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Nós cansamos

Cansamos da política, de delações; já não conseguimos mais acompanhar tantos réus, casos, gravações e provas. Explícita ou velada, a corrupção se generalizou

Sejamos sinceros: a verdade é que nós cansamos. Estamos saturados da realidade; estamos fartos do dia a dia e desencantados com a visão do futuro. Nos últimos três anos, fomos testados de todas as formas; nossos limites foram diariamente superados e hoje a constatação é física: nós realmente cansamos.

Nós cansamos da política. Cansamos das delações; já não conseguimos mais acompanhar tantos réus, casos, acasos, gravações e provas. Seja explícita ou velada, a corrupção se generalizou de tal modo que combatê-la parece enxugar gelo. Os atores dos crimes ainda nos governam; outros sonham com 2018; e paira no ar a certeza de que os vermes se adaptam em nome da sobrevivência.

Nós cansamos da Justiça. Seja no Supremo ou em São Paulo, a impunidade dita a lei. Em Brasília, Gilmar Mendes é o juiz que discorda do Brasil. Sua última canetada soltou os caciques do transporte público do Rio de Janeiro, alvos da Operação Ponto Final. Curiosamente, Gilmar é padrinho de casamento da filha de Jacob Barata, um dos beneficiados pelo habeas corpus.

Já em São Paulo, está de volta às ruas Diego de Novaes, homem que ejaculou no rosto de uma passageira em um ônibus na última terça. Embora o jovem tenha 17 passagens pela polícia por crimes sexuais, sendo cinco por estupro, o juiz do caso “não viu constrangimento tampouco violência” no caso e o agressor sequer permaneceu 24 horas detido.

Nós cansamos. Cansamos das reformas legislativas de bastidores; das medidas provisórias que reviram o país; do oportunismo de quem sai de cena na crise; de decretos que extinguem reservas ambientais. Cansamos de Temer, de Maia, de Fufuca; cansamos da incerteza, do pessimismo, da crise, dos impostos, do desemprego, do PIB de 0,3%, das desculpas, das promessas. Enfim, cansamos do Brasil.

E a pergunta é: o que fazer com tanto cansaço? Exaustos de corpo e alma, será que cansamos também de pensar? Aí encontramos com Descartes, que condiciona a existência ao pensamento. Sendo assim, fica a dúvida: com a mente exausta, quanto tempo durará nossa existência?

*O autor é graduado em História e Filosofia, e pós-graduado em Sociologia

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