos aposentados, como se pretende, é uma brutalidade

*João Baptista Herkenhoff

Prevenindo o esquecimento do idoso, o calendário é pródigo na lembrança dos mais velhos. Hoje é o Dia Internacional do Idoso. Em 27 de fevereiro comemorou-se o Dia Nacional do Idoso. E em primeiro de outubro, uma data curiosa: o Dia Internacional das Pessoas da Melhor Idade. Segundo as lições da Hermenêutica, trata-se de uma forma modesta de referir-se à Terceira Idade. Em vez de dizer, com censurável vaidade, que a Terceira Idade é a melhor, os criadores da data deixam subjacente a mensagem para que os bons entendedores a compreendam.

A doutrina predominante considera que, a partir dos 60 anos, mulheres e homens entram na Terceira Idade. Alceu de Amoroso Lima discordava dessa visão. No livro “As Idades do Homem”, esse pensador dividia em cinco fases a caminhada dos seres humanos: infância, adolescência, mocidade, maturidade e velhice. Para Alceu, a velhice começava aos 65 anos e não era uma idade de descida. Muito pelo contrário. Era uma idade de ascensão. Colheita de frutos. Aperfeiçoamento da vida. Sublimação. Voo. E Alceu, na sua existência, experimentou a velhice que desenhou no livro. Coerente até o fim. Lúcido. Corajoso, censurou a ditadura de 1964. O regime ditatorial não teve coragem de enfrentá-lo. Alceu tinha prestígio internacional, era amigo do papa, intocável.

A viuvez, que poderia ter sido dolorosa e triste, ele soube sublimar. Lia toda manhã uma das cartas de sua mulher. Somente uma. Nunca mais de uma. Era a fruta saborosa daquele dia.

Quando se tem boa saúde e segurança, talvez a Terceira Idade (ou a Quinta Idade, de Alceu) seja mesmo a melhor. Poder olhar para trás e contemplar a vida. Testemunhar a sucessão das gerações. Abençoar os netos, que são os filhos com especial açúcar, sempre dignos de aplauso, mesmo quando escondem os óculos do avô.

Há uma vantagem suplementar nisso de ser velho. É ter muitas histórias para contar. O jovem também pode ter vivido episódios interessantes. Entretanto, jamais seu patrimônio de reminiscências suplantará o que foi construído pelo time dos idosos.

A sabedoria popular diz que as maiores vantagens de ser idoso são estas: comprar objetos de qualquer natureza com a garantia de que não chegarão a ficar velhos; ter a certeza de que os investimentos em plano de saúde finalmente começam a valer a pena; ser avisado para ir devagar, não pelo policial, mas pelo médico.

Desejo que o Brasil rejeite modelos censuráveis no que se refere ao tratamento da velhice. Reduzir direitos dos aposentados, como se pretende, é uma brutalidade que não será esquecida pela História. Sejamos ciosos de nossa cultura, de nossa ética, bem superior a de países que constroem sua riqueza e supremacia através do poder das armas. Impõe-se que haja, no Brasil, uma “Política da Terceira Idade”, ou seja, um conjunto de medidas que tenham como fim proporcionar saúde, bem-estar, alegria e segurança aos idosos.

*O autor é juiz de Direito aposentado e escritor

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