Notícia

Você sabe o que é uma notícia?

Separar o joio do trigo é uma questão civilizacional, dada a importância do jornalismo para a humanidade

Ilustração para artigo: você sabe o que é uma notícia?

José Antonio Martinuzzo*

Em tempos de midiatização da vida, é possível que alguém não saiba identificar um texto noticioso? A pergunta pode parecer descabida, mas não é. Ela diz respeito à experiência comunicacional contemporânea, na qual precisamos prestar atenção, inclusive para autopsiar e combater as notícias falsas.

Essa questão resulta de conjunção de duas inquietações pessoais separadas por quase uma década de estranhamentos. Ao conhecer o site de rede social Facebook, como jornalista e professor de jornalismo, muito estranhei o fato de que o painel de atualizações de conteúdo fosse denominado “news feed” ou “feed de notícias”. Como assim? – aquilo ali era tudo menos um jornal.

Há três semanas, num evento científico, na Universidade Federal Fluminense, convidado a fazer a conferência “Fake news como sintoma de uma sociedade perversa”, assisti à apresentação da professora doutora Juliana Doretto sobre a relação de crianças e adolescentes com o jornalismo. Uma das principais verificações da pesquisa é que esse público não consegue distinguir com clareza o que é conteúdo jornalístico ou não na internet.

Nesse momento, o meu antigo estranhamento diante do Facebook atualiza-se pela descoberta da pesquisadora. Pista sutil, surgida desse encontro de percepções: algo da experiência confusa acerca das narrativas jornalísticas pode derivar de uma cultura calcada em imprecisões e descuidos com as palavras no universo digital – proposital ou não.

Corromper o significado das palavras não é algo banal como pode parecer à primeira vista. Como somos seres inventados pela cultura, bem distantes dos marcadores instintivos, tudo o que sabemos do real, ou seja, a nossa realidade – a experiência do real – tem uma intermediação, uma tradução simbólica, essencialmente uma nomeação por palavras.

Palavras que, ao darem nome a fatos, emoções, experiências, fenômenos, eventos naturais e históricos, etc., acabam por escrever mesmo o texto pelo qual lemos e redigimos o mundo. Existimos no universo da linguagem, ou seja, da narração de si e do outro, forjando um território de múltiplas relações discursivas. A palavra constitui os sujeitos e elabora as intersubjetividades. Lembrando Wittgenstein, “os limites de minha linguagem significam os limites do meu mundo”.

Nomear qualquer conteúdo como notícia pelo simples fato de que ele tem como marca uma atualização recorrente e regular – uma das características do texto denominado “notícia”, consolidado pelo campo do jornalismo em meados do século XIX – pode, por exemplo, banalizar a um ponto extremo a especificidade de uma narrativa que, por sua relevância social, não poder ser confundida com qualquer coisa que se publique nas redes.

Separar o joio do trigo aqui é uma questão civilizacional, dada a importância do jornalismo para a humanidade e seus preceitos de democracia, liberdade, fraternidade, igualdade e equidade, entre outros. Quando qualquer coisa é “notícia”, a notícia perde seu valor de relato distante da opinião e comprometido com a verdade dos fatos, elaborado sob a égide dos ideais da objetividade e da imparcialidade. Quando qualquer publicação é uma “news”, fica muito fácil achar ou dizer que tudo pode ser uma fake news.

Como já se sabe, esse é apenas mais um dado no complexo diagnóstico do mal das fake news, eivado por questões éticas, legais, tecnológicas, econômicas e político-ideológicas. Mas, considerando que as novas gerações – chamadas de Y e Z, nascidas a partir dos anos 1980 – habitam um mundo que liquefaz tudo o que é sólido e que dissolve conexões significantes caras ao processo civilizacional, colocar os pingos nos is do que é notícia e do que não é parece ser um investimento prioritário daqueles que acreditam no jornalismo e apostam numa existência fraterna e leal, porque também mediada pela verdade objetiva. O caminho passa mais uma vez pela educação e pelo respeito às palavras, incluindo-se aí orientações e esclarecimentos acerca do lugar do jornalismo e de suas ferramentas e narrativas na construção da vida civilizada.

Quase dois séculos depois de sua invenção como uma narrativa e um produto específicos, o jornalismo precisa novamente entrar na pauta da formação cognitiva e intelectual de seus públicos, sob o risco de se evaporar em meio à ignorância sobre suas peculiaridades, patrocinada inclusive pelo ataque às suas mais determinantes marcas. Afinal, nem tudo que cai na rede é notícia. Ao contrário do que parece para muita gente, principalmente àqueles que estão aprendendo a ver, ler e escrever o mundo – o seu e o nosso – sob o impreciso vocabulário das frenéticas telas das redes sociais, que mais confundem do que explicam. Letramento jornalístico já!

* Doutor em Comunicação, pós-doutor em Mídia e Cotidiano, professor na Ufes, membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória

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