Notícia

Velhice e animais

Animais e pessoas são mais valorizados quando jovens; ao envelhecerem, tornam-se aborrecimento, estorvo, um problema para quem com eles convive

*Maely Coelho

Em primeiro de outubro, inicia-se a semana de proteção aos animais e comemora-se o Dia Internacional das Pessoas da Terceira Idade. Penso adequado compararmos essas duas efemérides, pelo que elas têm em comum. Animais e pessoas são mais valorizados quando jovens; ao envelhecerem, tornam-se estorvo, aborrecimento, chatice, um problema para quem com eles convive. Já tive cachorros com quem convivi 18 anos e sei o quanto é sofrido acompanhar-lhes o final da vida com todos os achaques da velhice.

No entanto, não convivi, diariamente, com pessoas idosas, pois meus pais morreram jovens e não cuidei, pessoalmente, de velhos, como vejo acontecer cada vez mais frequentemente. Afinal, a sociedade está envelhecendo e, a cada dia, aumenta o número de pessoas que passa dos 60 e chega até os 100 anos de idade. Nós mesmos, da Academia Espírito-santense de Letras, já temos uma dezena de “imortais” com mais de 80 anos; alguns já passaram dos 90 e um já alcançou os 100 anos, o querido professor Américo Barbosa de Menezes. A expectativa de vida do brasileiro já está em 75 anos; homens, 72 e mulheres, 78, conforme o IBGE. Em pouco tempo, nossa média de vida chegará aos 80 anos e muitos de nós poderemos alcançar um século de existência, se possível, com qualidade e algum prazer em viver.

Caso contrário, valerá a pena viver ou devemos arrastar nossa existência como pesado fardo para nós mesmos e aos que nos são próximos?

Creio que está na hora de a sociedade pensar e planejar essa sociedade anciã. Se as prefeituras têm de cuidar da primeira infância, e a demanda por creches é uma das maiores nas comunidades, o que fazem elas pelos idosos? Casas de abrigo, de assistência e de acolhimento aos idosos deverão ter a mesma prioridade que as creches. Da mesma maneira, por que muitos abandonam os animais quando estão velhos? Cachorrinho e gatinho novos todo mundo quer, são os xodós da família; mas, quando ficam velhos, doentes e necessitam de cuidados especiais, são abandonados.

Perto do meu sítio, há um ponto na estrada antes da ponte do Rio Jucu, onde as pessoas depositam lixo, apesar da placa que proíbe, cachorros e gatos abandonados. Geralmente, são filhotes ou velhos rejeitados. Algumas almas caridosas os levam, ou lhes dão água e comida; outros são atropelados ou mortos quando importunam os vizinhos. Um deles chegou ao meu sítio com parte da orelha arrancada por um tiro, doente e faminto. Cuidamos dele e, hoje, passa os finais de semana conosco e os outros dias no sítio vizinho. É o Duque, dócil e amistoso companheiro. Agora que cheguei à terceira idade, que, em hipótese alguma pode ser considerada a “melhor idade”, irônico eufemismo a que a hipocrisia social nos reserva, vejo o quanto estamos despreparados para aceitar o envelhecimento e todas as suas sequelas.

*O autor é professor e escritor

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